O espaço da História

I - O rei de Castela não aceita a regência e senhorio da sogra

 1. COMO A RAINHA DONA LIONOR FICOU POR REGEDOR DO REINO, E DAS RAZÕES QUE LHE DISSERAM OS DE LISBOA.
 Morto elRei dom Fernando, ficou a Rainha por Regedor e Governador do reino, como nos tratos era contido, usando de toda a jurisdição e senhorio em quitar menagens e apresentar igrejas, confirmando os seus bons usos e costumes às vilas e cidades que lho enviavam requerer, como tem usança de fazer um rei quando novamente começa de reinar [1], obedecendo-lhe os fidalgos e o comum povo, como a sua Rainha e senhora, em todas as coisas. O seu ditado nas cartas, em vida delRei dom Fernando, era este, Dona Lionor, pela graça de Santa Maria, Rainha de Portugal e do Algarve, e então, por acordo dos senhores e letrados do seu conselho, se começou de chamar, Dona Lionor, pela graça de Deus, Rainha, Governador e Regedor dos reinos de Portugal e do Algarve, e em algumas [2], se acontecia nomear sua filha, chamava-a Rainha de Portugal. E os tabeliães nas escrituras punham, Eu, fuão [3], tabelião de tal lugar, por autoridade da Rainha dona Lionor, Governador e Regedor dos reinos de Portugal e do Algarve, isto aqui escrevi, e meu sinal fiz que tal é.

Ler mais: I - O rei de Castela não aceita a regência e...

II - Como se ordenam as histórias

7. PRÓLOGO À HISTÓRIA DA REGÊNCIA E DO REINADO DE D. JOÃO I.

Grande licença deu a afeição a muitos que tiveram o carrego de ordenar histórias, mormente dos senhores em cuja mercê e terra viviam e onde foram nados seus antigos avós, sendo-lhe muito favoráveis no recontamento de seus feitos, e tal favoreza como esta nasce de mundanal afeição, a qual mais não é salvo a conformidade dalguma coisa ao entendimento do homem. E assim é que a terra em que os homens por longo costume e tempo foram criados gera uma tal conformidade entre o seu entendimento e ela, que havendo de julgar alguma sua coisa, tanto em louvor dela como em seu contrário, nunca por eles é direitamente recontada, porque louvando-a, dizem sempre mais do que aquilo que é, e se doutro modo, não escrevem suas perdas tão minguadamente como aconteceram. Outra coisa gera ainda esta conformidade e natural inclinação, segundo sentença de alguns, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fome, recebendo refeição para o corpo, o sangue e espíritos gerados de tais viandas [1] têm uma tal semelhança entre si que causa esta conformidade. Alguns outros tiveram [2] que isto descia na semente, no tempo da geração, a qual dispõe por tal guisa aquele que dela é gerado que lhe fica esta conformidade tão bem acerca da terra como de seus divedos [3]. E assim parece que o sentiu Túlio, quando veio a dizer, Nós não somos nados a nós mesmos, porque uma parte de nós tem a terra, e outra, os parentes. E por isso o juízo do homem acerca de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre sopega [4].

Ler mais: II - Como se ordenam as histórias

III - Das fintas que a morte fez ao Andeiro

8. COMO O CONDE HOUVERA DE SER MORTO POR DIVERSAS VEZES E NENHUMA TEVE AZO DE SE ACABAR.

Falando alguns da morte do Conde João Fernandes, onde se começam os feitos do Mestre, alegam um dito de que nos não apraz, dizendo que a fortuna muitas vezes escusa por longo tempo a morte a alguns homens para depois lhes azar mais desonrado fim, assim como fez a este Conde João Fernandes, que muitas vezes lhe desviou a morte que alguns tiveram cuidado de lhe dar por maneira a que depois o deixasse nas mãos do Mestre, para o matar mais desonradamente. E nós neste dito não somos contentes, pois que tanto por razão do que o matou como da morte que por ele houve, nenhum dos outros o matar pudera que lhe muito maior desonra não fora. Mas temos que o muito alto Senhor Deus, que em sua providência nenhuma coisa falece, que tinha disposto de o Mestre ser rei, ordenou que o não matasse outro senão ele, e isto em tempo assinalado e com certos azos, posto que poderoso fosse de o doutra guisa fazer.

Ler mais: III - Das fintas que a morte fez ao Andeiro

IV - Revolução em Lisboa

18. DO ALVOROÇO QUE FOI NA CIDADE CUIDANDO QUE MATAVAM O MESTRE, E COMO ALI FOI ÁLVORO PAIS E MUITAS GENTES COM ELE.

O pajem do Mestre, que estava à porta, como lhe disseram que fosse pela vila, segundo já era percebido [1] , começou de ir rijamente a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo a altas vozes, bradando pela rua, Matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acorrei ao Mestre, que o matam! E assim chegou a casa de Álvoro Pais, que era dali um grande espaço.

Ler mais: IV - Revolução em Lisboa