O espaço da História

XXII - Com NunÁlvares de Monsaraz a Palmela

A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».

 

143. COMO NUNO ÁLVARES ORDENOU DE TOMAR MONSARAZ POR ARTE, E DE QUE GUISA FOI FILHADO.

 

Estando NunÁlvares nesta cidade, para acudir a qualquer parte onde os inimigos quisessem fazer guerra, soube novas de como Gonçalo Rodrigues de Sousa, que tinha o castelo de Monsaraz e se lançara com os castelhanos, mandara àquele a quem entregara o castelo que levantasse voz por elRei de Castela e guardasse a fortaleza por ele, coisa da qual NunÁlvares foi muito anojado por ser lugar no estremo e de onde algumas vezes entendia de ordenar coisas para serviço do Mestre, e também porque tão bom fidalgo como ele (Gonçalo Rodrigues) e outros tais em que o Mestre confiava e a quem fazia mercês não andavam sãmente ao seu serviço, conforme alguns por obra mostravam, e porque agora se via que era verdade a suspeita que dele tiveram no Porto quando ia por capitão da frota.

Onde sabei, pois ainda o não dissemos, que este Gonçalo Rodrigues era filho de Rodrigo Afonso de Sousa, rico homem, e de Constança Gil, mulher solteira de que o houvera em sendo casado.

E desejando Nuno Álvares de haver aquele castelo teve uma maneira para tal. Soube por informação certa que o escudeiro que era Alcaide não tinha consigo senão a sua mulher e poucos homens, e que estava minguado de mantimentos. E falou NunÁlvares com um escudeiro de que fiava, e deu-lhe por parceiros até dez ou doze para que se fossem lançar uma noite no arrabalde do lugar, e disse-lhe que ele, da outra parte do castelo, mandaria lançar lá em baixo, num vale que aí há, cinco ou seis vacas como que se andassem desamparadas e tivessem ficado dalgum roubo que os castelhanos levaram, e que entendia que o Alcaide sairia a elas pela porta que chamam Colorquia e não curaria de a fechar, por causa de trazer as vacas para o castelo, e que eles estivessem de atalaia a isto e, mal o vissem sair do castelo, que logo em ponto saltassem todos lá dentro e fechassem rapidamente as portas sobre si.

Os escudeiros lá foram, e uns poucos deles meteram-se em algumas casas mais chegadas bem cerca do castelo, e outros puseram-se atrás de penedos e barrancos que são juntos muito perto. E sendo as vacas lançadas antemanhã onde Nuno Álvares ordenara, levantou-se o Alcaide e viu-as andar naquele vale, e como as viu, teve que Deus lhe trazia a boa ventura pela porta e saiu-se logo rijamente, de guisa que com a aguça de ir às vacas não curou de a fechar nem de mandar pôr nela guarda, pensando de se tornar logo com elas.

Os escudeiros que estavam de guarda sobre ele, quando o viram sair cá fora, foram-se logo rijos à porta e entraram no castelo, e lançaram fora a mulher do Alcaide e os que com ela estavam, e fizeram saber a NunÁlvares como o castelo era filhado, da qual coisa ele foi muito ledo, e mandou pôr nele recado como cumpria e fê-lo saber ao Mestre, a quem isto muito prouve.

 

144. DO RECADO QUE JOÃO RODRIGUES DE CASTANHEDA MANDOU A NUNO ÁLVARES, E DO QUE SOBRE ISSO AVEIO.

 

NunÁlvares sendo assim em Évora, chegou-lhe recado e soube por certo que um grande e muito notável cavaleiro a que chamavam João Rodriguez de Castanheda, que era capitão de trezentas lanças, e Garcia Fernandez, Comendador mor da Ordem de Santiago, com outros cavaleiros e mui boas gentes, chegara a Badalhouce dizendo que o queria ir buscar, e esta vinda escrevem alguns que foi por mandado delRei de Castela. NunÁlvares, como isto ouviu, foi-se logo a caminho de Elvas, antes que João Rodriguez partisse de Badalhouce, para o escusar de trabalho.

João Rodriguez, quando soube que NunÁlvares era em Elvas, que são daí três léguas, mandou-lhe dizer por um seu trombeta que bem sabia como seu senhor, elRei de Castela, era Rei de Portugal de direito, e que se a NunÁlvares lhe prouvesse de o servir e ser seu vassalo, que ele, João Rodriguez, haveria com elRei para que o acrescentasse em estado e lhe fizesse muitas mercês, e que se o fazer não quisesse, que ele o iria buscar; e que o aguardasse ali, que logo no dia seguinte lá seria para lhe pôr a praça, se NunÁlvares a ela ainda quisesse vir, pois bem via que fazia mal em dar a elRei guerra em sua terra.

NunÁlvares recebeu bem o trombeta e mandou-o logo agasalhar, e deu-lhe depois em resposta que dissesse a João Rodriguez que ele bem sabia como nos tratos que elRei de Castela fizera com elRei dom Fernando, quando casara com a sua filha, eram contidos certos capítulos aos quais ele não guardara, e que se viera meter no reino contra o juramento que feito tinha. E que ele enviasse dizer a elRei de Castela que se alçasse de sobre Lisboa e se tornasse para sua terra, mantendo os tratos como neles era posto, e que assim poderiam todos ser de acordo, e doutra guisa não. E quanto à parte em que dizia que o queria vir buscar e pôr-lhe a batalha, que lhe prazia muito de sua vinda e que lhe teria bem feito o jantar. E com esta resposta se partiu o trombeta no outro dia de manhã, e ainda não iria fora das vinhas pouco mais de dois tiros de besta quando NunÁlvares mandou dar às trombetas, e saíram os da vila com ele tão ledos como se fossem para a boda, assim homens de armas como peões.

E seriam por todos, com os de NunÁlvares, até quatrocentas lanças mais peões e besteiros. E João Rodriguez teria bem quinhentos homens de armas e trezentos ginetes, e de outra gente de pé assaz dela, tanto dos que consigo trouxera como dos moradores do lugar.

E em contando o trombeta a resposta que levava a João Rodriguez e a esses cavaleiros que com ele estavam, havendo eles isto tudo por escárnio e rindo de tal resposta, foi NunÁlvares avistado onde ia com as suas gentes, e eles se maravilharam disto e cavalgaram muito à pressa e saíram fora da cidade, e quiseram embargar o porto (a travessia) da ribeira (margem) do Guadiana que vai por aí cerca, e NunÁlvares passou a mau grado deles, e ali foi desenvolta uma mui grande e forte escaramuça, bem pelejada, na qual até vinte escudeiros de João Rodriguez foram presos e muitos feridos, e ele teve por força de dar a volta com os seus e de lançar-se na cidade, mandando cerrar as portas.

Nuno Álvares deteve-se por mui grande espaço em redor do lugar, a tracto de virotão, aguardando se sairiam outra vez cá fora para vingar algum queixume, se o haviam, mas nenhum foi ousado de o mais acometer, e ele veio-se com as suas gentes bem ordenadas para Elvas, donde partira.

 

145. COMO NUNO ÁLVARES HOUVE RECADO DE QUE GENTES SE JUNTAVAM PARA O VIR BUSCAR, E DA MANEIRA QUE NISTO TEVE.

 

ElRei de Castela, havendo grande sanha da guerra e desprazer que NunÁlvares lhe fazia naquela comarca de que era fronteiro, e tendo sentido da morte do Mestre de Alcântara, que fora morto na batalha dos Atoleiros como ouvistes, ordenou a um grande capitão da sua hoste e muito famoso como bom homem de armas a que chamavam Pero Sarmento, Adiantado mor da Galiza, que tomasse das suas gentes quantas quisesse e fosse ao Alentejo buscar NunÁlvares, e que este, morto ou preso, de nenhuma guisa lhe escapasse, prometendo Pero Sarmento a elRei, ao falar com ele nesta estória, que o açoitaria no cu, como se faz aos meninos.

Outros escrevem que o Prior do Hospital, dom Pedro Álvares, irmão de NunÁlvares, e este Pero Rodriguez Sarmento pediram a elRei por mercê que lhes desse para isto licença, porque eles queriam ir vingar a morte do Mestre de Alcântara, e que elRei a deu.

Encontrando-se NunÁlvares assim em Elvas, chegou-lhe recado de que muitas gentes dos castelhanos estavam então no Crato, e que do arraial sobre Lisboa, onde elRei de Castela se achava, haviam de vir para se juntar com elas o dito Pero Sarmento e o Prior do hospital, seu irmão, com seiscentas lanças.

NunÁlvares, tanto que isto ouviu, houve logo seu conselho de lhes ir ter ao caminho a Ponte do Sor, antes que se juntassem com as outras gentes, e partiu-se à pressa de Elvas e andou com a sua hoste nesse dia sete léguas, e foi-se alojar à fonte da Figueira que está no cabo do Ameixial, a caminho do Cano, e mandou de noite pôr as suas guardas e escutas como havia em costume. E sendo já alto serão, umas trinta lanças da sua companha alongaram-se do alojamento do arraial contra o Cano, para as suas bestas passarem melhor, que andavam muito trabalhadas, e levaram consigo um trombeta que andava em companhia dum daqueles que assim se apartaram, e quando veio a meia-noite esse trombeta, por míngua de bom avisamento, começou a tanger e foi ouvido no alojamento onde NunÁlvares jazia, e cuidaram que eram os castelhanos que iam buscar que lhes vinham ao encontro. E logo NunÁlvares mandou dar às trombetas e foi posto (formou) em batalha com todos os seus armados, e assim a pé, à luz das tochas, foi ordenadamente até onde o trombeta tangera, e quando soube o que era tornou-se para donde partira, e defendeu que daí em diante ninguém fosse ousado de se apartar da hoste por nenhuma coisa que fosse.

Como foi manhã, NunÁlvares partiu a caminho da Ponte do Sor e, indo além dAvis, veio-lhe certo recado de que Pero Sarmento e o Prior, seu irmão, e as outras gentes que com eles partiram do arraial para o Crato já tinham passado por aquele lugar havia um dia, da qual coisa muito lhe desprouve, e àqueles que eram com ele. E dali se tornou ao Cano, onde foram bem pensados de figos, que outro mantimento aí não havia por causa da guerra que não consentia de lá morar ninguém, nem eles o traziam, e dali se vieram para Évora.

 

146. COMO NUNO ÁLVARES PÔS BATALHA A PERO SARMENTO E A OUTROS CAPITÃES E NÃO QUISERAM PELEJAR COM ELE.

 

Estando NunÁlvares em Évora, cuidoso (preocupado) com estes feitos, chegou-lhe recado de seu senhor, o Mestre, no qual lhe fez saber que do arraial delRei de Castela eram partidas as seiscentas lanças para se juntarem no Crato com as outras gentes que aí estavam e lhe irem pôr batalha, e que o encomendava a Deus, e também lhe enviou dinheiros para o soldo dum mês, de que por então muito haviam mister. E logo após este recado chegou-lhe outro de que Pero Sarmento e o Prior, seu irmão, e João Rodriguez de Castanheda e o Conde de Nevra, e o Mestre de Alcântara, que viera por mestre (sucedera no cargo) depois da morte do outro que morreu na batalha de Fronteira, e MartinhAnes de Barvuda, que se intitulava Mestre dAvis, e outros fidalgos e escudeiros que eram, por todos, duas mil e quinhentas lanças e seiscentos ginetes, e muitos peões e besteiros, estavam todos juntos no Crato e ali se estavam corrigindo das coisas que lhes mister faziam para a sua entrada, querendo-o ir buscar e pôr-lhe batalha e, ademais, roubar e correr todo o Entre Tejo e Odiana na pior maneira que o fazer pudessem.

NunÁlvares mandou logo emissários pela comarca para juntar a si mais gentes do que as que tinha, e juntaram-se, por todos, quinhentas e trinta lanças e cinco mil entre homens de pé e besteiros. Nisto partiram aqueles senhores com toda a sua gente do lugar do Crato, correndo a terra, e chegaram a Arraiolos, o qual alguns contam que foi então combatido e tomado por força; porém, os que mais certos nisto falam, dizem que lhes foi dado por alguns não bons portugueses, dos quais fora o principal Gonçalo Mendes dOliveira, que era parente da Rainha.

Dali enviou Pero Sarmento, por um cavaleiro da sua companha que chamavam Garcia Gonçalvez de Ferreira, a NunÁlvares uma carta muito desmesurada, à qual este não curou nem quis responder, e mais lhe enviou uma espada de armas de duas mãos e mandou ao cavaleiro que a desse a NunÁlvares em gajas e o desafiasse da sua parte, dizendo-lhe que, se com ele viesse a campo, o entendia de açoutar no cu como a menino.

Nuno Álvares, sem mostrar de si sanha, embora as palavras fossem descorteses, recebeu bem o cavaleiro e tomou a espada e aceitou a desafiação, e mandou que o aposentassem bem e disse que lhe daria depois a resposta. E ordenou logo os que ficariam de guarda na cidade e tudo o resto que viu que cumpria, e houve por seu conselho de sempre ir primeiro a eles antes que eles viessem a si.

No dia seguinte ouviu NunÁlvares cedo as missas e mandou chamar o castelhano que lhe trouxera aquela desonesta carta e desafiação, e disse-lhe com gesto prazível: Cavaleiro amigo, agora vós ide-vos com Deus e dizei a meu amigo Pero Sarmento e a esses capitães que são em sua companhia que se venham ao caminho quando quiserem, e aí me acharão prestes como eles desejam.

Garcia Gonçalvez partiu-se logo, maravilhando-se muito de sua mesura e ardideza.

Nisto, estando Nuno Álvares para comer, foi certificado de que os castelhanos se vinham chegando quanto podiam, e como isto soube, sem mais comer coisa nenhuma, mandou dar às trombetas para cavalgar, e as suas gentes comeram e beberam pé terra, cada um como melhor pôde, e foram juntos com ele muito à pressa. E ele partiu logo com todos mui ordenadamente e foi além da quinta dOliveira, a pouco mais duma légua da cidade, e naquele local se deteve e esperou os inimigos.

Aí comeria NunÁlvares se tivera o quê, pois ele não mandou levar azémolas nem outra carriagem, entendendo que teria a batalha muito prestes mal chegasse, visto que os castelhanos eram muitos e eles mui poucos em comparação com eles, e depois cuidava que quem vencesse o campo acharia o que houvesse mister. E buscaram-lhe alguma coisa de comer pela companhia, e não acharam outra vianda salvo um pão encetado e um pequeno ravom (rábano) e um pouco de vinho que um homem de pé levava numa cabacinha, e estas foram as suas iguarias para aquele dia todo em que esteve, com a sua batalha posta à beira do caminho, aguardando os castelhanos até à noite.

No outro dia pela manhã bem cedo partiu e foi-se ao Divor, a uma légua daquele lugar. E ali ordenou a sua batalha pé terra, tal como antes, e pôs sua avanguarda e réguarda, e alas de homens de armas e peões e besteiros, como bem sabia fazer, e ele estava na avanguarda.

Ali veio Pero Sarmento e o Prior e esses outros capitães, e ordenaram a sua batalha a cavalo de avanguarda e réguarda e alas, mui cerca uns dos outros, e deixaram-se estar quedos sem mostrança de querer pelejar. Os ginetes dos inimigos cercavam os portugueses todos, de guisa que de Évora não podia vir ninguém para a companhia de NunÁlvares, nem dos seus sair nenhum para a cidade que logo não fosse preso. E faziam os ginetes algumas arremetidas sobre os homens de pé e onde melhor entendiam, mas tudo achavam prestes na defensão, sem lhes poder empecer.

Estando assim os castelhanos por grande espaço, receando começar a batalha, mandaram dizer a NunÁlvares que bem via como o seu jogo era departido (arriscado), e que de tal intenção qual tinha não curasse, porque bem visto era que não havia em ela defensão, mas que ao invés se tornasse ao serviço delRei de Castela, que o acrescentaria fazendo-lhe muitas mercês, como ele bem as merecia, e que este era mais são conselho do que se perder com quantos ali estavam.

A estas e outras tais razões, NunÁlvares disse de forma breve ao mensageiro que daquelas palavras não curasse mais, mas que se fosse em boa hora e dissesse àqueles senhores que a ele o enviaram que lhe parecia que não era bem do tempo se estar assim a passar debalde, e pois que o mandaram desafiar, que pouco faziam por sua honra ao serem tantos e tão bem encavalgados – e eles, pelo contrário, tão poucos e a pé – e tardarem tanto em não virem à batalha que buscavam e tinham tão prestes, como ele bem via, e pois que eles eram a cavalo e vinham demandar a batalha, que eles a deviam começar primeiro, ou então que ordenassem a sua batalha pé terra e que ele, NunÁlvares, os iria acometer, e que portanto lhes prouvesse dum modo ou doutro modo de virem a ela.

A estas razões não atenderam os castelhanos, mas deixaram-se estar assim com a sua batalha posta, e pela noite afastaram-se um pedaço e assentaram o seu arraial.

NunÁlvares, vendo que os castelhanos faziam isto por sajaria (astúcia) para os esfaimar, havendo já dois dias e uma noite que eram fora da cidade sem mantimentos, e que ao recolher (na retirada) os poderiam matar a seu salvo sem batalha, decidiu de se tornar naquela noite a Évora para no outro dia voltar à batalha percebido de mantimentos, se lha quisessem pôr. A qual noite foi de grande tempestade de água e de cerração, e o recolhimento perigoso, de guisa que alguns perdiam a direcção e, não sabendo vir para a cidade, iam dar ao arraial dos castelhanos e ali os filhavam e tomavam por prisioneiros; outros ficavam pelas vinhas comendo uvas e ali os achavam seus inimigos e os prendiam e matavam.

NunÁlvares chegou alta noite a Évora, e quando veio a manhã soube que os castelhanos tinham levantado o seu alojamento e iam a caminho de Viana, a duas léguas de Évora. E como eram bem encavalgados correram a terra e levaram o mais de roubo que puderam, e foram-se para Arraiolos; e dali seguiram alguns deles para o Crato, e Pero Sarmento e João Rodriguez de Castanheda e outros cavaleiros até setecentas lanças partiram a caminho de Lisboa por Almada, até ao arraial delRei de Castela.

E foram falar então a elRei, do qual foram não bem recebidos, por não pelejarem com NunÁlvares conforme ficaram de pelejar; e escusando-se eles com frias razões, foram desditos por elRei, dizendo este contra eles que não lhes podia NunÁlvares mais fazer do que lhes pôr a praça no campo, esperando dois dias a batalha, e que por cobardice não ousaram de pelejar com ele. Disto tiveram grande sentido Pero Sarmento e o Prior, vendo a grande míngua (falta, descrédito) que por eles passara (os atingira).

 

147. COMO NUNO ÁLVARES ORDENOU DE IR A ALMADA SOBRE PERO SARMENTO E DO QUE EM RELAÇÃO A ISTO ACONTECEU.

 

Grande sentido teve Nuno Álvares do jeito que os castelhanos com ele tiveram ao lhe fazer pôr a praça duas vezes, não querendo vir à batalha, e isto para o desbaratarem por sajaria de arteirice e não por razoada ardideza, pois muitas mais gentes e melhor corrigidas eram; e ademais, por roubarem daquela guisa a terra de que ele estava por fronteiro, teve-se por escarnecido deles, e cuidou de lhes preparar um jogo semelhante, ou com melhoria, se o fazer pudesse.

E pelas suas esculcas que mandou a Almada soube parte (teve conhecimento) do que Pero Sarmento e João Rodrigues de Castanheda e outros fidalgos faziam, e tendo vontade de vir sobre eles quando para isso visse razoada altura, juntou as suas gentes, que passariam de trezentos lanças, afora homens de pé e uns poucos besteiros, e veio-se com eles a Palmela e ali se deteve e ordenou a sua ida. E se alguém aqui diz que NunÁlvares desta vegada (vez) tomou o castelo de Palmela, a isto não damos fé nem está em razão de crer, porque os lugares do Mestrado de Santiago sempre tiveram voz por Portugal depois que o Mestre dom FernandAfonso de Albuquerque se veio a Lisboa, como dissemos, e se ele então o tomou que se fez dos castelhanos e do Alcaide que nele estava e tinha voz por Castela? Porque em todos os lugares que a sua voz mantinham, em todos pôs elRei alcaides e gentes que os guardavam. Bem seria preciso, para isto provar, dizer ao menos o nome do Alcaide e, de modo muito breve, como fora tomado, mormente tratando-se de lugar tão forte e tão mau de filhar, mas, como se vê, não houve licença para o dizer.

No outro dia, para espaçar, foi NunÁlvares correr monte não longe da vila e matou um grande e formoso porco, ao qual mandou pôr em cima duma boa azémola, e fez seguir quatro homens de pé com ela e um escudeiro a que chamavam Gonçalo Martins Farazom, a quem deu carrego de o apresentar.

Ora aqui escrevem alguns que NunÁlvares enviou este porco de presente a Pero Sarmento e lhe mandou dizer que daí a poucos dias o iria ver, e que Pero Sarmento foi ledo com isto e o enviou logo ao arraial, a elRei de Castela, e que mandou dizer a NunÁlvares que lho agradecia muito, e que quanto ao mais não lhe respondeu. Outros acrescentam sobre isto e contam que NunÁlvares, quando lhe enviou aquele porco, lhe mandou dizer que queria ir jantar com ele, e que Pero Sarmento respondeu que viesse quando quisesse em muito boa hora, que prestes acharia a salsa.

Mas examinadas tais opiniões, conforme um estoriador escreve, não satisfazem ao razoado entendimento, e claramente se mostra ser assim, pois se o presente de Nuno Álvares fosse apresentado a Pero Sarmento com tais palavras, como estes dizem, subjugaria tanto a sua condição a se avisar logo dele que a NunÁlvares seria depois muito mau de fazer coisa que sobre isto tivesse pensada. Nem os que desta guisa contam esta estória fazem nenhuma menção de Pero Sarmento à chegada de NunÁlvares sobre Almada, nem de coisa que com ele lhe aviesse, e pois como queríeis vós que fizessem menção daquele que não estava aí, e quando não lhe foi apresentado porco nem porca?

Por isso deixando seus errados ditos, e segundo as razões de um autor que muito esquadrinhou este feito com semelhantes dúvidas, deveis de saber que uma quarta-feira pela manhã, postumeiro dia do mês de Agosto, partiram os homens de pé com aquele porco a caminho de Almada, que são dali umas boas cinco léguas, e quando chegaram aí ao meio-dia não acharam Pero Sarmento, porquanto era além rio no arraial delRei de Castela, e puseram o porco em Cacilhas, porto de Almada, atendendo que Pero Sarmento tornasse. O porco enviado, falou Nuno Álvares com os seus para que tivessem à chegada certos carregos, cada uns nos seus lugares, convém a saber: que uns fossem às barreiras e palanques que estavam feitos nas entradas das ruas e os britassem à força, antes que os castelhanos aí acudissem, e que alguns deles se metessem entre o arrabalde e a vila para filharem os que do arrabalde na vila se quisessem lançar. E com estes havia de ir a sua bandeira, e se achassem a porta aberta que entrasse a bandeira lá dentro com aqueles homens de armas que a acompanhavam, ou, senão, que aguardassem e se lançassem dentro na volta com aqueles que para lá fugissem, e que assim se tomasse o castelo. Outros haviam de ir ao porto de Cacilhas para, se alguns castelhanos da frota atravessassem, os embargarem a não tomar terra.

E porquanto NunÁlvares foi certo que em Coina, a três léguas dAlmada, estavam de guarda trinta ginetes para irem dar novas aos do lugar caso algumas companhas suas ou doutra parte viessem, porque aquele era o razoado caminho por onde haviam de vir, por esta razão partiu ele, com aquela intenção que dissemos, bem sol-posto já tarde, e levou o caminho da charneca por cima de Azeitão contra Sesimbra, que passava arredado uma légua daquelas escutas, de todo cuidando ser na alva rompente em Almada. E andou toda aquela noite bem sete léguas, e as mais delas fora do caminho. E não sendo as guias bem certas, e depois por as trevas serem um pouco espessas, cuidaram que eram já perto de Almada, e NunÁlvares deteve-se já quanto (nessa altura), e dormiram cada um o seu pouco, e quando se levantaram e começou a amanhecer viram que estavam mais longe do lugar do que pensavam.

Então se trigou NunÁlvares de andar mais rijo, e, saindo o sol, chegou a um lugar que chamam a Sovereda, que é a cerca de uma légua de Almada, e vendo que já era tão tarde, falou aos seus que andassem a trote e a galope quanto as bestas os levar pudessem, e eles assim o fizeram, de guisa que, embora toda a terra já fosse cercada e coberta pelo sol, ainda eles chegaram em tempo que muitos dos castelhanos jaziam nas camas, aos quais mal prestou o sono da manhã. E o primeiro que à barreira chegou foi NunÁlvares, com três escudeiros que à pressa se desceram pé terra, e com estes entrou NunÁlvares pela barreira do arrabalde dali contra Coina, dando-se às lanças com alguns castelhanos que o embargar queriam, depois chegou logo a sua bandeira, que vinha muito perto, com todos aqueles que a guardavam, e tomaram a rua direita que vai contra Cacilhas, fazendo cada um o melhor que podia.

Nisto os castelhanos, que pouco cuidado tinham de semelhante feito, parte deles dormindo, outros jazendo no seu vagar, quando ouviram bradar no castelo e pelo arrabalde Armas! Armas! Castilha! Castilha!, lançavam-se uns fora da cama para saber o que era, outros vestiam-se, querendo-se armar à pressa, e os que já andavam fora das pousadas faziam-se prestes a defender as ruas, porém o desacordo era tão grande que a sua defensão prestava muito pouco, pois o seu principal cuidado era de trabalhar para escapar com vida. Mas juntando-se alguns, cobraram coração e quiseram tornar contra NunÁlvares pela rua por onde este ia, conhecendo já que era ele, e um seu peão chamado Lopo Álvares saiu de travessa (atravessou-se) entre NunÁlvares e os inimigos e remessou um castelhano com uma ascuma, e deu com ele por terra, morto, e fugindo os outros o quanto mais podiam, não querendo aguardar por semelhante jogo, ia com eles de mistura João Rodriguez de Castanheda, que se levantou rijo da cama na pousada onde descansava, sem ter podido acabar de vestir um gibão.

A bandeira de NunÁlvares chegou bem acompanhada até à porta do castelo, cuidando de a achar aberta como levavam divisado, mas os do castelo cerraram as portas, recolhendo primeiro lá dentro aqueles que puderam; dos restantes, alguns deles lançavam-se na barbacã, e outros pelas barreiras, cada um como melhor podia.

Encerrados os castelhanos dentro do castelo, e não lhes podendo mais empecer, ficaram ali alguns homens de armas e os outros tornaram sobre o arrabalde, onde mataram e prenderam muitos castelhanos, àqueles que fugiam pelos telhados e outros que se escondiam em lugares escusos, de guisa que muito poucos escaparam que não fossem presos ou mortos, e se não fora tanto de dia nunca nenhum escapara (apanhá-los-iam todos a dormir). Ademais, como homens desacordados que não tinham sentido senão de fugir, nem puderam levar consigo as coisas que tinham, e foram-lhes filhados todos os cavalos e azémolas e quantas armas e boas coisas tinham, assim a Pero Sarmento como a todos os outros que pousavam fora do castelo.

Depois que o arrabalde foi todo roubado, mandou NunÁlvares dar às trombetas e recolheu a si toda a sua gente, e aqueles a quem foi mandado que guardassem o porto de Cacilhas ainda acharam estar na ribeira o porco que NunÁlvares enviava a Pero Sarmento, aguardando por ele quando tornasse do arraial. A gente recolhida, e todos cerca dele, moveu-se a um monte dos que estão sobre o mar (estuário), e fê-los pôr ordenados em aaz (formação) com a sua bandeira no meio tendida, dando às trombetas e apupando com outros sinais de ledice, e isto à vista da cidade e do arraial dos castelhanos, os quais, vendo-os estar daquela guisa, cuidavam que eram as gentes da vila que faziam alardo para lhes pagarem o soldo, ao passo que os da cidade (Lisboa) cuidavam que eram das gentes dos inimigos.

ElRei, que sabia que tal soldo não mandara pagar, bem cuidou que era outra coisa, e pensando que porventura ordenara aquilo Pero Sarmento, mandou-o chamar e perguntou-lhe que gentes eram aquelas que estavam naquele outeiro. Certamente, Senhor, não sei, disse ele, mas diz-me a vontade que é NunÁlvares.

Em verdade, disse elRei, essa é agora boa resposta! Serdes vós fronteiro daquele lugar e vir-vos um escudeiro de cinco rocins fazer tal baldão!

E assim o dizeis vós, Senhor! Pois agradecei a Deus e a este rio que está entre vós e ele, que se este mar aqui não fosse vos viria buscar onde estais.

Então se partiu Pero Sarmento à pressa, ainda não acabado de vestir, e meteu-se numa galé, e elRei mandou que vogassem as outras e meter nelas gentes de armas, mas tal não se pôde fazer tão asinha por não estarem para isto percebidos (preparados).

NunÁlvares esteve assim quanto lhe prouve, de cuja vista elRei tomou grande nojo, e os da cidade mui grande prazer, quando souberam que era ele.

A galé em que entrou Pero Sarmento chegou antes que as outras ao porto de Cacilhas, e quando ele foi em terra começou a dizer a altas vozes: Castilha! Castilha! Não é nada, não é nada! Bradando à pressa que lhe trouxessem um cavalo.

Não sei, disse um castelhano daqueles que foram roubados, como vós dizeis não é nada! Não é nada! Mas dou ao demo a coisa que a mim me ficou de quanto eu tinha, tanto em bestas como armas, que me de todo não levaram, e ainda por grande ventura escapei da prisão ou da morte, e assim todos quantos éramos, e dizeis vós que vos tragam cavalo! E que a vós presta de vos trazerem cavalo, ainda que o aí houvesse, quando Nuno Álvares se foi já com toda a sua gente à sua vontade, como quis?

Não monta (interessa) nada, disse ele, tragam-me a mim o cavalo, se o aí há, ao menos verei como se vão, e então mais não se fez sobre isto.

NunÁlvares foi comer a Coina, e ali repartiu o esbulho por todos sem haver para si parte alguma, e daí cavalgou e foi a Palmela, e quando foi de noite mandou fazer tais almenaras de fogo de modo que as vissem de Lisboa, para saberem os da cidade que ele ali estava e tomarem algum esforço.

E certamente assim foi de facto, porque o Mestre, quando viu aquelas almenaras de fogo em Palmela, bem entendeu que era NunÁlvares que aí estava com as suas gentes, e houve mui grande prazer, ele e todos aqueles que as viam, e mandou acender muitas tochas no grande eirado dos Paços delRei onde então pousava, para as verem de Palmela e lhe dar a entender que via as suas almenaras e lhe respondia com aqueles lumes, pois outra fala entre eles não podia haver. E assim esteve o Mestre por um bom espaço falando com os seus nos feitos de NunÁlvares, com aquele doce razoar e louvores que tão leal servidor merecia de dele se dizerem, e depois disto recolheu-se para a sua câmara.

NunÁlvares também apagou os seus fogos para recobrar o sono que antes perdera, onde fique com as boas-noites, e nós tornemos para ver em que ponto está a atribulada da Lisboa.