O espaço da História

XV - Começa o cerco

A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».

 

113. COMO ELREI CHEGOU SOBRE A CIDADE E DO COMBATE QUE LHE DEU.

 

Passou um dia e mais não, e ao seguinte, sábado, bem cedo pela manhã, chegaram às torres que são num alto monte em direito de São Domingos alguns fidalgos da parte dos castelhanos. E falando à salva fé, disseram para os das torres que fossem dizer ao Mestre que elRei, seu Senhor, que já vinha pelo caminho, queria ali fazer seus éditos e certos requerimentos, e que por isso mandasse ali vir alguns cavaleiros e cidadãos da cidade para verem como fazia as suas protestações.

Fizeram isto saber ao Mestre e ele mandou-lhes dizer que se fossem logo dali, e se o fazer não quisessem que lhes atirassem as bestas. Ouvindo os castelhanos este recado partiram-se donde estavam, arredando-se para longe do muro, e ali aguardaram elRei, seu Senhor, que já vinha pelo caminho.

Agora sabei que estes éditos que elRei quisera fazer eram para julgar de mau caso todos os moradores da cidade, para depois lhes dar os bens e proceder contra eles à sua vontade, dizendo que ali chegara em pessoa, com a sua bandeira tendida (desfraldada), e o não tinham querido receber como a seu senhor que era de direito.

E nisto chegou para avistar a cidade elRei de Castela com a sua hoste, todos a cavalo, e muitos peões e besteiros que lhe vieram das galés. E chegou junto dela a um alto monte que agora chamam monte do Olivete, e esteve ali grande parte do dia, e muitos dos seus andavam entretanto a cortar árvores e vinhas e a fazer todo o dano que podiam.

Ora assim foi que neste dia pela manhã, antes que elRei de Castela viesse, saíram da cidade pela porta de Santa Catelina alguns homens de armas e besteiros, e também homens de pé, e ordenaram a sua pavesada para escaramuçar com os castelhanos, que já eram certos que haviam de vir. Entre os quais era Fernão Pereira, irmão de Nuno Álvares, e o doutor Martim Afonso, que depois foi Arcebispo de Braga, e João Lourenço da Cunha, e João Afonso de Beça, e Martim Paulo, gascão, e Vasco Martins de Gá, e FernandÁlvares, Vedor da casa do Mestre, e outros mui bons homens de armas. E o Mestre estava na torre dÁlvoro Pais para ver o que elRei de Castela faria com aquelas gentes que consigo tinha.

ElRei esteve detido naquele lugar, sem fazer nenhuma coisa, passante de hora de terça, e vendo como aqueles que saíram da cidade estavam à sua vista, sem mostrar que lhe tinham medo, disse então para os seus: Vós outros não vedes como estes vilãos andam fora da cidade sem receio nenhum que de nós hajam? A eles, a eles, fazei-os encerrar lá dentro, que vilãos são todos.

Alguns dos seus que isto ouviram disseram que aquilo não era de fazer, pois que, ainda que eles dessem neles até às portas, não haviam de poder empecer à cidade.

ElRei, ouvindo isto, houve acrimónia e, sem mais responder, pediu o bacinete e disse ao Mestre de Santiago que fosse adiante com a sua bandeira; e fazendo este o que elRei mandou, desceram muitos dos cavalos e, de lanças nas mãos, moveram-se contra eles, até se chegarem uns aos outros.

Os castelhanos eram muitos e os da cidade poucos, e como estes não os puderam sofrer, os castelhanos fizeram-nos tornar rijo para a cidade e deram com alguns dentro da cava, que era então baixa, e ali os matariam ou prenderiam se não foram os das torres e muros que os defendiam às pedras e virotões. Nisto veio elRei de trás com muitos dos seus, e Pero Fernandez de Valasco começou a dizer em altas vozes: Avante, senhores, avante! Que nossa é a cidade. E igualmente o Conde dom João Afonso Telo, irmão da Rainha dona Lionor, vinha bradando deste modo: Avante, senhores, avante! Que por aqui vai o caminho para minha casa.

O Mestre, que tudo isto olhava, quando viu que os da vila se recolhiam assim sem regimento e os castelhanos se endereçavam direitamente à porta, veio-se com grande aguça da torre onde estava e cerrou por sua mão uma porta, e mandou a alguns que cerrassem a outra, e disse para os seus: Volta, volta, senhores, que é isto? Eu farei que vós sejais bons ainda que não queirais.

Então ficaram os portugueses que andavam fora todos entre o muro e a barbacã, e ali começaram de se dar às lanças uns com os outros mui rijamente, e embora o combate durasse por grande espaço, nunca os castelhanos os puderam arrancar daquele portal da barbacã, que era sem portas. Também a muita bestaria, tanto das galés como a que elRei trazia, não parava de atirar sobre os do muro, de guisa que tudo era cheio de virotões; outrossim os besteiros de dentro atiravam por entre as ameias aos de fora, e de cima das torres deitavam muitas pedras, que acarretavam as mulheres em cestos, mas que pouco lhes empeciam porque eram moles e esboroavam-se todas. O arruído era muito grande e a mais da gente da cidade acudia ali toda.

Enquanto isto se fazia andavam homens de pé e besteiros por fora da cidade, além das torres de São Domingos, e veio a eles dom Álvoro Perez de Gozman com muitos ginetes, e fez uma esporeada contra eles, e foram alguns deles feridos, e perderam dois cavalos, mas não morreu aí nenhum duma parte nem doutra.

E vendo os castelhanos que nada aproveitavam, durando o combate por mui grande espaço, pararam de combater, sendo alguns já feridos e mortos, entre os quais morreu o Cavaleiro dos Donzéis e outro que chamavam Rui Duque, e alguns outros, e os mais deles de trons que lançavam de uma torre. Dos portugueses foram mortos quatro e muitos ficaram feridos, entre os quais foi ferido Fernão Pereira, e Martim Paulo, e outros.

E isto assim feito tornou-se elRei com os seus para donde partira, e os da cidade tiveram de cuidar de soterrar os seus mortos, e pensar os feridos.

 

114. COMO ELREI DE CASTELA CHEGOU SOBRE LISBOA, E COMO ASSENTOU SEU ARRAIAL SOBRE ELA.

 

No dia seguinte, que eram vinte e nove do dito mês de Maio, chegaram as naus que foram armadas para vir de companha com as galés, e eram por todas quarenta entre grandes e outras não tamanhas. ElRei, como soube que a frota das naus chegara, partiu logo ao outro dia com toda a sua hoste para pôr arraial sobre a cidade, e chegaram sobre ela a hora de terça; e pela fama das gentes que elRei de Castela ali tinha seriam até cinco mil lanças, afora as gentes que ficavam em Santarém e em todos os lugares que por ele estavam, e mais mil ginetes de que era capitão dom Álvoro Perez de Gozman, e muitos bons besteiros que eram bem seis mil, segundo alguns escrevem, e de gente de pé tinha muitíssima, sem conto, afora a que veio na frota e assaz doutras que lhe vinham a cada dia por terra.

E mandou elRei aposentar o arraial a par dum mosteiro de Donas (mulheres) que chamam Santos, da Ordem de Santiago, que é arredado da cidade pouco mais de dois tiros de besta (cerca de 400 metros). Ali fizeram logo para elRei uma alta casa sobradada feita sobre quatro traves grossas, cercada de parede de pedra seca.

Perto dela estavam assentadas muitas e mui nobres tendas, tanto delRei como dos senhores que com ele vinham. Todas as outras gentes aposentaram as suas tendas por Alcântara e por Campolide e pela comarca de arredor em grandes e bem ordenadas ruas, e todas as tendas tinham bandeiras e pendões em cima de desvairadas armas e sinais.

Cada um delas era acompanhada de armas, com o que o arraial resplandecia, e da multidão de trombetas e outras coisas que lhe davam apostamento (garbo) não cumpre fazer razoado.

O arraial era todo apalancado do lado da cidade num pequeno vale onde há um poço, pois de nenhum outro lugar haviam receio de receber nojo, dado que todas as vilas de arredor estavam por ele. E era abundante e muito farto em mantimentos que lhe vinham de Santarém por água, em barcas, e por terra, em grandes aracovas (récuas) de bestas, para cuja guarda mandava elRei sempre estarem gentes em certos lugares do caminho, onde entendia que podiam receber dano. E não somente de Santarém mas de todos os outros lugares que estavam por elRei de Castela era o arraial servido de tudo o que mister havia.

De Sevilha vinham muitas barcas e baixéis com mantimentos e armas e quaisquer outras coisas que lhe (ao arraial) necessárias eram; e não cuideis que somente de mantimentos mas também de especiarias de muitas e desvairadas maneiras acharíeis nele em grande abundância a vender. Ali havia físicos e cirurgiões, e boticários, que não apenas tinham prestes as coisas necessárias para conservar a saúde do corpo, pois ainda desvairados modos de confeitos e açúcares e conservas lhes acharíeis em muita fartura.

Também água rosada e outras destiladas águas de que os viçosos homens usam no tempo da paz, tudo ali se achava por dinheiro segundo cada um queria. E o azo (a razão) destas e outras muitas coisas serem achadas no arraial em grande quantidade foi a chegada de duas carracas que iam do Levante carregadas para a Frandes, e que o tempo contrário constrangeu por força a pousarem no Restelo junto à frota, e elRei mandou-lhes rogar que lhes prouvesse de descarregarem ali para venderem as suas mercadorias no arraial, no que teriam muito seu proveito, e que lhe prestariam nisso grande prazer e serviço e que ele lhes faria por isso mercês. Houveram os mercadores e patrões seu acordo sobre isto, e com os afincados rogos delRei, e o receio, e depois movidos pelo seu próprio proveito, outorgaram o que lhes requereu e descarregaram as suas mercadorias, das quais as gentes achavam grande abastança.

Panos de sirgo e de lã de desvairadas maneiras (diversos tipos, qualidades) acharíeis em certas tendas, como cada um houvesse mister; e rua de mulheres mundairas (mundanas; prostitutas) também aí havia, tamanha como se costuma nas grandes cidades; no arraial havia rua em que vendiam e adubavam (reparavam) muitas armas; e outra de mercadores cristãos e judeus em que se achavam panos e saios e outras muitas coisas a vender; existia ali rua de cambadores (cambistas), em que havia compra e venda de moedas de prata e de oiro e doutras qualidades em grande abundância; muitas outras coisas que dizer não curamos acharíeis nele a vender, e somente de calçadura nunca foi bem abastado (abastecido). Era muito mantido em justiça, de guisa que nenhum homem receava de dormir só, ainda que muitos dinheiros consigo tivesse, nem se faziam nele outros erros pelos quais os homens costumam de haver pena.

Para guarda do arraial de dia, deixada a ordenança de noite, estavam em certos lugares donde se divisava a cidade alguns de cavalo, para que dela não pudesse sair ninguém que logo deles não fosse visto. No mar cerca de Almada jaziam sempre duas galés prestes, de modo a não virem à cidade pelo rio mantimentos nem gentes para ajuda da sua defensão.

A frota das naus jazia ao longo da cidade, desde Cata-que-farás até à Porta da Cruz, todas em ordenança uma ante a outra, e duma nau a outra havia deitado um grosso cabo por maneira a que alguma barca ou batel que ainda tentasse passar da margem de lá com gentes e mantimentos o não pudesse fazer por ali, por azo de tais cabos. E assim tinha elRei o seu cerco por mar e por terra, que bem mostrava aos que o vissem como o seu nobre e grande poder era bastante para esta e maior conquista.

E porque os senhores e fidalgos que eram aí com ele viam do seu lado tantas ajudas, assim dos lugares que já tinham como das gentes e mantimentos que a cada dia lhes chegavam, e tais coisas muito ao invés viam quanto ao Mestre e aos lugares que por ele tomaram voz, alguns, falando nisto, disseram um dia a FernandAlvarez de Toledo, Marechal de Castela: FernandAlvarez, vós que sois homem antigo e vistes muitas coisas de guerra semelhantes a esta, assim em França, em companhia delRei dom Henrique, como noutros lugares onde vos acertastes em feito de armas, parece-vos a vós que o Mestre e Lisboa podem levar avante esta tenção que tomaram de se defenderem delRei, nosso Senhor, e da mor parte de Portugal, e ainda de gentes doutros reinos que são aqui em sua ajuda, e que ainda mais seriam, se ele isso quisesse?

Senhores, disse ele, eu já vi muitas coisas porque sou homem de muitos dias, e vi mui grandes feitos começar com grande poderio, e muitos azos para se acabarem, e nunca chegaram ao desejo daqueles por que foram começados, e vi cometer mui pequenos feitos, sem nenhuma azada razão que tivessem para se haver de acabar, e que pouco a pouco chegaram a tão grande termo como a ninguém podia vir ao pensamento. E assim digo desta demanda que elRei nosso Senhor toma com o Mestre que, se a ventura lhes der um pouco de favor, o Mestre e a cidade irão por diante com o que começado têm, e deste feito mais não entendo.

 

115. POR QUE GUISA ESTAVA A CIDADE CORREGIDA PARA SE DEFENDER QUANDO ELREI DE CASTELA PÔS CERCO SOBRE ELA.

 

Nenhum falamento deve ser mais vizinho deste capítulo que haveis ouvido do que pormos logo aqui, brevemente, de que guisa estava a cidade jazendo elRei de Castela sobre ela, e por que modo punham em si guarda o Mestre e as gentes que dentro eram, para não receberem dano de seus inimigos, e o esforço e a foiteza que contra estes mostravam enquanto esteve assim cercada.

Onde sabei que quando o Mestre e os da cidade souberam da vinda delRei de Castela, e esperaram o seu grande e poderoso cerco, logo foi ordenado de recolherem para a cidade os mais mantimentos que haver pudessem, assim de pão e carnes como de quaisquer outras coisas. E iam-se muitos às lezírias em barcas e batéis depois que Santarém esteve por Castela, e dali traziam muitos gados mortos que salgavam em tinas e outras coisas de que fizeram grande açalmamento. E acolheram-se à cidade muitos lavradores com as mulheres e filhos e coisas que tinham, e outras pessoas da comarca do arredor, aquelas a que prouve de o fazer, e alguns deles passaram o Tejo com os seus gados e bestas, e o que puderam levar, e foram-se para Setúbal e para Palmela, ao passo que outros ficaram na cidade e não quiseram dali partir, e tais aí houve que guardaram todo o seu e ficaram nas vilas que por Castela tomaram voz.

Os muros todos da cidade não haviam míngua de bom repairamento (reparação, reforço), e nas setenta e sete torres que ela tem em redor de si foram feitos fortes caramanchões de madeira, os quais estavam bem fornecidos de escudos e lanças e dardos, e bestas de torno e doutras maneiras com grande abundância de muitos virotões.

Havia ademais nestas torres muitas lanças de armas e bacinetes e outras armaduras, e reluziam tantas em cada uma das torres que ela bem mostrava que por si só era abastante para se defender. Em muitas delas estavam trons bem acompanhados de pedras, e bandeiras de são Jorge e das armas do reino e da cidade e doutros alguns senhores e capitães que as punham nas torres que lhes eram encomendadas.

E decidiu o Mestre com as gentes da cidade que a guarda dos muros fosse repartida pelos fidalgos e cidadãos honrados, aos quais deram certas quadrilhas (troços das muralhas), e besteiros e homens de armas em ajuda a cada um para guardar bem a sua. Em cada quadrilha havia um sino para repicar quando tal coisa vissem, e quando cada um ouvia o sino da sua quadrilha, logo todos rijamente corriam para ela, porquanto às vezes os que tinham carrego das torresvinham espaçar pela cidade e deixavam-nas encomendadas a homens de que muito fiavam, e outras vezes não ficavam nelas senão as atalaias, mas quando davam à campana logo os muros eram cheios, e com muita gente ficando de fora.

E não somente aos que eram de serviço em cada lugar para defensão mas também às outras gentes da cidade, ouvindo repicar na Sé e nas outras torres, avivavam-se neles os corações, e, dando os mesteirais folgança aos seus ofícios, logo todos com armas corriam rijamente para onde diziam que os castelhanos davam mostras de vir. Ali veríeis os muros cheios de gentes, com muitas trombetas e brados e apupos, esgrimindo espadas e lanças e armas semelhantes, mostrando foiteza contra seus inimigos.

Não curavam então do texto que diz «Que mais ajuda a igreja com as suas orações que os cavaleiros com as armas», nem se guardava ali a decretal «Clerici arma portantes», aos quais, segundo o direito, não convém de tomar armas, mesmo que seja para defensão da terra, pois clérigos e frades, especialmente os da Trindade, logo eram nos muros com as melhores que haver podiam. Cada uns de noite velavam as suas torres, e os das quadrilhas roldavam todo o muro e torres duma quadrilha até outra, e outras sobrerrondas andavam pelos muros, umas indo e outras vindo.

E não embargando tudo isto, o Mestre, que sobre todos tinha o especial cuidado da guarda e governança da cidade, dando o seu corpo a muito breve sono, percorria muitas vezes de noite os muros e torres com tochas acesas diante de si, bem acompanhado por muitos que sempre consigo levava. Não havia aí nenhuns revéis (indisciplinados) entre os que haviam de velar, nem tal a que esquecesse coisa do que lhe fosse encomendado, mas todos eram muito prestes a fazer o que lhes mandavam, de guisa que a todo o bom regimento que o Mestre decidia não minguava  abundância de trigosos executantes.

Das trinta e oito portas que há na cidade doze estavam todo o dia abertas, encomendadas a bons homens de armas que tinham o cuidado de as guardar, e pelas quais nenhuma pessoa que não fosse muito conhecida havia de entrar ou sair sem primeiro se saber ao certo porque razão ia ou vinha, e ali atravessavam paus com tabuado para dormirem os que tal cuidado tinham, de modo a de noite as portas serem por eles vigiadas e nenhum malicioso ser atrevido de cometer algum erro.

E dalgumas portas tinham certas pessoas de noite as chaves, por causa dos batéis que a tais horas iam e vinham de além rio com trigo e outros mantimentos, conforme lereis em seu lugar; outras chaves recolhia-as cada noite um homem de que o Mestre muito fiava, vendo primeiro como as portas ficavam fechadas, e levava-lhas todas aos Paços onde pousava. Junto da porta de Santa Catarina, que dava para o arraial, por onde mais costumavam sair à escaramuça, estava sempre uma casa prestes com camas e ovos e estopas, e lençóis velhos para rasgar, e cirurgião, e triaga e outras coisas necessárias para pensamento dos feridos quando tornavam das escaramuças.

Na ribeira havia feitas duas grandes e fortes estacadas de grossos e valentes paus que o Mestre mandara assentar antes que elRei de Castela viesse, para defender a beira-rio de ataques, e estavam feitas desde onde o mar mais longe espraia (recuo da água do rio na margem com a maré baixa) até terra junto à cidade. E uma ia para o lado de Santos, do fundo da torre da atalaia para aquela parte, onde se entendeu que elRei poria o seu arraial, e a outra fizeram-na no outro cabo da cidade, de junto com o muro dos fornos da cal para o mosteiro de Santa Clara, as quais eram estacadas duplas e tão bastas que nenhum a cavalo podia passar por elas, e tampouco os homens de pé, sem primeiro subirem por cima da altura dos paus, o que lhes seria coisa difícil de fazer, e entre as fileiras das duplas estacas havia espaço livre, onde não fora deitada pedra ao rio, para que um batel pudesse caber sem remos, pondo-os de través, se precisasse de ali se acolher.

Não deixavam os da cidade, por serem assim cercados, de fazer a barbacã ao redor do muro da parte do arraial, desde a porta de Santa Catarina até à torre de Álvoro Pais, que não estava ainda concluída, o que seriam uns dois tiros de besta; e as moças, sem nenhum medo, apanhando pedra pelas herdades, cantavam em altas vozes, dizendo: «Esta é Lisboa prezada,/ mirá-la e deixá-la./ Se quiseres carneiro,/ qual deram ao Andeiro,/ se quiseres cabrito,/ qual deram ao Bispo», e outras razões semelhantes. E quando os inimigos os estorvar queriam, eram postos naquele cuidado em que se viram os filhos de Israel quando o Rei Serges, filho do Rei Dario, deu licença ao profeta Neemias que refizesse os muros de Jerusalém, pois que guerreados pelos vizinhos de arredor, para que os não erguessem, com uma mão punham a pedra e na outra tinham a espada para se defender, e os portugueses, fazendo tal obra, tinham junto consigo as armas com que se defendiam dos inimigos, quando estes se trabalhavam de os embargar para que a não fizessem.

As outras coisas que pertenciam ao regimento da cidade todas eram postas em boa e igual ordenança; aí não havia nenhum que com outro levantasse arruído, ou o empecesse com arbitrários excessos, mas todos usavam de amigável concórdia, acompanhada de comum proveito.

Oh que formosa coisa era de ver! Um tão alto e poderoso senhor como é elRei de Castela, com tanta multidão de gentes quer por mar, quer por terra, postas em tão grande e boa ordenança, ter cercada tão nobre cidade. E ela assim guarnecida contra ele de gentes e de armas com tais avisamentos para sua guarda e defensão. Tanto que, diziam os que o viram, tão formoso cerco de cidade não havia em memória de homens que fosse visto de há mui longos anos até esse tempo.

 

116. COMO FOI TOMADO OURÉM PELO MESTRE DE CRISTOS, E PRESO DIEGO LOPES PACHECO, E DADO POR ELE JOÃO RAMIREZ DE ARELHANO.

 

Estando o Mestre assim desta guisa, aos onze dias do mês de Junho chegou-lhe recado (notícia) por certo recontamento (informação) de que o Mestre de Christos, dom Lopo Dias de Sousa, não pela força, mas a conselho e por consentimento dalguns moradores de Ourém, tomara a dita vila que estava por Castela, e que mantinha a sua voz e a pusera sob o senhorio do Mestre, no qual lugar foram então tomados e presos dois filhos de dom João Afonso, Conde de Barcelos e irmão da Rainha dona Lionor, e todos os homens de armas que o dito Conde tinha para guarda da vila, e ao Mestre e aos da cidade prouve muito com estas novas. E logo depois morreu de sua morte natural dom Álvoro Peres de Castro, Conde de Arraiolos, e soterraram-no no mosteiro de são Domingos.

Neste comenos, não eram passados muitos dias, estando ainda a vila de Almada pelo Mestre, a qual é na outra banda a direito de Lisboa uma légua através do rio, chegou aí Diego Lopes Pacheco, que andava em Castela, do qual em alguns lugares é feita menção, ele e três de seus filhos, convém a saber: João Fernandes, que era lídimo, e Lopo Fernandes e Fernão Lopes, bastardos; e quisera entrar na vila, mas os do Concelho não quiseram, temendo-se dele porque vinha de Castela, e pousou no arrabalde com outros portugueses que ali se alojavam, e trazia consigo até trinta homens dos quais catorze eram a cavalo.

E buscando o azo (a razão) da sua vinda, dizem alguns neste passo que, depois que a Rainha dona Beatriz reinou em Castela, sempre ele teve suspeita de que não podia lá bem viver, e porque o suspeitoso nunca é seguro, receando-se ele que a Rainha lhe teria ódio como lhe tinha elRei dom Fernando, seu pai, por azo da vinda que elRei dom Henrique fizera sobre Lisboa e da destruição que nela causara, a qual afirmavam que fora por conselho de Diego Lopes, e dado que, embora ele tal suspeita e receio tivesse, não podia aí outra coisa fazer nem lhe cumpria de andar mais mundo do que já andara, pois já era homem bem dos seus oitenta anos, quando ouviu dizer que o Mestre tomara carrego de regedor dos reinos de Portugal e do Algarve, decidiu partir de Castela e juntar-se ao Mestre em Lisboa para maior segurança da sua vida, e com esta intenção se veio a Almada e, vendo que não podia passar por azo da frota que jazia no rio, aguardava tempo e hora para que o pudesse fazer a seu salvo.

Ora assim aveio que elRei de Castela, depois que a sua frota chegou, mandou dizer aos de Almada que lhe dessem a vila e fossem seus, e que lhes faria por isso mercês, e os do lugar responderam-lhe, entre outras coisas, que eles eram portugueses e não entendiam fazer mudança, mas que como Lisboa fizesse que assim fariam eles.

Estando as coisas desta guisa, ao cabo de três ou quatro dias que Diego Lopes chegou, sabendo elRei da sua vinda, mandou de noite passar encobertamente em galés e batéis das naus muitas gentes de armas e besteiros e cavalos, e duas das galés foram à Margueira, que é um porto cerca da vila, e estiveram quedas, e nas outras galés e batéis passaram toda a noite aqueles que elRei mandou, e foram aportar ao Barco de Martim Afonso (nome geográfico), que é acima da ribeira de Mutela. E quando foi manhã as gentes dos castelhanos foram-se à estrada que vem de Coina para o lugar, e as escutas que os da vila tinham cá fora vieram-lhes dar a notícia da sua vinda.

A manhã era muito nevoenta, e saíram do lugar os mais de cavalo e de pé, e Diego Lopes e os seus filhos com eles; e havia na vila de bons e comunais até oitenta de cavalo, e de gente de pé e besteiros seriam quatrocentos e cinquenta homens; os castelhanos seriam até quatrocentos de cavalo, e muitos besteiros e peões. E ao topar que fizeram uns com os outros caíram dos inimigos, entre de pé e de cavalo, quarenta, e dos portugueses, sete.

Uma cilada que os castelhanos tinham lançado entre a vila e o local em que aportaram sobreveio de dar neles, e, morrendo aí gente duma parte e doutra, Diego Lopes foi preso, e fugiram os filhos em cima dos seus cavalos para um castelo que chamam Sezimbra, que são dali três léguas, e que mantinha voz pelo Mestre. E mais foi preso Afonso Galo, Regedor da vila, e outros com ele, e alguns fugiram para Sesimbra.

Os castelhanos, que eram muitos, combateram logo Almada, e não lhe podendo fazer então coisa que muito nojo lhe causasse, puseram sobre ela cerco de assossego, e desde aí a tiveram cercada. Diego Lopes foi trazido a elRei, e tinham-no preso no arraial, havendo dele mui grande queixume.

O Mestre, vendo como Diego Lopes se partira de Castela com os seus filhos para o vir servir, e que por defensão do reino fora preso daquela guisa, ordenou logo de o livrar da prisão, e comprou João Ramirez dArelhano a Perrim Gascom e a DieguEstevens, de quem era prisioneiro, para o dar por Diego Lopes. Deste escambo não prazia a muitos, desviando o Mestre para que o não fizesse, dizendo-lhe que Diego Lopes era já homem de oitenta anos e mais, e não tal de que se pudesse servir em feito de guerra, e que João Ramirez era bom homem de armas, e que assim o mostrara quando fora preso, e que portanto era pessoa que lhe podia empecer, e que tal troca não era igual nem se devia fazer por nenhuma guisa.

E certamente que assim era como se dizia, pois João Ramirez era mui bom e ardido cavaleiro, e amava-o elRei de Castela muito porque o criara e por ser homem de armas estremado, e era filho de Madama Veneziana, de que elRei muito fiava e que fora sua ama. O Mestre não curou de quantos lho contradiziam, mas entendeu que era bem de o dar por ele, usando em tal assunto de virtuosa vontade com recto conhecimento. E assim foi dado João Ramirez por Diego Lopes, ao qual logo o Mestre fez do seu Conselho, e pôs-lhe por mês quinhentas livras de mantimento.