O espaço da História

XII - Como se forma um exército

A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».

 

87. COMO O MESTRE ORDENOU POR FRONTEIRO ENTRE TEJO E ODIANA NUNO ÁLVARES PEREIRA.

 

Em meio a este tempo que dissemos, passando-se as coisas que haveis ouvidas, vinham ao Mestre muitos recados a Lisboa, onde estava, em como vilas e castelos dEntre Tejo e Odiana tomavam a sua voz, e como as filhavam pela força os moradores dos lugares àqueles que as tinham por elRei de Castela, notícias com as quais o Mestre e todos os que eram com ele tomavam muito grande prazer.

E vindo-lhe assim estas boas novas, chegou-lhe um novo recado que o pôs em grande e cuidoso pensamento, dizendo alguns concelhos daquela comarca que porquanto eles haviam tomado a sua voz, do que elRei de Castela havia grande despeito, mandara este a Fernam Sanchez de Thoar, seu Almirante mor, que, depois que armasse a frota para vir sobre Lisboa, juntasse as suas gentes e se viesse por terra de Alcântara, onde o Mestre estava, e que eles e dom João Afonso de Gozmão, Conde de Nevra, e dom PedrÁlvares, Prior do Hospital, e outros senhores com suas companhas, viessem combater aqueles lugares que tinham voz pelo Mestre dAvis e destruíssem toda aquela terra, e se fossem depois para ele ao cerco de Lisboa; e que estiveram sobre Portalegre cinco dias, e cortaram vinhas e olivais e fizeram outro muito dano, e que assim o faziam por onde quer que chegavam, e que por isso lhe pediam, por mercê, que lhes mandasse algum capitão a que todos se juntassem para haverem de pôr os inimigos fora daquela terra.

O Mestre contou esta coisa a alguns de que fiava, e falando-lhes no Conde Álvoro Peres de Castro, se era bem de lá ser enviado, punham nele dúvida por ser parente da Rainha e, além disso, por outras coisas que em seu lugar tocámos. Falando para isto mesmo noutros, também lhes achavam certas dúvidas, de guisa que o Mestre veio a dizer que nenhum via para tal mais pertencente nem que com melhor desejo o fizesse do que NunÁlvares Pereira, prazendo-lhe deste carrego tomar. O doutor João das Regras era muito contra isto, dizendo que para tamanho carrego cumpria mandar um homem de madura autoridade, muito avisado e sabedor de guerra, além de que NunÁlvares trazia seus irmãos com os inimigos, e outras razões que apontava para não ser ele o que houvesse de ir.

O Mestre não curou dos que o contradiziam e falou com Nuno Álvares, encomendando-lhe tal negócio, com todas as boas razões de esforço e encomenda que em tal feito se cumpriam de dizer, e ele sem nenhuma cobiça de honra nem de ganho, mas somente para serviço de seu Senhor e defensão da terra donde era natural, recebeu sua encomenda e mandado como alguém que, com limpa vontade, tinha grande desejo de o servir em toda a coisa que lhe à mão viesse. Então foi sabido de todos como NunÁlvares havia de ir por fronteiro à comarca de Entre Tejo e Odiana, e ele trabalhou-se de levar consigo até quarenta escudeiros dos bons que na cidade havia, não por precaução do Mestre, como alguns escrevem, mas porque sempre foi seu talante de haver em sua companhia homens que o fossem por nome e obra.

Dos quais diremos aqui alguns para verdes quem foram e ficar em relembrança, convém a saber: João Vasques de Almada, PedrEanes Lobato, Rui Cravo, Afonso Peres da Charneca, Antão Vasques, Vasco Leitão, João Álvares, micer Manuel, Álvoro do Rego, João Lobato, EstevEanes Borboleta, Lopo Afonso da Água, Lourenço Afonso, seu irmão, Lourenço Martins Pratas, Diego Durães, Diego Domingues, filho de Domingos de Santarém. Estes e outros bons escudeiros, assim de Évora como de Beja, que nesta sazão estavam em Lisboa e se vieram para o Mestre porque os lançavam fora dos lugares os povos miúdos, pondo neles dúvida, foram em companha de NunÁlvares quando partiu.

 

88. DA BANDEIRA QUE NUNO ÁLVARES MANDOU FAZER, E DO PODER QUE O MESTRE LHE DEU.

 

Tomando NunÁlvares este encarrego que dissemos, e vendo como não somente nas grandes coisas, mas ainda nas muito pequenas, devemos sempre demandar a ajuda daquele Senhor sem o qual nenhuma coisa pode haver bom começo nem fim, propôs-se em sua alma haver Deus por guia principal de seus feitos e ordenar as acções mundanais quão bem pudesse encaminhar, a cada uma delas, sua humanal fraqueza.

E porque onde são os maiores perigos convém aí mais devota relembrança daquele Senhor cujo ajudoiro (socorro) o homem espera, mandou Nuno Álvares fazer uma bandeira – a qual tinha o campo branco e uma grande cruz vermelha pelo meio; e no quarto primeiro do lado da hasta havia pintada a imagem do nosso salvador Jesus Cristo crucificado, e sua Mãe e são João à beira dele; e no outro seguinte, da ponta da bandeira, estava a imagem da preciosa Virgem com seu bento Filho no colo; e nos dois quartos de fundo, no primeiro, junto com a hasta, são Jorge armado, em joelhos, com as mãos juntas orando para cima, e no outro Santiago desta mesma guisa, tendo cada um seu bacinete ante si –, para que ao desfraldar da bandeira, nos lugares onde cumprisse, vendo as figuras do Salvador e da sua preciosa Mãe mais devotamente acendesse o seu coração para os chamar em sua ajuda. E eram postos nos cantos da bandeira quatro escudos pequenos das armas da sua linhagem, que é uma cruz branca em campo vermelho aberta pela metade.

O Mestre deu cartas a Nuno Álvares para todos os lugares que tinham a sua voz, fazendo-lhes saber como o mandava àquela comarca por fronteiro e defensor dela, e que em quaisquer coisas que lhes requeresse para seu serviço e defensão do reino que fossem prestes a cumprir o seu mandado, como se ele mesmo, o Mestre, estivesse presente. E para os corações tanto dos que com ele iam como dos outros que se viessem para ele serem mais acesos no que lhes fosse encomendado, e depois porque a esperança do rápido galardão os grandes trabalhos faz parecer pequenos, pediu NunÁlvares por mercê ao Mestre que lhe desse autoridade para que pudesse dar os bens de quaisquer pessoas que não tivessem a sua voz, e que sendo dados primeiro por ele do que pelo Mestre a sua dádiva fosse valiosa, e que pudesse dar dinheiros de graça e fazer quaisquer outras mercês e acrescentamentos, como cada um merecedor fosse.

E o Mestre não somente nisto, como nas menagens dos castelos e justiça e em todas as outras coisas lhe outorgou todo o seu poder, e foi-lhe logo pago o soldo dum mês, e NunÁlvares se fez prestes para partir.

 

89. DAS RAZÕES QUE O MESTRE DISSE A NUNO ÁLVARES, E COMO SE DESPEDIU DELE.

 

Grande aliança de amor e benquerença muito se gerou entre Nuno Álvares e o Mestre desde que veio para ele e o começou de servir, e isto foi, segundo alguns escrevem, porque eram ambos de corações cavaleirosos e acompanhados de virtuosos costumes. E porque não há coisa que entre os homens gere maior amor do que a concordança nos bons desejos, não pôde o Mestre com sua vontade que logo se despedisse dele em Lisboa, quando NunÁlvares partiu da cidade, e como passou por Almada e se foi a Coina, que são dali três léguas, chegou aí o Mestre numa galé e comeu nesse dia com NunÁlvares.

E depois que acabaram de comer saiu o Mestre a um espaçoso rossio que aí há, e NunÁlvares com ele e todos os que consigo levava, e estando assim juntos falou o Mestre a NunÁlvares de modo que o ouviam muitos dos que eram presentes, e disse nesta guisa: Nuno Álvares, vós sabeis bem os recados que a mim vieram dEntre Tejo e Odiana daqueles senhores e gentes de Castela que entram por aquela parte para danar aquela comarca, e como os lugares que por mim têm voz me enviaram pedir por mercê que lhes enviasse algum capitão com que houvessem de se juntar, para lhes embargar de fazer mais dano do que aquele que começado têm. E eu por vos amar e fiar de vós, por vós serdes bom e para isto pertencente, vos escolhi entre os outros todos para vos enviar àquela comarca, e dei-vos por companheiros esta boa gente que aqui está, que são verdadeiros portugueses e parte deles de minha criação. Os quais eu creio que vos seguirão e ajudarão lealmente em toda a coisa de meu serviço e vossa honra em que se acertar de pordes mão, e eu assim lhes rogo e mando que o façam, e que vos sejam obedientes e bem mandados em toda a coisa que lhes vós disserdes, como seriam a mim mesmo, e eu ter-lho-ei em grande serviço e lhes farei por isso muitas mercês.

E eles responderam todos ledamente que lhes prazia muito de o fazer e que assim o cumpririam de boa vontade. Então voltou-se o Mestre para NunÁlvares, dizendo que lhe encomendava aquela boa gente que consigo levava e que lhe rogava que os tratasse bem e lhes desse de si bom agasalho, como estava certo que ele o faria, e fazendo-o assim, que lhe daria grande prazer e lho teria em serviço.

Nuno Álvares disse que lhe prazia muito e que assim o faria com bom desejo; então beijou as mãos ao Mestre, e todos os outros que com ele eram, e partiu-se o Mestre para Lisboa e NunÁlvares com todos os seus a caminho de Setúbal.

 

90. DUMA SAJARIA QUE NUNO ÁLVARES FEZ PARA PROVAR DE QUE ESFORÇO ERAM OS SEUS.

 

Chegou NunÁlvares naquele dia a Setúbal com intenção de pousar e dormir na vila, e os moradores do lugar, porque ainda estavam sem determinação de qual parte teriam, não o quiseram receber na vila e nem sequer consentiram que entrasse lá dentro, e ele vendo as suas intenções e o seu não bom acolhimento foi dormir ao arrabalde e aí se alojou com as gentes que levava.

Agora vede quanto é de louvar NunÁlvares em grandeza de engenho e avisamento na sua nova guerra. Certamente que ele deve ser dado como exemplo aos grandes e virtuosos homens e, aliás, nem nós podemos contar louvor dalgum notável varão em que ele direitamente não haja parte. Porque vendo ele como levava alguma gente nova, daqueles que ainda não tinham sido em nenhuns perigos, e doutros não sabia quais eram as suas vontades, cuidou de provar qual seria o seu ardimento quando se encontrassem com seus inimigos; e porquanto muitas gentes de Castela estavam então em Santarém, disse NunÁlvares que lhe parecia necessário, de modo a não virem algumas delas pela riba do Tejo afundo, sem que ele o soubesse, e recebessem delas dano, mandar pôr de noite as suas guardas e escutas a uma légua dali, contra o castelo de Palmela, das quais guardas e escutas deu encarrego de as requerer e pôr a um escudeiro que chamavam Lourenço Fernandes de Beja. E falou com ele em segredo para que de noite voltasse muito à pressa e dissesse que gentes dos castelhanos vinham atacá-los.

Lourenço Fernandes foi pôr as suas guardas e escutas, e estando NunÁlvares de noite dormindo na sua pousada, chegou Lourenço Fernandes muito de rijo, dizendo a Nuno Álvares que se preparasse à pressa e que fosse certo que Pero Sarmento vinha a ele com trezentas lanças, afirmando que ele vira os fogos no lugar onde estavam alojados. NunÁlvares mostrou que de tais novas era muito ledo e mandou logo dar à trombeta, e as suas gentes foram logo juntas com ele, e todos armados e prestes, começando já a amanhecer. E NunÁlvares partiu com a sua gente e, tanto que saiu do arrabalde, pô-los a todos em batalha por ordenança como devia, e assim ficaram regidos pé terra, bem cerca duma légua contra onde Lourenço Fernandes dizia que vira os fogos.

E sendo já alto dia, disse ele que aqueles fogos que vira eram de almocreves que estavam num grande vale na sua ameijoada, e começaram de se tornar. NunÁlvares olhou para eles e viu-os todos consigo, sem faltar nenhum, mostrando ardida vontade para qualquer coisa que lhes aviera, e folgou muito com eles quando lhes viu tal desejo.

 

91. DE QUE GUISA NUNO ÁLVARES ESCOLHEU DOS SEUS OS QUE TOMOU PARA O SEU CONSELHO.

 

No dia seguinte depois disto chamou Nuno Álvares grande parte daqueles que consigo levava, dizendo que queria falar com eles dalgumas coisas que eram em proveito deles e do serviço de seu Senhor, o Mestre, e começou de dizer assim: Amigos, eu vos direi o que tenho pensado sobre o nosso feito. A nós convém-nos em boa razão havermos por vezes recado do Mestre, e ele também de nós, e igualmente que tenhamos amiúde novas dos nossos inimigos, para nos desviarmos do seu dano e lhes empecermos o mais a nosso salvo que pudermos. E sobre tais coisas como estas convém de termos o nosso conselho, para determinarmos cada uma como entendermos para mais serviço do nosso senhor, o Mestre, e depois para honra de vós outros todos. E porque fazendo-se presentes neste conselho quantos aqui somos seria coisa muito devassa e logo sabida pelos de fora, o que pouco convém a bons guerreiros, por isso me assemelha ser boa ordenança, quando tais coisas como estas vierem onde cumpra o vosso conselho, que eu o fale com alguns de vós para, com o vosso acordo, ordenarmos o que vos melhor parecer. E se eu escolhesse alguns de vós outros, crendo que eles tinham avantagem para eu seguir seu acordo, logo aqueles que são seus iguais se haveriam por descontentes e sempre seriam anojados, tendo que com desprezamento eu os não fizera do conselho, não os havendo por tão bons. E por isso me parece que é bem que os de Lisboa escolham entre si quais lhes prover com que eu fale meus segredos, e isso mesmo os dÉvora e de Beja e doutros lugares se aí os houver, e desta guisa eu haverei meu conselho com eles como cumpre, e eles vos podem depois razoar o que for para descobrir e requerer-vos quaisquer coisas que a cada uns de vós outros pertençam. Outrossim porque nós temos justa querela e direita razão para defender a nossa terra, crendo que Deus é justo juiz, cheguemo-nos a ele para que nos ajude, e se assim o fizermos, tendo firme esperança em Deus, poucos de nós vencerão muitos. Além disto vos encomendo que nossa ajuda e acorro aos nossos naturais seja de tal guisa feita que, andando nós pela terra para defendê-la, eles não sintam de nós tal dano como recebem de seus inimigos, doutra guisa a mim me convirá tornar a isto fazendo-vos algum desprazer, o que eu não queria por coisa que fosse.

Responderam então eles dizendo que lhes prazia muito de o fazer daquela guisa, e que ele o cuidara tão bem que melhor ser não podia, e que naquilo e em todas as coisas entendiam de lhe cumprir a vontade em quanto o seu poder abrangesse.

Escolheram então os de Lisboa entre si para serem do conselho João Vasques dAlmada, e Afonso Peres da Charneca, e Vasco Leitão, e PedrEanes Lobato; e dÉvora, Diego Lopes Lobo, e João Fernandes da Arca, e Lopo Rodrigues Façanha; e assim outros. E começaram-lhe de chamar Senhor (I).

 

Nota (I): Que Nuno Álvares Pereira era um cavaleiro feudal e se transformou num grande feudal com a revolução de 1383-1385 não será grande descoberta, pois que diabo quereríamos nós que ele fosse em tal época? Agora o que é novidade é um conselho de guerra formado por escudeiros, o nome dalguns dos quais nos leva a crer que nem sequer da pequena nobreza eram. O único com o título de cavaleiro que ali havia era o próprio Nuno Álvares. E, sobretudo, esta coisa da eleição do conselho e, simultaneamente, da cadeia de comando é pura e simplesmente pasmosa.

 

92. COMO NUNO ÁLVARES MANDOU CHAMAR ALGUMAS GENTES E DAS RAZÕES QUE PROPÔS A TODOS.

 

Nuno Álvares, antes que dali partisse, ordenou logo oficiais, e fez um seu escudeiro, que chamavam Diego Gil, alferes da sua bandeira, e fez meirinho e ouvidor, e cadeia, e tesoureiro para receber do Tesoureiro do Mestre, e ordenou capela e pregador, e ouvia duas missas cada dia, coisa que nenhum Rei nem senhor até ali tinha em costume. Dali partiu NunÁlvares com sua gente e foi a caminho de Monte-Mor-o-Novo, e porque os homens bons do lugar não eram ainda bem firmados no serviço do Mestre, folgou aí um dia e falou com eles, dizendo-lhes muitas boas razões pela parte do Mestre, de guisa que ficaram bem contentes e de todo firmes em manter a sua voz.

No outro dia partiu NunÁlvares de Monte Mor e foi à cidade de Évora onde foi bem recebido e lhe fizeram muita honra, e falou com os da cidade aquilo que cumpria para sua guarda e defensão do reino, da qual coisa todos foram muito contentes, pois ele era de graciosas palavras e de bom acolhimento e todos se contentavam de lhe obedecer, como se de há longo tempo o houvessem por senhor. E dali escreveu logo a todos os lugares da comarca para que se viessem juntar-lhe, cada um prestes com suas armas, como lhe cumpria, não lhes declarando porém para isso coisa que fazer quisesse.

E não embargando que lhes escreveu que a sua vinda cumpria ser muito célere para serviço do Mestre, seu Senhor, não lhe vieram senão trinta lanças, e com as duzentas que levava eram duzentas e trinta, e entre peões e besteiros juntaria até mil. E com estas gentes partiu logo dÉvora e foi-se a Estremoz, e ali houve novas certas de que aqueles senhores de Castela e as gentes que consigo traziam eram todos na vila do Crato, que estava por Castela, e vinham cercar Fronteira, e que eram muitos e bem corregidos.

Nuno Álvares, como tal recado houve, porque pousava no arrabalde e tinha pouca gente, mandou-o logo apalancar todo para ser empacho e poderem ouvir se algumas gentes a ele de noite viessem. E assim estava em Estremoz, aguardando as gentes que mandara chamar e que lhe não vinham, especialmente os dElvas e de Beja, a que mais vezes escrevera que a outros.

Mas no entanto, com as suas afincadas cartas, acabaram por vir para ele. E quando todos foram juntos fez alardo no rossio, e era pouca gente de armas, e não bem armados, que não seriam mais a cavalo que uns trezentos, e entre eles cento e oitenta de bacinetes, e pouco mais de mil homens a pé, e até cem besteiros, e a estes falou juntamente nesta guisa:

Amigos, creio que já sabeis todos como o Mestre, meu Senhor e vosso, me mandou a esta terra para com a ajuda de Deus e vossa a defendermos dalgum mal e dano, se os castelhanos lho quiserem fazer, de guisa que lhe dêmos dela bom conto. E porque eu hei por novas certas que o Prior do Hospital, meu irmão, e o mestre dAlcântara e João Rodriguez de Castanheda, e outros senhores, com grande soma de gentes estão já no Crato, que é daqui muito cerca, e são prestes para entrarem nesta terra de meu Senhor, o Mestre, para fazer todo o mal e dano que puderem, a minha vontade é de com a ajuda de Deus, na companhia de vós outros, ir buscá-los antes que entrem e pelejar com eles. E espero na mercê de Deus que nos dará deles tão bom vencimento que para sempre de vós ficará honrada fama e boa nomeada, e mais fareis ao Mestre, meu Senhor, grande e estremado serviço, e a vós grande bem ao defender vossa terra e bens, o que direitamente somos teúdos de fazer.

Acabadas estas e outras razões que NunÁlvares disse para lhes dar vontade e esforço, responderam todos a uma voz dizendo que a coisa era muito pesada e não para responder de repente, mas que lhes desse espaço para nela pensar e falarem entre si, e que então lhe responderiam o que dela sentissem. Nuno Álvares foi disto muito pouco ledo, vendo a tenção porque o diziam, e ainda que logo quisera a resposta conveio então que se sofresse, porque não podia mais fazer (I).

 

Nota (I): Agora, depois dos membros do conselho de guerra terem sido postos à votação, é a própria decisão do chefe que é referendada. Como se vê o cavaleiro feudal Nuno Álvares Pereira foi, se bem que por vezes um tanto a contragosto, o insigne chefe dum exército revolucionário.

 

93. DA RESPOSTA QUE A NUNO ÁLVARES FOI DADA, E COMO TODOS OUTORGARAM DE SER COM ELE NA BATALHA.

 

Sobre isto falaram os melhores dos lugares com esses que com eles vinham, e também uns com os outros, grandes e desvairadas razões. E no dia seguinte, havendo todos o seu acordo, foi a resposta dada nesta guisa:

NunÁlvares, Senhor, nós entendemos bem tudo o que ontem nos foi proposto por vós, e achamos que é coisa mui duvidosa de nós irmos pelejar em vossa companhia com aquelas gentes, por duas principais razões: a primeira, por aí virem grandes senhores por capitães com muitas e boas gentes, que aí dizem que vem dom João Afonso de Gozman, Conde de Niebla, e dom Diego Martinez, Mestre de Alcântara, e Pedro Gonçalvez de Sevilha, e João Rodriguez de Castanheda, e Garcia Gonçalvez de Grisalva, e Álvoro Perez de Gozman, e Pero Ponce de Marchena, e João Gonçalvez de Carenço, e o Craveiro, e MartinhAnes de Barvuda, e ainda dizem que vem aí Fernam Sanchez de Thoar, Almirante mor de Castela, e outros grandes senhores a que não sabemos os nomes, e que trazem consigo mil lanças e mais, muito bem corrigidos, e muitos ginetes, e besteiros, e grande soma de homens de pé, e dada a pouca gente que nós somos tal peleja como esta seria muito desigual.

Disse então Álvoro do Rego, um bom escudeiro que andava com NunÁlvares: Certo é, Senhor, porque eu conheço os mais de quantos capitães ali vêm, que eles o são de muitas gentes e boas, e mais vos digo ainda que, deixada a outra gente, ali vêm mais de bons que nós aqui somos de comunais.

A isto respondeu Pedro Eanes Lobato, outro escudeiro que andava com NunÁlvares, e disse: Quanto a mim vos digo, Senhor, que antes assim os queria a todos para pelejar, grandes senhores e bem delicados, do que escudeiros afanosos e homens de trabalho que me dessem que fazer todo o dia, que estes que vêm banhados de água rosada e de flor de laranja não se hão-de ter muito que logo os não vençais.

A outra razão, continuaram eles, porque muitos duvidam, é porque aí vem dom PedrÁlvares, Prior do Crato, vosso irmão, e outros dois dos vossos irmãos, e duvidam muito e hão por mofa que vós pelejeis com vossos irmãos, e antes dizem que é coisa em que muito asinha podiam receber cajão e ser enganados, e todos mortos e perdidos, e as vilas donde são serem cobradas pelos castelhanos, o que era em pouco serviço de Deus e do Mestre, e por isso, em conclusão, vos respondem todos que a nossa tenção é de não irmos convosco a tal obra.

NunÁlvares, quando ouviu tal resposta, foi muito anojado em sua vontade, mas respondeu então sem sanha e graciosamente, e disse: Amigos, eu não sei mais que diga do que já vos tenho dito, mas ainda assim vos quero responder a isto que me dissestes. No que respeita a dizerdes que os castelhanos são muitos e que vêm grandes capitães e senhores com eles, tanto maior vos será a honra e o louvor de serem por vós vencidos, pois já muitas vezes aconteceu os poucos vencerem muitos, porque todo o vencimento é em Deus e não nos homens. Na outra coisa em que duvidais, segundo parece, que é a vinda de meus irmãos em sua companha, isto não temais por nenhuma guisa, nem não quisesse Deus que nenhum por mim fosse enganado, que eu não os hei por meus irmãos nesta parte, pois que vêm para destruir a terra que os gerou, e não digo apenas contra meus irmãos, mas em verdade vos juro que ainda que aí viesse meu pai eu seria contra ele, pelo serviço de meu Senhor o Mestre, e para vós verdes que é assim, se a vós vos praz de nesta obra sermos todos companheiros, eu vos juro e prometo que seja eu o dianteiro ante a minha bandeira e o primeiro que comece a pelejar, e assim podereis ver a vontade que eu neste feito tenho contra meus irmãos, mas não embargando isto, se a vossa tenção é todavia qual me dissestes, aqueles que se quiserem ir para suas casas vão-se com Deus, que eu com esses poucos de bons portugueses que comigo vêm lhes entendo de pôr a praça.

Então aqueles que duvidavam, quando tais palavras lhe ouviram dizer, cobraram coração de o seguir e acompanhar, dizendo todos a uma voz que queriam ir com ele.

Agora amigos, disse ele, eu vos rogo que os que comigo quiserdes ir a esta obra vos passeis para a parte de além deste regato de água, e os que não quiserdes ficai desta parte. E eles disseram que todos passariam. E, ainda que o assim dissessem, alguns remordiam-se entre si, mostrando que mais o disseram por vergonha do que por vontade de o fazer, especialmente EstevEanes o moço e Mendo Afonso de Beja, que se não puderam ter tanto que não dissessem em público que iam lá em tão forte ponto que nunca de lá haviam de tornar.

Nuno Álvares fingiu que não os ouviu nem curou com seus ditos, tão ledo era com a resposta que todos lhe deram que queriam ir com ele. E sendo assim ledo e seguro de que todos iriam em sua companha, propôs logo no outro dia bem cedo partir para a batalha.

E estando dormindo em sua pousada, à meia-noite ou pouco mais, chegou a ele Álvoro Coitado, muito rijo e à pressa, dizendo como Gil Fernandes e Martim Rodrigues dElvas tinham já selado e estavam armados e se queriam ir para Elvas, não querendo ser na batalha com ele. Nuno Álvares, como isto ouviu, levantou-se à pressa e foi-se a eles onde já estavam mandando carregar, e disse: Ó irmãos, amigos! E é para vós fazerdes tal obra? Deixardes tanta honra como Deus vos tem prestes e falecerdes do que prometido tendes para vos tornardes para vossas casas?

E contra Gil Fernandes em especial disse: E logo vós, Gil Fernandes, que eu pensava e penso que sois um dos bons servidores que o Mestre meu Senhor nesta terra tem, tal míngua mostrais em tal obra como esta? Dizendo-lhe que mais apreçava a sua pessoa só do que quantos com ele vinham.

E eles se escusaram com boas razões, e ele com outras melhores os mudou daquelas vontades, acabando por outorgar que sempre seriam com ele na batalha.

 

94. DAS RAZÕES QUE NUNO ÁLVARES HOUVE COM RUI GONÇALVES.

 

Como foi manhã, sem outro traspasso (delonga), mandou logo dar à trombeta, e partiu com todos a caminho de Fronteira, que eram dali quatro léguas e para onde os castelhanos haviam de ir, e indo pelo caminho mandou adiante algumas gentes, para haver novas de aonde estavam os inimigos.

Nisto não tardou muito que um escudeiro castelão a que chamavam Rui Gonçalvez, e que já em outros tempos vivera com Nuno Álvares em casa do seu pai, e então vivia com dom Pedro Álvares, seu irmão, viesse mui rijo em cima de um cavalo pelo caminho de Fronteira, e chegou até Nuno Álvares, que o recebeu muito bem e lhe perguntou onde estava seu irmão e os outros senhores de Castela, e ele disse-lhe que eram já em Fronteira, que seria légua e meia donde ele achou NunÁlvares, o qual de seguida lhe perguntou o que faziam, e ele disse que tinham tenção de combater o lugar, e NunÁlvares perguntou-lhe ao que vinha e que lhe dissesse a verdade, se vinha como esculca ou por mandado de quem.

E Rui Gonçalvez disse: Bem sabeis vós, senhor Nuno Álvares, que nisto e no mais eu não vos hei-de dizer senão a verdade. Vós sede certo que a vosso irmão e àqueles senhores e gentes de Castela fizeram entender que vós vos preparáveis e éreis prestes para os irdes buscar e lhes pôr batalha, e disto se maravilham tanto que lhes é muito difícil de crer, terdes vós tão pouca gente, como eles sabem que vós tendes, e trabalhardes-vos de tal coisa. E falaram com vosso irmão sobre o que lhe parecia disto, e ele respondeu que não sabia, mas que no entanto os certificava de que se vós neste feito alguma coisa havíeis começado vos conhecia por tal que sempre a levaríeis adiante até morrer, e os outros disseram-lhe que lhe prouvesse de me mandar a vós para saber a vossa tenção, e para isto me mandou. Além disso, ele vos envia dizer que vejais bem o que cometeis, pois é coisa muito duvidosa para vós, com tão pouca gente como vós tendes, irdes pelejar com tantos e tão grandes senhores como ali estão, pois vos faz certo de que ali estão tais capitães e tão preparados que ainda que elRei dom Fernando fosse vivo até ele teria que fazer em lhes pôr praça, mormente vós da guisa em que estais, e que vo-lo não há por sensatez, porque se vós fordes na batalha em vós não há defensão. Nem ele em tal obra vos poderá ser bom, mesmo que queira, e que por isso lhe prazeria, e assim vo-lo envia aconselhar como a seu irmão, que desistais disto e escolhais de duas coisas uma: que ou vos torneis para seu senhor, elRei de Castela, por o qual vos dá garantia de que vos fará muitas mercês e vos acrescentará de guisa que sejais bem contente, ou que sejais em Estremoz, como estáveis, e os deixeis correr pela terra como entendem de fazer, e não vos queirais perder a vós mesmo mais às gentes que convosco tendes.

NunÁlvares, ouvindo estas razões, respondeu ao escudeiro e disse: Rui Gonçalves, eu hei bem entendidas as coisas que me dissestes, e de modo breve vos respondo assim: que vós digais ao Prior meu irmão que eu neste feito não quero seu conselho, nem Deus quererá que o haja de crer no que me manda dizer, e que assim o diga a esses outros senhores, que eu da intenção que tenho não me mudarei de nenhuma guisa, a não ser, com a ajuda de Deus, em levá-la adiante. Mas que se preparem para a batalha, que eu com estes poucos de portugueses que comigo tenho lha entendo de ir pôr, e não sei agora coisa que mais deseje do que ser já nela, e antes de pequeno espaço eu serei com eles a Deus prazendo, e que disto não duvidem, e rogo-vos Rui Gonçalvez, amigo, que tanto façais por o meu amor que vos vades com este recado o mais depressa que puderdes, até matar o cavalo, que eu entendo que não podereis ir tão asinha que eu, com a ajuda de Deus, não esteja deles muito perto.

 

95. COMO NUNO ÁLVARES PÔS BATALHA AOS CASTELHANOS, E OS VENCEU E DESBARATOU.

 

Partiu Rui Gonçalves como Nuno Álvares lho encomendou, e foi muito depressa, quanto o cavalo o podia levar a trote e a galope, e chegou muito asinha a Fronteira onde aqueles capitães com suas gentes estavam. E assim que chegou falou ao Prior e aos outros senhores de tudo aquilo que Nuno Álvares dissera, e o que lhe havia respondido, e eles, como o ouviram, cessaram logo da obra que haviam começado para combater a vila e com grande aguça (azáfama) se prepararam para ir à batalha.

E eles a começarem a sair do arrabalde onde pousavam a caminho dEstremoz, por onde Nuno Álvares viria, e já Nuno Álvares com as suas gentes era num lugar bem convinhável para a batalha, onde chamam os Atoleiros, uma meia légua pouco mais ou menos aquém de Fronteira. E como Nuno Álvares foi naquele lugar, sendo já certo que os castelhanos vinham à batalha, fez logo descer pé terra todos os homens de armas, e dessa pouca gente que tinha concertou as suas batalhas da vanguarda e réguarda, e alas direita e esquerda, e fez concertar os besteiros e homens de pé pelas alas, onde entendeu que melhor estariam para pelejar.

E receando-se dos homens de pé (peões), para que lhe não desfalecessem por os castelhanos serem muitos, pôs alguns homens de armas com eles dizendo-lhes que, se eles vissem que tornavam atrás, os matassem (I). Isto assim concertado, começou de andar pelas batalhas em cima duma mula, esforçando as gentes com boas palavras, com gesto ledo e vulto prazível, dizendo a todos que se lembrassem bem de quatro coisas e as firmassem em seus corações.

 

Nota (I): Aqui, das duas, uma: ou disse aos homens de armas que matassem os peões que se pusessem em fuga, ou estava a falar para os peões, numa artimanha para lhes incutir ânimo. O meu “palpite”, dado que Nuno Álvares era um mestre a jogar com as aparências, é que o «eles vissem» do texto se refere aos peões.

 

A primeira, que se encomendassem a Deus e à Virgem Maria sua mãe, para que os quisesse ajudar contra seus inimigos, pois que justa querela tinham contra eles, e que tivessem firme fé que assim havia de ser. A segunda, que vinham ali para se defender a si e às suas casas e bens, e se tirarem da sujeição em que os queria pôr elRei de Castela contra razão e direito. A terceira, que eram ali para servir seu senhor e alcançar a grande honra que a Deus prazeria de lhes dar muito cedo. A quarta, que firmassem em seus entendimentos de sofrer todo o trabalho e aporfiar na peleja, não por uma hora, mas um dia, se mester fosse.

Estas foram as suas palavras de esforço antes que entrasse à batalha. As quais assim que foram ditas os castelhanos eram já muito perto, e Nuno Álvares desceu-se logo da mula em que andava e pôs-se na avanguarda com os primeiros diante da sua bandeira, tal como prometera, e era isto a uma quarta-feira de trevas no mês de Abril, não havendo ainda comido nenhuma coisa.

E fincou os joelhos em terra e fez a sua oração à imagem do Crucifixo e da sua preciosa Mãe que trazia pintada em sua bandeira, e igualmente todos os seus, de joelhos em terra, com as mãos alçadas fizeram a sua oração, e muitos deles choravam, e beijou a terra e alçou-se em pé, e pôs o seu bacinete sem cara e tomou nas mãos a lança que lhe trazia o Pajem, e disse para os seus: Amigos, não duvide nenhum de mim, e a todos aqueles que me ajudardes que Deus seja aquele que vos ajude, e se eu aqui morrer por vossas culpas e míngua que Deus seja aquele que vos demande a minha morte.

Os castelhanos traziam vontade de pelejar pé terra, e NunÁlvares assim o entendia, e quando viram os portugueses postos daquela guisa, para morrer ou vencer, mudaram o seu propósito e decidiram de vir à batalha de cavalo (o comportamento dos castelhanos foi exactamente o contrário do que se havia passado em Lisboa; ver capítulo 74), pensando que eram muitos e bem encavalgados e que logo os desbaratariam mal dessem neles, coisa esta que a todo o homem razoado parecia ser assim. E concertaram suas batalhas a cavalo, e os ginetes apartaram-se com a carriagem numa ladeira dum pão (seara) verde, logo cerca donde havia de ser a peleja.

Então se moveram os castelhanos com grande esforço contra eles, as lanças sob os braços muito rijo de encontro, dando grandes vozes e alaridos, chamando Castilha, Santiago. Nuno Álvares e os da sua parte, chamando Portugal e são Jorge, abaixaram as suas lanças cada um ao seu, e topando os cavalos nelas alguns deles caíram logo em terra com os seus donos, outros antes que de todo chegassem a topar na batalha eram feridos pelos virotões e dardos que lançavam homens de pé por cima dos homens de armas, e os cavalos alvorando lançavam de si os que neles vinham, e alguns deles com as feridas queriam dar a volta, porém, tornando atrás e topando noutros, caíam em terra.

Do mesmo modo vinham outros de refresco (em reforço), que estavam atrás para isto prestes, e assim lhes avinha como aos primeiros, com NunÁlvares e os seus matando neles, de guisa que prouve a Deus de os castelhanos serem desbaratados. E se bem que a batalha fosse pelejada com vontade mui pouco espaço durou que logo não se vencesse, e foram mortos ao primeiro juntar quarenta homens de armas, e depois outros até setenta e sete, e dos portugueses nenhum foi morto nem ferido.

Entre aqueles foi aí morto o Mestre dAlcântara, e Pero Gonçalvez de Sevilha, e Rui Gonçalvez e o Craveiro, e outros bons fidalgos que não eram de tanta conta, e foram feridos o Almirante, e o Prior e Garcia Gonçalvez de Grisalva.

Mas neste passo alguns escrevem duas razões repugnantes à verdade: a primeira é que os castelhanos foram então desbaratados pela má ordenança que em si puseram, a segunda, que aqueles que ficaram vivos se recolheram num corpo e que os portugueses não ousaram mais os acometer. A qual coisa não se devera assim escrever por favor nem para encobrir míngua, que o autor da história não deve de ser inimigo mas escrivão da verdade, a qual foi desta guisa.

O Conde de Niebla, e o Prior do Crato, e o Almirante, e MartinhAnes de Barvuda, que se chamava a si mesmo Mestre dAvis, e outros capitães com muitos dos seus, depois que se viram fora da batalha não quiseram mais tornar a ela, mas começaram de fugir, uns para o Crato e outros para Monforte, e para outros lugares que tinham voz por Castela. E indo assim fugindo, disseram ao Almirante alguns dos que iam com ele que desse a volta e tornasse à peleja, pois assaz de gentes eram para eles, e ele respondeu aos que lho diziam e disse: Homem morto não trova soldo. Ande a bandeira e vá-se, que depois que homem é uma vez desbaratado mal torna outra vez à batalha.

Em dizer que ordenaram mal a sua peleja a verdade isso não consente, porque aí vinham senhores e capitães, tanto portugueses como castelhanos, tão sabedores de guerra e com tanta e tão boa gente que não somente para Nuno Álvares, com aqueles poucos que consigo tinha, mas até para um alto príncipe eram abastantes para ordenar bem sua batalha e pelejar com ele, e foi com tal ardileza e boa ordenança que os acometeram. Mas o mui alto senhor Deus, em cuja mão é todo o vencimento e poderio de entregar muitos nas mãos dos poucos, prouve então de dar a vitória aos portugueses, e vendo como os castelhanos fugiam, logo foi NunÁlvares a cavalo com muito poucos dos seus, porque tão depressa não puderam todos haver montadas, e seguiu-lhes no encalço uma grande légua, até que pela noite foi forçado a se tornar, dizendo-lhe alguns dos seus que aquilo era tentar Deus, não se contentar da mercê que Deus lhe dera e seguir-lhes no encalço tão longe. E Nuno Álvares se tornou para onde foi a batalha, e já muito tarde foi dormir a Fronteira.

E em se tornando, já próximo do lugar, chegou um escudeiro à pressa, armado e em cima dum cavalo, e meteu-se entre os portugueses, convém a saber, entre João Vasques de Almada e PedrEanes Lobato e outros, e depois que lhes falou, dizendo: Mantenha-vos Deus, senhores, perguntou-lhes se seria seguro. Sereis, disseram eles, mas dizei-lo já muito tarde. Então lhe perguntaram que homem era e ao que vinha, e ele disse que era filho de Pedro Gonçalvez de Sevilha e que vinha saber se era morto ou preso, ou de que guisa estava, e eles levaram-no a NunÁlvares, e depois que lhe falou e soube por que vinha, certificaram-no então de que o outro era morto, e quem fora que o matara, e NunÁlvares mandou que o agasalhassem bem e lhe fizessem toda a honra, e no outro dia o mandou pôr em salvo.

Onde aqui notai que este NunÁlvares foi o primeiro que segundo a memória dos homens até este tempo pôs batalha pé terra em Portugal e a venceu.

 

96. COMO NUNO ÁLVARES COBROU ARRONCHES E ALEGRETE.

 

Desta bem-aventurança primeira que Deus deu a NunÁlvares e aos portugueses foram mui ledos todos os daquela comarca que voz e vontade por Portugal tinham, e muitos daí em diante com bom desejo se vinham para ele e lhe eram obedientes em toda a coisa que lhes mandava. E igualmente o Mestre quando o soube em Lisboa, onde estava prestes para ser cercado, tomou com tais novas mui grande prazer, e elRei de Castela, que era então na comarca do termo dÓbidos, muito pelo contrário.

No dia seguinte depois da batalha, logo pela manhã, sem mais repousar de seu trabalho, Nuno Álvares se fez prestes e partiu para Monforte, onde estava esse MartinhAnes de Barvuda que dissemos, cavaleiro português e muito afamado por bom homem de armas, com muitas gentes consigo com que fugira da batalha, e NunÁlvares levava tenção, caso não quisessem sair a ele, de o assediar.

E depois que foi em Monforte as gentes que estavam dentro não quiseram sair, e todavia eram bem trezentas lanças, e por o lugar ser forte e com muitas gentes nele, e NunÁlvares não ter artifícios de combate, não curou de o assediar, mas esteve ali um dia, no qual se fizeram boas escaramuças entre os portugueses e os da vila em frente das barreiras, sem se fazer por isso coisa que muito de contar seja. No outro dia pela manhã, que era dia de endoenças, se foi NunÁlvares a pé e descalço em romaria a santa Maria do Açumar, que é uma légua daí, igreja bem devota, e todos os seus a pé com ele.

E como chegou à igreja achou-a muito suja das bestas dos castelhanos, que nela as metiam quando por aí passavam, e antes que se alojasse a mandou limpar, e ele foi o primeiro que começou a tirar o esterco para fora.

Nisto veio recado dalguns portugueses a NunÁlvares de que podia tomar Arronches, que estava por Castela, e que lhe dariam a vila. NunÁlvares foi com isto mui ledo e partiu para lá, e foi dormir ao Assumar, e mandou seu recado aos que haviam de dar a vila sobre a maneira que havia de ter, e teve essa noite logo a resposta.

No outro dia, grande manhã, cavalgou com as suas gentes e, chegando à vila, foi nela recebido, e logo que foi dentro da vila começaram de toda a parte a combater o castelo. Nele estavam bons cavaleiros castelhanos, convém a saber, Afonso Sanchez, Gonçalo Sanchez de Guntes e Sancho Sanchez, e consigo até trinta lanças, e outros, portugueses.

O combate foi grande e, queimadas as portas do castelo, foram entrados pela força e todos tomados, e Afonso Sanchez e Sancho Sanchez houve Gil Fernandes, que os levou presos consigo quando se tornou com as gentes de Elvas, e cobraram os portugueses naquele lugar cavalos e armas e outras coisas de que se aproveitaram.

Outrossim de Alegrete, que também estava por Castela, lhe enviaram dizer que mandasse alguém a receber aquele lugar para o Mestre, e NunÁlvares mandou logo lá um bom escudeiro que chamavam Martim Afonso da Aramanha, que daí era natural mas morava em Portalegre, e alguns outros com ele a receber o lugar, e foi-lhe entregue, e assim ficaram pelo Mestre Arronches e Alegrete.

E deixou NunÁlvares por alcaide em Arronches seu tio Martim Gonçalves, e teve ali a páscoa, e mandou a muitos que se fossem para suas casas e que estivessem prestes como vissem seu recado, e ele partiu para Estremoz e depois para Évora, e depois para Monte Mor.