IV - Revolução em Lisboa

18. DO ALVOROÇO QUE FOI NA CIDADE CUIDANDO QUE MATAVAM O MESTRE, E COMO ALI FOI ÁLVORO PAIS E MUITAS GENTES COM ELE.

O pajem do Mestre, que estava à porta, como lhe disseram que fosse pela vila, segundo já era percebido [1] , começou de ir rijamente a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo a altas vozes, bradando pela rua, Matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acorrei ao Mestre, que o matam! E assim chegou a casa de Álvoro Pais, que era dali um grande espaço.

As gentes que ouviam isto saíam à rua a ver que coisa era, e começando a falar uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas, cada um como melhor e mais asinha podia. Álvoro Pais, que estava prestes e armado com uma coifa [2] na cabeça, segundo a usança daquele tempo, cavalgou logo à pressa em cima de um cavalo, quando anos havia que não cavalgava, e todos os seus aliados com ele, bradando a quaisquer que achava, dizendo, Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, que filho é delRei dom Pedro! E assim bradavam ele e o pajem, indo pela rua.

Soaram as vozes do arruído pela cidade, ouvindo todos bradar que matavam o Mestre, e assim como viúva que rei não tinha, e como se lhe este ficara em lugar de marido, se moveram todos com mão armada, correndo à pressa para onde diziam que isto se fazia, para lhe darem vida e escusar a morte. Álvoro Pais não quedava de ir para lá, bradando a todos, Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que matam sem porquê! A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha coisa de ver. Não cabiam pelas ruas principais e atravessavam lugares escusos, desejando cada um de ser o primeiro. E perguntando uns aos outros quem matava o Mestre, não minguava [3] quem respondesse que o matava o Conde João Fernandes, por mandado da Rainha. E pela vontade de Deus todos feitos de um só coração com talante de o vingar, como foram às portas do Paço, que eram já cerradas antes que eles chegassem, com espantosas palavras começaram de dizer, Onde matam o Mestre? Que é do Mestre? Quem cerrou estas portas?

Ali eram ouvidos brados de desvairadas maneiras. Tais aí havia que certificavam que o Mestre era morto, pois as portas estavam cerradas, dizendo que as britassem para entrar lá dentro, e veriam então que era do Mestre ou que coisa era aquela. Alguns deles bradavam por lenha e que viesse lume, para porem fogo aos Paços e queimar o traidor e a aleivosa. Outros se afincavam pedindo escadas para subir acima, para verem que era do Mestre. E em tudo isto era o arruído tão grande que se não entendiam uns com os outros nem determinavam coisa nenhuma. E não somente era isto à porta dos Paços, mas ainda em redor deles, por onde pudessem estar homens e mulheres. Umas vinham com feixes de lenha, outras traziam carqueja para acender o fogo, cuidando queimar assim o muro dos Paços, e diziam muitos doestos contra a Rainha.

De cima não minguava quem bradasse que o Mestre era vivo e o Conde João Fernandes morto, mas isto não queria nenhum crer, dizendo, Pois se vivo é, mostrai-no-lo e vê-lo-emos! Então os do Mestre, vendo tão grande alvoroço como este, e que cada vez se acendia mais, disseram que fosse sua mercê de se mostrar àquelas gentes, que doutra guisa elas poderiam quebrar as portas ou lhes pôr o fogo, e entrando assim por ali dentro à força, não as poderiam depois tolher de fazer o que quisessem.

Então se mostrou o Mestre a uma grande janela que dava para a rua onde estava Álvoro Pais e a mais força da gente, e disse, Amigos apacificai-vos, que eu vivo e são sou, a Deus graças. E tanta era a turvação deles, e assim tinham já em crença que o Mestre era morto, que tais havia aí que aporfiavam que não era aquele. Porém, conhecendo-o todos claramente, houveram grande prazer quando o viram, e diziam uns para os outros, Ó que mal fez! Pois que matou o traidor do Conde, que não matou logo a aleivosa com ele! Crede em Deus, ainda lhe há-de vir algum mal por ela. Olhai e vede que maldade tão grande! Mandaram-no chamar, onde ia já em seu caminho, para o matarem aqui por traição. Ó aleivosa! Já nos matou um senhor, e agora nos queria matar outro! Deixai-a, que ainda há mal de acabar por estas coisas que faz. E sem dúvida se eles entraram lá dentro não se escusara [4] a Rainha de morte, e já fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar.

O Mestre estava à janela e todos olhavam para ele, dizendo, Ó Senhor! Como vos quiseram matar à traição, bento seja Deus, que vos guardou desse traidor! Vinde-vos, dai ao demo esses Paços, não sejais lá mais. E em dizendo isto muitos choravam pelo prazer de o ver vivo. Vendo ele então que nenhuma dúvida tinha quanto à sua segurança, desceu afundo [5] e cavalgou com os seus, acompanhado de todos os outros – tantos que era maravilha de ver – os quais mui ledos arredor [6] dele, bradavam, dizendo, Que nos mandais fazer, Senhor? Que quereis que façamos? E ele lhes respondia, mal podendo ser ouvido, que lho agradecia muito, mas que por então não havia deles mais mister. E assim se encaminhou para os Paços do Almirante, onde pousava o Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, com que havia de comer. As donas da cidade, pela rua por onde ele ia, saíam todas às janelas com prazer, dizendo a altas vozes, Mantenha-vos Deus, Senhor. Bento seja Deus, que vos guardou de tamanha traição qual vos tinham bastecida [7] . Pois que ninguém por então podia outra coisa cuidar [8] .

E indo assim até à entrada do Rossio, o Conde vinha-lhe ao encontro com todos os seus e outros bons da cidade que o guardavam – tais como AfonsEanes Nogueira, Martim Afonso Valente, Estêvão Vasques Filipe e Álvoro do Rego e outros fidalgos. E quando viu o Mestre vir daquela guisa, foi-o abraçar com prazer e disse, Mantenha-vos Deus, Senhor. Sei que nos tirastes de grande cuidado, mas vós merecíeis esta honra melhor que nós. Andai, vamos logo comer. E assim foram para os Paços onde pousava o Conde.

E estando eles para se assentar à mesa, vieram dizer ao Mestre como os da cidade queriam matar o Bispo e que faria bem em lhe ir acorrer, e o Mestre quisera lá ir, mas disse então o Conde, Não cureis disso, Senhor, de o matarem, quer o matem quer não, que posto que ele morra não minguará [9] outro Bispo, português, que vos sirva melhor do que ele. Ao dito do Conde cessou o Mestre de sua boa vontade, e o Bispo foi morto desta guisa que se segue.

19. COMO O BISPO DE LISBOA E OUTROS FORAM MORTOS E LANÇADOS DA TORRE DA SÉ ABAIXO.

Sendo toda a cidade ocupada neste alvoroço, e vindo com o Mestre até junto da , foram alguns lembrados que ao irem por ali com Álvoro Pais bradaram aos de cima que repicassem [10] , e que repicando em São Martinho e nas outras igrejas, na Sé não os quiseram repicar, e souberam que o Bispo era lá em cima, e que mandara cerrar as portas sobre si. E porque era castelhano, disseram logo que era da parte da Rainha e do Conde, e que fora sabedor da traição e morte que quiseram dar ao Mestre, e que por isso não repicaram, assacando contra ele estas e outras muitas suspeitas, que não minguava quem as afirmasse. E ficou logo ali grande parte do povo, aceso com brava sanha, para haver depressa entrada a Sé e filharem logo do Bispo vingança.

O Bispo era natural de Zamora e havia por nome dom Martinho, e sendo Bispo do Algarve houvera o bispado de Lisboa por [11] Gonçalo Vasques, licenciado em degredos [12] , que lho ganhou do Papa Clemente para haver o priorado de Guimarães [13] . Este Bispo era grande letrado, bom eclesiástico e regia mui bem a sua igreja, morando por cima da claustra [14] dela para continuadamente vir às horas e divinais ofícios, e tinha em vontade de ali mandar fazer casas para morarem todos os cónegos, por haverem azo de melhor servir.

E estando ele naquele dia comendo, e o Prior de Guimarães com ele, que havia um ano e mais que o não vira senão então, ouviram uma grande volta no Paço da Rainha, que era aí cerca, e carpinhas [15] de mulheres, com grandes vozes de gentes pelas ruas derredor, bradando todos que matavam o Mestre. O Bispo ouvindo tamanha volta [16] , e que cada vez era maior, bem cuidou que não era feito leve, e por segurança de qualquer coisa que avir pudesse deixou a mesa a que estava e desceu-se por uma escada afundo, à claustra, ele, o Prior de Guimarães e um tabelião de Silves que nesse dia chegara para recadar [17]   consigo.

Com estes dois convidados e alguns seus, se foi o Bispo à mais alta torre da Sé, onde estão os sinos, mandando primeiro fechar por dentro todas as portas da igreja. E quando Álvoro Pais por ali passou à ida bradaram aos de cima, como dissemos, que repicassem. O bom homem não sabia que volta era aquela, e ademais, porque o dar da campana [18] em tal igreja era azo de grande alvoroço da cidade, duvidou muito de o fazer.

Eles, quando viram que não repicaram na Sé e que o Bispo estava daquela guisa na torre, as portas da igreja fortemente fechadas e que as não podiam tão asinha quebrar, houveram escadas [19] e entraram por uma fresta, e foram [20] mui depressa abertas. Entraram então quantos quiseram – porém muito poucos em respeito dos [21] que estavam cá fora – e a comum voz de todos era que fossem lá cima ver quem estava na torre e porque é que não repicara como nas outras igrejas, e se fosse o Bispo, que o deitassem afundo.

Silvestre Estevens, homem honrado, procurador da cidade, o alcaide pequeno dela e outros subiram por uma estreita escada que anda arredor [22] , pela qual não iam mais que um após outro, nem ninguém podia entrar na torre enquanto de cima a defender quisessem. O Bispo, vendo como era castelhano e de nação a eles contrária, receava muito em tal união [23] o que todo sisudo deve de recear, e não lhes dava lugar a que entrassem.

Porém, vendo-se sem culpa, ademais tal pessoa e eclesiástica, segurando-o eles para isso primeiro e aos que com ele estavam, houveram entrada em cima. E perguntando-lhe porque não mandara dar à campana, pois que aquelas gentes bradaram que repicassem, ele se escusou com suas mansas e boas razões de jeito que todos foram contentes.

A cega sanha, que em tais feitos nenhuma coisa esguarda [24] , começou tanto de arder nos entendimentos do povo que à porta principal da igreja estava, que começaram a bradar em altas vozes aos de cima que estavam fazendo, que não deitavam o Bispo afundo, dizendo, Guardai-vos, não vamos nós lá, que se nós lá imos todos vós haveis de vir afundo com ele.

Aos de cima, que vontade não tinham de lhe fazer mal nem nojo, era-lhes muito grave de o fazer, à uma por ser bispo, ademais seu prelado, depois pela segurança que lhe haviam feita, e não sabiam o que fizessem.

A sanha trigava [25] os corações de todos, e com menencoria grande começaram de bradar, olhando todos para cima e dizendo, Que tardada é essa que vós lá fazeis, que não deitais esse traidor afundo? E como? Já vos tornastes castelhanos como ele? E ademais se vos peitou para que o não deitásseis, e sois já todos dum acordo? Então começaram todos de jurar que se o não deitavam, e iam lá cima, que todos haviam de vir afundo com ele. E porquanto é justo todo o temor por que a homem [26] pode vir a morte, ou ficar cerca dela, houveram disto tão grande receio que logo o Bispo foi morto com feridas [27] e lançado à pressa afundo, onde lhe foram dadas outras muitas [28] – como se com isso ganhassem perdoança – que sua carne já pouco sentia. Ali o desnudaram de toda a vestidura, dando-lhe pedradas com muitos e feios doestos – até que disso se enfadaram os homens e os cachopos – e foi roubado de quanto havia.

Semelhavelmente foi lançado afundo aquele Prior de Guimarães, seu convidado, porque um escudeiro que lhe queria mal, subindo acima com os do concelho, viu tempo [29] azado para o matar, e buscando-o pela torre, achou-o escondido e matou-o. E não tendo ninguém sentido da morte dele porque estava com o Bispo, nem havendo quem o levasse dali, deitaram-no da torre afundo.

Ao coitado do tabelião, que tão pouca culpa havia como os outros, começaram de o trazer para baixo e de o doestar e empuxar – dizendo que ele, que com o Bispo estava, bem sabia parte daquela traição – e tantas [30] lhe deram de punhadas, até que lhe começaram de dar feridas e o mataram.

E assim morreram todos os três, e outros fugiram. E jouveram [31] ali, aquele dia e a noite, o Prior e o tabelião. E logo em esse dia algumas pessoas refeces [32] lançaram ao Bispo, onde jazia nu, um baraço nas pernas, e havendo chamado muitos cachopos que o arrastassem, ia um rústico bradando adiante, Justiça que manda fazer nosso Senhor, o Papa Urbano sexto, neste traidor cismático castelhano, porque não tinha com a santa Igreja. E assim o arrastaram pela cidade, com as vergonhosas partes descobertas, e o levaram ao Rossio, onde o começaram a comer os cães, que não o ousava nenhum soterrar. E sendo já dele muito comido, soterraram-no ao outro dia ali no Rossio, e os outros dois foram depois soterrados, para tirarem o fedor [33] de ante as suas vistas.

E posto que a algumas pessoas tais coisas parecessem mal e desonestamente feitas, nenhum era ousado de dizer o contrário.

20. COMO O MESTRE, DEPOIS QUE COMEU, FOI PEDIR PERDÃO À RAINHA, E DAS RAZÕES QUE AÍ FORAM FALADAS.

Depois que o Conde e o Mestre houveram comido, segundo dissemos no capítulo antes deste, vieram-se para eles o Conde dom Álvoro Peres de Castro, Rui Pereira e outros bons fidalgos. E o Mestre falou com os Condes, dizendo que ele entendia que fizera grande desprazer à Rainha ao matar o Conde João Fernandes em seus Paços, e que lhe parecia que era bem de lhe ir pedir perdão, se isto eles por bem houvessem. E acordado por todos que era bem, cavalgaram então pela vila e foram-se todos ao Paço da Rainha, e ela estava em sua câmara coberta de dó [34] , segundo havia em costume.

E entrando eles pela porta, fizeram-lhe sua reverência e ela alçou-se a eles [35] . E os do Mestre, como os Condes entraram, também foram eles todos por ali dentro de volta [36] , armados como andavam. A Rainha, quando os assim viu entrar, disse contra eles como queixosa, Á Santa Maria vale! Que desmesura é agora essa? Ou que entrada de câmara é essa? E como? Todos nós havemos de ser em conselho? E eles calaram-se e não disseram nada, deixando-se estar quedos. E ela, quando isto viu, disse, Andar, pois ora a Deus assim praz, estai em boa hora. E tornou-se a assentar em seu estrado e disse aos Condes que se assentassem, e o Mestre se assentou então, e ambos os Condes, cada um de sua parte.

E sendo eles assim assentados, disse o Conde dom Álvoro Peres ao Mestre, Senhor, dizei à Rainha o por que aqui viestes, e depois falaremos em al [37] . Então se alçou o Mestre, e os Condes, e puseram-se em joelhos ante a Rainha, e o Mestre começou a dizer, Senhora, aquele que não erra não tem de que pedir perdão, e eu, pois vos errei, é de razão que vo-lo peça, como quer que[38] Deus sabe que a minha intenção não foi de vos errar, nem fazer nojo nem desprazer. Mas porque esta coisa que eu fiz se me azou de ser feita em vossos Paços, por isso vos peço por mercê que me perdoeis, que eu – a este homem que matei – não o fiz para vos fazer nojo nem desonra, mas fi-lo para segurança de minha vida, pois entendia que enquanto ele vivesse a minha vida nunca seria segura. E por eu o matar em vossos Paços, disto vos peço eu perdão, e não doutra coisa, que a morte que eu lhe dei, Deus – que é sabedor de todas as coisas – sabe bem que há muito que me ele tinha merecido de lha eu dar, mas matá-lo em vossos Paços, isto não devera eu de fazer. E por isso, Senhora, seja vossa mercê de me perdoar, e se me esta coisa perdoardes, ainda Deus me chegará a tempo[39] em que vo-lo servirei naquelas coisas que me vós mandardes e que eu entender para vosso serviço.

A Rainha, em quanto o Mestre falou, não fez nenhum sinal que lhe prazia das suas razões, antes, calando-se, mostrava triste gesto [40] , e os outros, olhando, como era de razão, esperavam a sua boa resposta, e vendo que a não dava, falou o Conde dom Álvoro Peres contra a Rainha e disse, Que é isso, Senhora? Não respondeis vós ao que vos diz o Mestre? E não lhe perdoais? Parece-me que vos diz bem, que não é homem a mais teúdo[41] , ainda que fosse a Deus, do que, se lhe erra, pedir-lhe perdão, e pois que vo-lo ele pede, vós lhe deveis de perdoar, mormente que é filho de Rei. Ademais o erro não foi ora tamanho, nem feito por tão má guisa que vos ele maiores serviços não possa fazer.

A Rainha não respondendo nada a isto, disse então o Conde de Barcelos, seu irmão, Que coisa é esta, Senhora? Porque não perdoais ao Mestre? Pois bem vos diz o Conde, que não é homem a mais teúdo, ainda que fosse a Deus, do que a lhe pedir perdão quando erra, e pois que vo-lo ele pede, e é filho de Rei, sempre em todo o tempo vo-lo serviria com bons merecimentos. E por tanto todavia perdoai-lhe, pois se o tão bem reconhece, que em tempo estais de lhe perdoar.

A ela, quando esta palavra ouviu, foi forçado de responder, e disse como em som [42] de escárnio, Para que é ora tal pedir de perdão? Ou para que são essas razões? Perdoado é ele de seu, mas dizeis-me ora que lho acoime, vós que sois meu irmão. Parece-me que sobejo é pedir homem o que tem, e ele, pois é perdoado, não há por que pedir mais perdão. E por tanto deixemos ora isso, e falemos em outras coisas que nos mais cumpre de falar.

Então respondeu o Mestre e disse, Senhora, se vos a vós isto anoja, não falemos nisso mais, e daqui em diante falemos no que vossa mercê for.

Falemos ora, disse ela, em como dizem que elRei de Castela quer vir a este reino antes do tempo que é posto [43] nos tratos.

E isso, Senhora, disse o Mestre, boa coisa é de se falar, posto que assaz já falado fosse em ela [44] . E se assim é como dizem, quanto a mim parece o que já dito hei, que vós lhe deveis de enviar vosso recado e frontardes-lhe [45] que o não faça. E ele homem de razão é, e creio que o não fará quando lho vós assim mandardes requerer.

E ponhamos, disse ela, que lho envio eu requerer e ele diz que o não quer fazer?

Certamente, disse o Mestre, se lho vós enviásseis requerer e ele o fazer não quisesse, então deveis vós de juntar as vossas gentes e embargar-lhe a sua vinda com todo o vosso poder.

A Rainha começou então de sorrir por modo de escárnio e disse, Ó que boa razão essa! E aí era elRei meu Senhor vivo, e vós outros todos com ele, e não o podíeis fazer, quanto mais agora que ele é morto, e toda a vossa esperança soterrada com ele.

Quando estas razões ouviu, o Conde dom Álvoro Peres pôs-se em pé e disse, Alçai-vos, Senhor, e vamo-nos, que me parece que não praz aqui de quanto nós dizemos.

Então se levantou o Mestre, e os Condes, e despediram-se dela e foram-se. E saindo eles pela porta da câmara, olhou ela e viu ainda jazer o Conde morto – ali onde ficara quando o Mestre o matou – e disse contra eles, Á Santa Maria vale! Que crueldade tamanha! E não haveis ora dó desse homem, que aí jaz assim morto tão desonradamente? E sequer [46] por ser homem fidalgo, como vós, havei dele ora dó e fazei-o soterrar, e não jaza aí dessa guisa! E eles não curaram disto e foram-se para as suas pousadas.

O Conde João Fernandes jouve [47] ali morto e coberto com um tapete velho, que nenhum ousava de pôr nele a mão para o soterrar. Ele jazia vestido e atacado [48] em um gibão de cetim vermelho e uma tabarda [49] de fino pano preto com alhetas e mangas, mui bem feito corpo de homem até idade de quarenta anos. E depois que foi bem noite, mandou-o a Rainha soterrar o mais escusamente [50] que ser pôde na igreja de São Martinho, que é logo ali junto, e partiu-se essa noite dali e foi-se para a alcáçova, para outros Paços que lá tinha.

21. COMO OS DA CIDADE QUISERAM ROUBAR OS JUDEUS E O MESTRE OS DEFENDEU, PELO QUE LHES NÃO FOI FEITO.

Passado aquele grande arruído com que as gentes da cidade chegaram ao Paço da Rainha e depois que o Bispo foi morto da guisa que ouvistes, gerou-se entre eles uma união de mortal ódio contra quaisquer que a sua intenção não tinham, em tanto que [51] nenhum lugar era seguro àqueles que não seguiam a sua opinião. Cada um dava folgança ao seu ofício, e toda a sua ocupação era juntar-se em magotes a falar na morte do Conde e nas coisas que haviam acontecido, e depois, porque diziam que elRei de Castela vinha ao reino, em que maneira se teria na defensão deste, e uns nomeavam o Infante dom João, dizendo que a ele pertencia o reino de direito, outros diziam que tal não podia ser, visto que era já preso em Castela e que nunca havia de ser solto, ou que porventura o matariam por este azo [52] , e pois que isto assim acontecera, que mais Infante cumpria [53] no reino salvo o Mestre dAvis, que era filho delRei dom Pedro como o outro? E que este tomassem por seu rei e senhor.

Gastado aquele dia em tais falamentos, na seguinte manhã tornaram a semelhantes razões. E contando cada um o que lhe parecia de tais feitos, nasceu entre eles um novo acordo, dizendo que era bem de roubar alguns judeus ricos da Judiaria – assim como dom Yuda, que fora Tesoureiro-mor delRei dom Fernando, e dom Davi Negro, que era seu grande privado, e outros – e que destes poderia haver o Mestre mui grã riqueza para suportamento de sua honra. E falando uns com os outros para o pôr em obra, começou-se de alvoroçar e juntar muito povo.

Os judeus, como isto sentiram, não curaram de ir à Rainha, mas foram-se à pressa alguns deles às casas de João Gil, junto com a Sé, onde o Mestre aquela noite dormira, e disseram-lhe que os da cidade se alvoroçavam para os irem roubar e matar a todos, e que lhe pediam por mercê que lhes acorresse depressa, senão que todos eram mortos. O Mestre dizia que se fossem à Rainha, que ele não tinha com aquilo que haver, e eles se afincavam cada vez mais, pedindo-lhe trigosamente acorro [54] . Os Condes dom João Afonso e dom Álvoro Peres, que estavam com o Mestre, quando viram que ele se escusava, disseram com dó que houveram deles, Ó Senhor! Por mercê ide lá, antes que comecem, e não lho deixeis fazer, porque depois que começarem ser-vos-ão mui maus de desviar de tal feito.

Cavalgou então o Mestre, e os Condes com ele, e foi-se logo lá. E quando chegou à Judiaria achou grande parte dos da cidade que se juntavam quanto podiam e todos alvoroçados para entrarem lá dentro e a roubarem, e disse então o Mestre contra eles, Que é isto, amigos? Que obra é esta que quereis fazer?

Senhor, disseram eles, estes traidores destes judeus dom Yuda e dom Davi Negro, que são da parte da Rainha, têm grandes tesouros escondidos, e queremos-lhos tomar e dá-los a vós, que queremos por nosso senhor.

Amigos, disse ele, não queirais esta coisa fazer, mas deixai vós a mim esse cuidado, e eu porei sobre isso remédio.

Senhor, disseram eles, não assim [55] , mas nós iremos buscar os traidores onde jazem escondidos e trá-los-emos a vós, e havereis tudo quanto eles têm.

O Mestre dizendo que não curassem daquilo, e eles aporfiando que sim, era-lhe grave coisa desviá-los de sua vontade. Disseram então os Condes ao Mestre, Senhor, quereis bem fazer? Parti-vos daqui e ir-se-á esta gente toda convosco, e não curarão mais disto que fazer querem. E o Mestre fê-lo assim e foram-se todos com ele pela Rua Nova, e ficando poucos, desfez-se grande parte daquela assuada.

Ali disse o Mestre a Antão Vasques – que era juiz do crime na cidade – que mandasse apregoar da parte da Rainha, sob certa pena, que não fosse nenhum tão ousado de ir à Judiaria para fazer mal aos judeus, e ele disse que o mandaria apregoar da sua parte, e não já da Rainha, e o Mestre lhe defendeu [56] que o não fizesse, mas ele não curou em isto de sua defesa [57] e mandou-o apregoar da sua parte.

As gentes todas, quando ouviram este pregão, folgavam muito em suas vontades [58] , e diziam uns para os outros, Que estamos fazendo? Tomemos este homem por senhor e alcemo-lo por rei. E ele ouvia estas coisas e filhava-se [59] a sorrir, louvando em seu coração muito a Deus, que tal desejo punha no povo a seu favor. Então se tornaram ele e os Condes para a Sé, e aí descavalgaram para ouvir missa.

22. QUE MANEIRA TINHA A RAINHA DONA LIONOR COM O MESTRE E COM ALGUNS OUTROS A QUE NÃO TINHA BOM DESEJO.

Se os antigos que louvaram as nobres mulheres houvessem vivido no tempo da Rainha dona Lionor, muito erravam em seu escrever se a não pusessem no conto das mui famosas, porque se o dom da formosura, de todos muito preçado [60] , fez a algumas ganhar perpetual [61] nome, deste dom houve ela tão grande parte, acompanhado de aprazível graça, que aquela que o mais desejar pudesse seria assaz de contenta [62] do que a natureza a ela proveu, e depois, junto com isto, havia sageza de costumes e grande avisamento, e de nenhuma coisa que a prudente mulher pertença era ignorante.

Foi mulher mui inteira e de coração cavaleiroso, buscador de maravilhosas artes para firmeza de seu estado. Desde que ela reinou, aprenderam as mulheres a ter novos jeitos com os seus maridos, e a dar as mostranças duma coisa por a outra mais perfeitamente do que se acha nos anciãos tempos que outra Rainha de Portugal o fizesse. Ela havia certos fundamentos [63] para aquele a quem tinha má vontade nunca lho poder conhecer, e onde [64] entendia fazer grande dano, azava mortais empecimentos [65] com mostrança de todo o contrário.

Assim que [66] embora ela tivesse ao Mestre um tão mortal ódio pela morte do Conde João Fernandes, em guisa que de nenhum mal lhe poderia então vir tão grande parte que para ela fora abastada [67] vingança, no entanto ela pôde com tudo isso tanto em seu grande coração – o que a mui poucos seria ligeiro de fazer – que nenhuns sinais de malquerença mostrava de fora ao Mestre, como se ele lhe nunca houvesse feito nenhum desprazer, mas ao invés, nesses poucos dias em que ainda lhe depois falou, estando ela na cidade, sempre as suas falas e respostas eram para ele boas e sem mostrança de mau desejo. Ela, aos dois dias depois da morte do Conde João Fernandes, quitou [68] a Fernão Lopes [69] , escudeiro do Mestre, a seu rogo [70] , cem dobras que lhe demandavam que pagasse por  LourençEanes, seu sogro, que fora Almoxarife delRei dom Afonso.

E não somente ao Mestre mas ainda a alguns outros, a que ela por tal razão má vontade tinha, nenhuma coisa dava a entender do rancor que tivesse contra eles, mas em suas falas e desembargos tudo era feito ledamente e com bom gesto, até que visse tempo azado de se poder vingar segundo seu desejo.

23. COMO A RAINHA PARTIU DE LISBOA PARA ALENQUER, E QUE MANEIRA TEVE EM SUA PARTIDA.

Movida tal discórdia no povo como dissemos, e trabalhando-se os seguidores dela por levar adiante a sua opinião, foi a Rainha posta em grandes pensamentos com mistura de temor. Porque ela não era certa da maneira que o Mestre queria ter consigo, e por outra parte temia-se dos moradores da cidade, que sabia que diziam dela muito mal, tão bem os homens como as mulheres, assim que não sabia que jeito tivesse para segurança de sua vida e honra, e cuidando sobre isto muitas e desvairadas coisas, entendeu que a melhor e mais segura, que pelo presente podia fazer, era partir-se daquela cidade e ir-se para outro lugar mais seguro. Então ordenou de se ir daquele lugar para uma sua vila, a oito léguas da cidade, que chamam Alenquer.

E partiu a Rainha grande manhã, sendo já um espaço do dia andado, com quantas donas e donzelas havia em sua casa e todos os seus com ela, convém a saber, o Conde dom João Afonso, seu irmão, o Mestre de Santiago dom FernandAfonso, o Almirante micer Lançarote, Gonçalo Mendes de Vasconcelos, tio da Rainha, Martim Gonçalves dAtaíde, Pêro Lourenço de Távora, João Afonso Pimentel, Vasco Peres de Camões, Airas Vasques dAlvalade, João Gonçalves, Anadel-mor, LourençEanes Fogaça e todos os do Desembargo delRei dom Fernando, assim como Álvoro Gonçalves, Vedor da Fazenda, Gil Eanes, Corregedor, e outros muitos criados da Rainha e delRei dom Fernando. E dom Yuda, Tesoureiro-mor que fora delRei dom Fernando e seu Vedor da Fazenda, com temor pelos grandes agravos que fazia ao povo com os ofícios que tinha, não ousou ir de praça [71] como os outros, mas foi com uma funda de bacinete [72] na cabeça, com lança na mão, assim como pajem, para não ser conhecido. Bernaldom e Martim Paulo, gascões que ficaram no reino do tempo delRei dom Fernando, iam atrás com certas lanças [73] , para guarda das azémolas com temor dos de Lisboa, receando-se que fossem de pós eles [74] .

A Rainha chegou a Alverca com trigoso [75] andar e ali comeu, e dali partiu e foi dormir a Alenquer. E quando entrou pela porta da vila, disse-lhe Gonçalo Mendes, Minha sobrinha, agora entendo eu que vós estais segura, que não em Lisboa. A Rainha não respondeu a estas palavras nem disse coisa alguma, mas não minguava nos de sua companhia quem pelo caminho, olhando para trás, dissesse contra Lisboa que mau fogo a queimasse, e que ainda a visse destruída e arada toda a bois.

Ali esteve a Rainha por alguns dias, pousando os seus fora e dentro da vila, a qual se não velava nem tinha outra guarda senão a das portas abertas de dia e de noite.

24. COMO SE O MESTRE GIZAVA PARA SE IR PARA INGLATERRA, E COMO PEDIU PERDÃO A VASCO PORCALHO.

Pois que os humanais feitos se julgam segundo a intenção e não segundo a obra que se deles segue, nenhum tenha sentido de prasmar [76] o Mestre, vendo as coisas que depois se seguiram, dizendo que ele com desordenada cobiça de reinar ou haver outro senhorio no reino, e não por outra coisa, se moveu a matar o Conde João Fernandes, pois a sua vontade nunca esta foi nem subiu em seu coração tal desejo, mas somente para usar de [77] uma honrosa façanha, vingando a desonra de seu irmão, antes pôs a sua vida e a honra em grande aventura ao tremeter-se de [78] fazer tal obra, dispondo-se a deixar o reino e o Mestrado por isto, como de facto quisera fazer. Porque tanto que a Rainha partiu para Alenquer e ele ficou na cidade, houve o Mestre conselho, para segurança da sua vida, de se ir para Inglaterra, vendo que lhe não convinha ficar no reino, e mandou fazer prestes tudo o que cumpria para a sua ida, em duas naus que jaziam ante o porto da cidade carregadas de haveres de mercadores.

E como aquele que era discreto e cumprido de toda a bondade, esguardou [79] o tempo em que havia de partir, e como era forçoso passar por lugares onde tais perigos costumam de ser a que nem o artifício nem a resistência humanal prestam [80] sem a especial ajuda daquele Senhor que todas as coisas tem em governança, e para alimpamento da sua consciência, entre as coisas que primeiro fez, chamou Vasco Porcalho, Comendador-mor da sua Ordem, e contou-lhe pelo miúdo como lhe a Rainha dissera, quando fora preso [81] , que ele fizera entender a elRei dom Fernando que o Mestre se queria ir para Castela para o Infante dom João, em desserviço do reino, e que por tanto o mandara elRei prender, e não por outra coisa.

Por a qual razão, disse o Mestre, eu vos tive tão má vontade que a minha tenção foi de vos matar, e depois cuidei que a mim não vinha grande honra de o fazer, posto que o vós dissésseis, e perdi de vós toda a má vontade e queixume, de guisa que nunca vo-lo dei a entender desde então até agora que comigo andais. Então lhe contou o Mestre as razões [82] por que o deixara de fazer, e disse, Não embargando que eu teúdo não seja de vos pedir um tal perdão como este, no entanto, para mor abundamento [83] , vos rogo que aquela má vontade que vos eu então tive vos praza de me perdoar.

O Comendador ficou espantado e maravilhou-se muito de tal coisa, e disse, Ó má mulher aleivosa! Cumprida de toda a maldade! Eu, Senhor, vos tenho em grande mercê por vós de mim haverdes tão grande sanha e não me quererdes matar, nem fazerdes outro nojo [84] , e agradeço muito a Deus e lhe sou muito teúdo por vos dar tão bom entendimento, para vós cuidardes a verdade da guisa que foi e não doutro jeito, que vos juro, Senhor, em minha alma, que nunca lhe tal coisa disse nem me passou pela imaginação. E então lhe começou de jurar que nunca tal coisa dissera, nem sabia disso parte, e disse-lhe que fizera mui mal em lho não contar depois que dele perdera aquele queixume, Que sede certo, Senhor, disse ele, que se o eu soubera quando vós matastes o Conde João Fernandes, eu nunca me pudera ter que a não matara.

O Mestre disse que não curasse daquilo [85] , que bem cria que ele dizia a verdade, e cessando disto, falaram em outras coisas.

25. POR QUAIS RAZÕES O MESTRE SE QUERIA PARTIR DO REINO E IR-SE PARA INGLATERRA.

Certas razões assinam [86] os autores por que o Mestre determinou não ficar no reino e ir-se para Inglaterra, das quais é bem de saberdes algumas.

Primeiramente, ele temia-se muito da Rainha pela morte do Conde João Fernandes, posto que estando na cidade ela não desse a entender que por tal coisa lhe tinha algum mau desejo. Mas ele, que a conhecia por mulher de grande coração e muito vingadora a quem havia desprazer, azando-lhe morte e desfazimento por modos travessos não para cuidar [87] , mormente tendo ela a governança e regimento do reino como havia de ter por certos anos, bem certificou em sua vontade nunca a sua vida ser muito segura. Depois, como era pública voz e fama que ela escrevera a elRei de Castela que viesse depressa ao reino para cumprir a sua vontade, qualquer sisudo pode bem ver, tendo feito algum nojo à Rainha, que de segurança era muito afastado.

Outras coisas ajudavam ainda o Mestre a ter vontade de se partir do reino. Tal como ver claramente que muitos receavam de se chegar a ele por temor da Rainha e dos parentes dela. Outros o deixavam e se iam de todo, como fez Vasco Porcalho [88] , MartinhAnes da Barbuda [89] , Comendador da sua Ordem, e Garcia Perez, Craveiro dAlcântara que se viera para ele.

Assim que esguardadas estas e outras tais razões que dizer não curamos, a vontade do Mestre era em toda a guisa partir-se do reino.

26. POR QUAIS RAZÕES OS DA CIDADE DISSERAM AO MESTRE QUE FICASSE NO REINO E O TOMARIAM POR SENHOR.

Fazendo-se o Mestre prestes para partir, postas nos navios todas as vitualhas e feitas as manjedouras para as bestas, eram todos os da cidade, assim os grandes como os pequenos, abalados com medrosos pensamentos. Muitas coisas lhes mostravam claros sinais de nova guerra e nenhuns podiam cuidar certamente [90] onde tais feitos haviam de ir ter. Eram ainda em este tempo grandes os cuidados nos povos do reino, especialmente nas gentes de Lisboa, vendo tais coisas muito duvidosas e postas sob a esperança de grande destruição da terra.

Qual da cidade podia ser então tão seguro que sempre não fosse muito acompanhado de temor, vendo como a Rainha partira tão queixosa de todos eles por de tal guisa terem com o Mestre na morte do Conde João Fernandes? Ademais que diziam que escrevera a elRei de Castela para que logo trigosamente viesse ao reino, a qual vinda bem entendiam todos que não era senão para se assenhorear deles e para a destruição dos que contra a Rainha foram, e isso mesmo na morte do Bispo. O coração de quantos aí havia era dado a grandes pensamentos, pondo desvairados fins [91] ao bem e ao mal que de tais feitos se podiam seguir.

Um cuidado era verem-se ficar sem firmeza de paz pela morte delRei dom Fernando, pois elRei de Castela não queria guardar os tratos, segundo era contido, e vinha contra o reino para tomar posse dele. E o segundo, a sujeição grande em que esperavam ser postos sob o poder dos castelhanos, temendo-se ser deles subjugados como de seus mortais inimigos. Doutra parte, um grande temor que da Rainha haviam, sendo lembrados do grande mal que antes disto haviam recebido os que contradisseram o casamento delRei dom Fernando com ela. Ademais então que foram contra a Rainha não somente em ajuda do Mestre na morte do Conde João Fernandes, mas ainda soltando-se em desonestas palavras e doestos que a ela lhe foram mui graves de suportar. Assim que ficando à mercê da Rainha, que conheciam por mui vingadora de vontade, era-lhes assaz forte coisa esperar a sua execução [92] . Além disto entendiam que vindo elRei de Castela ao reino e entrando sanhoso dentro da cidade, tanto por razão do pendão que não consentiram que andasse pela cidade tomando [93] a Rainha, sua mulher, como pela união que levantaram contra a sua sogra, era por força de receberem dano nos corpos e haveres a que contradizer não podiam. Que se também quisessem deixar cercar e defender delRei de Castela, isto era coisa que se longamente manter não podia, e enfim era por força ser a cidade tomada e o reino ser todo sujeito a Castela, porquanto todos esperavam que como Lisboa passasse, assim passariam todos os outros. Outra coisa que muito afincava o povo miúdo era haver na cidade grande parte de galegos e castelhanos e muitos criados da Rainha, assim por criação como por benfeitoria e ofícios que ela lhes dera, os quais, avindo tal caso que se defender quisessem, temiam de ser da parte dela e de todo ponto [94] em estorvo contra eles. E postas estas coisas todas ante seus olhos, nenhum era sabedor do que havia de vir.

27. DAS RAZÕES QUE OS DA CIDADE DIZIAM AO MESTRE POR QUE NÃO SE DEVIA DE PARTIR.

Andando o povo assim levantado, posto no trabalho de falar em tão grandes dúvidas, e vendo no Mestre tanta autoridade que para os defender era pertencente, ardiam todos com cobiça de o haverem por senhor, e falando uns com os outros diziam, Que estamos fazendo? Tomemos este homem por defensor, que a sua discrição e fortaleza é tanta que abastará para empuxar [95] todos os perigos que nos avir podem.

Então se chegaram a ele, pedindo-lhe por mercê que os não quisesse desamparar, deixando-os a eles e ao reino todo – que com tanto trabalho fora ganho pelos Reis donde ele vinha – em poder dos castelhanos, que eles bem certos eram de que elRei de Castela era à pressa chamado pela Rainha, e vindo ao reino poderosamente era por força de se assenhorear dele, se não tivesse quem no defender [96] , e eles ficavam postos em mesquinha e refece sujeição, e que por isso lhe pediam por mercê que se não quisesse partir, mas que ficasse na cidade, pois eles o queriam tomar por senhor que os regesse e mandasse em toda a coisa.

E se porventura o Infante dom João viesse e o reino lhe pertencesse por direito, que o tomariam por rei, doutra guisa não. E sendo assim como todos cuidavam, que eles o tomariam [97] por seu rei e senhor, e que se assenhoreasse logo dos tesouros, alfândega e armazéns e de todos os outros direitos e coisas que pertenciam ao Rei, e que eles o poriam em posse do castelo e fortaleza da cidade, e que escrevessem cartas por todo o reino de como se esta coisa fazia, que eles eram certos que os mais de todos os lugares teriam esta tenção para não caírem em poder dos castelhanos.

Depois com isto diziam-lhe como, por serem da sua parte na morte do Conde João Fernandes e coisas que então se aconteceram, eram postos em grande homizio da Rainha, por cujo azo era forçoso, não tendo quem por eles se pusesse, de receberem grande dano nos corpos e nas fazendas.

Com tais ditos e outros semelhantes se trabalhavam todos de mover o Mestre a não se partir da cidade e ficar no reino por seu defensor, mas ele se escusava com boas e doces razões, esforçando-os quanto podia com palavras de conforto – que nenhuns deles receber podiam – nenhuma coisa lhes outorgando do que lhe em tal feito iam requerer, e eles, não embargando isto, quantas vezes o Mestre cavalgava pela vila, assim era acompanhado do comum povo, como se das mãos dele caíssem tesouros que todos houvessem de apanhar. E seguindo-o as gentes com grande prazer, uns lhe travavam da rédea da besta, outros das fraldas da vestidura, e todos bradando em altas vozes diziam que os não quisesse desamparar e que ficasse no reino por senhor e regedor, prometendo-lhe cada um das riquezas e haveres que tinham, oferecendo os corpos à morte para seu serviço, e ele olhava-os rindo do que diziam. E assim chegavam com o Mestre até onde ele pousava, e depois tornavam-se.

28. DA MANEIRA QUE A RAINHA ORDENOU PARA MATAR O MESTRE QUANDO SOUBE QUE SE QUERIA PARTIR PARA INGLATERRA.

Não tem o ódio menos sentido de haver vingança daquele que desama do que o amor com trigosos [98] pensamentos de cedo possuir quem muito deseja, e assim como onde há mui grande amor se geram desvairados cuidados para cedo alcançar o fim de seu desejo, assim também o que tem rancor dalguma pessoa não cessa de pensar em desvairados caminhos com que apague a sede da sua mortal sanha. E por tanto à Rainha dona Lionor, pela vontade feminina, que geralmente é muito desejadora de vingança, e depois usando dum grandioso coração de que a natureza lhe não fora escassa, nenhuma coisa por então ao seu entendimento era mais representada do que cuidar amiúde em todos os modos por que do Mestre pudesse haver cumprida emenda [99] . E sendo certa como ele se trigava [100] para partir em naves, que já tinha bem avitualhadas, e se ir para Inglaterra, e que nenhuns rogos nem preces do povo o podiam fazer reter, entendeu que a vinda delRei de Castela não podia ser tão depressa que ele muito mais cedo por mar não se partisse. E deixado o modo [101] da vinda delRei que determinado tinha para dele ser vingada, cuidou de ordenar por outra maneira para que de ser morto ou posto em prisão o Mestre por nenhuma guisa pudesse escapar, e foi deste jeito.

Quando ela foi certa que o Mestre se dispunha a partir do reino, pensou que então tinha muito mais prestes azo para o haver à mão preso ou morto, e dizem que mandou falar em grande segredo com os mestres daqueles navios, especialmente com o mestre daquela nau em que ele havia de ir, prometendo-lhes grandes e assinadas mercês se isto quisessem pôr em obra, convém a saber, que como as naves fossem a través [102] da costa da Atouguia, que são catorze léguas da cidade, tivessem jeito os mestres e os marinheiros de se meter todos nos batéis e ir em terra, e deixadas as naus desamparadas de mareantes que era por força de virem à costa, e que então seria forçoso de o Mestre em toda a guisa ser preso ou morto. E tal imaginação lhe pareceu mui convenhável para o seu propósito ser muito mais cedo acabado.

E presume-se que prouve àqueles a que foi cometido [103] , porque não dando ela tardança a tal pensamento, quando soube que o Mestre se trigava para embarcar e não queria ficar na cidade, falou esta coisa com Vasco Peres de Camões, e tanto afincou a sua trigosa vontade que, antes que fosse certa de se o Mestre era partido ou não, o mandou duas vezes de Alenquer a Atouguia com certos homens que levava consigo, para aguardar que como isto se pusesse em obra lho trouxesse preso ali onde estava ou recado certo em como era morto. E quando a Rainha soube ao certo que o Mestre ainda não partira, e que os da cidade se afincavam em toda a guisa de o tomar por senhor, cessou de mandar saber novas disto até que soubesse se partia ou não.

29. DAS RAZÕES QUE ÁLVORO VASQUES HOUVE COM O MESTRE SOBRE A SUA PARTIDA PARA INGLATERRA.

Sendo no povo notável o cuidado pela sua segurança e a defensão da terra, da guisa que tendes ouvido, não embargando que o Mestre se escusasse por suas razões a não poder ficar no reino, as gentes porém não deixavam de o seguir, pedindo-lhe a cada dia por mercê que os não quisesse desamparar. E porque era pública voz e fama que ele se ia para Inglaterra, vendo Rui Pereira tanto povo ao redor dele, todos bradando que o queriam por Senhor, disse uma tal [104] razão para o Mestre, Quereis que vos diga, Senhor? Vós dizem que vos ides para Inglaterra, mas a mim parece que bom Londres é este.

Então um escudeiro fidalgo – que chamavam [105] Álvoro Vasques de Góis – chamou o Mestre adeparte e disse-lhe desta guisa, Vós, Senhor, dizem que ordenais de vos partir daqui e de vos ir para outra terra, e o Mestre respondeu que sim. Que razão vos move, disse ele, para fazerdes tal partida?

Move-me, disse o Mestre, a vinda delRei de Castela, que é certo que se vem aqui. Depois os mores do reino têm todos a parte da Rainha, a qual me quer mui grande mal por a morte do Conde João Fernandes, e sou certo de que me azará todo o mal e desonra por onde quer que puder.

Para qual parte, disse o escudeiro, vos entendeis de partir?

Entendo, disse o Mestre, de me ir para Inglaterra.

Que vida entendeis de lá fazer? Disse Álvoro Vasques.

Entendo, disse ele, servir elRei na guerra que houver com seus inimigos e ganhar aquela honra e fama que todos os bons desejam alcançar.

Em verdade, Senhor, disse Álvoro Vasques, eu não sei em isto bem a vossa vontade, mas peço-vos por mercê que me digais, posto que vós lá andeis quanto tempo quiserdes e que sirvais muito bem elRei, como eu entendo que vós o servireis, quando entendeis vós de lá cobrar outra tão boa cidade, por a força das armas, como a cidade de Lisboa em que vós estais, onde se oferecem os moradores dela a vos servir e dar quanto têm, até a morrerem para vos ajudar? E se vós em outra terra entendeis de servir para alcançar honra em feito de armas, onde podeis vós maior serviço fazer, e em que melhor relembrança fique de vós, do que na terra que foi ganha pelos nobres Reis de que vós descendeis, e donde sois natural, mormente com gentes que tanto de coração e vontade vos oferecem a sua ajuda e serviço?

Quando o Mestre ouviu tais razões, pareceram-lhe boas e começou de cuidar em sua ficada, por que maneira poderia ser com sua honra e proveito.

30. COMO FREI JOÃO DA BARROCA VEIO A LISBOA E DA MANEIRA DO SEU VIVER.

Ainda que breve e mais simplesmente este capítulo pudesse ser contado, porém satisfazendo ao nosso desejo, e ao dalguns a que porventura pode prazer disso, sem mais nomear autores, dizemos que os modos das revelações [106] são quatro, convém a saber, dois corporais e dois espirituais. Os corporais são da parte de fora, os espirituais da parte da alma.

O modo primeiro corporal é quando os olhos corporais são abertos a ver o céu, a terra e outras coisas. Esta revelação ou demonstração não é perfeita, porquanto por ela não alcançamos as virtudes [107] das coisas que vemos. O segundo, quando vemos ao de fora coisa que tem mistério lá dentro, assim como Moisés, que viu arder o espinheiro por que se mostrava a encarnação do Filho de Deus.

Dos outros dois espirituais, um é quando com os olhos da alma, por alumiamento [108] do Espírito Santo, vimos em conhecimento dalguma coisa. O outro, quando por humanal espírito e subtileza de natural engenho investigamos alguma coisa, a qual verdadeiramente depois sabemos, assim como foram os filósofos que souberam os naturais cursos dos planetas, e assim de outras coisas.

As revelações outrossim em sonhos são por cinco modos, convém a saber, sonho, visão, oração, não sonho, fantasma. E estes dois modos postumeiros [109] algumas vezes vêm por enchimento do estômago, outras por míngua de vianda [110] , outras por amor dalguma pessoa a que grande bem queremos, outras vezes por grande temor, outras por azo de profundo pensamento de humor melancólico [111] , e às vezes por engano de Satanás, que se transfigura em Anjo de Luz, de guisa que a estes dois modos postumeiros nenhum pode dar interpretação que certa seja. Oração é quando a algum homem de boa vida aparece o Senhor Deus, ou algum Anjo, e lhe diz as coisas que há-de fazer, ou de que se deve de guardar ele ou outra pessoa. Visão é quando um homem, àquilo que viu em sonhos, vê depois claramente por vista, assim como o sonho que viu o Faraó das vacas e das espigas. Sonho é quando um homem vê alguma coisa da qual por si não pode declarar nem saber, e há mister de quem lho interprete, como foi o sonho do Copeiro delRei Faraó.

Ora se por algum destes modos sobreditos, ou por outro que aqui não pomos, aconteceu a vinda de frei João a que depois chamaram da Barroca, disto não havemos mais conhecimento salvo quanto achámos escrito no que contam dele algumas histórias, dizendo que antes do tempo [112] em que o Mestre matasse o Conde, vivia em Jerusalém um bom homem devoto emparedado em vida, e era castelhano; a este veio em revelação que se viesse ao porto de Jaffa, e que aí acharia uma nau prestes que vinha para Portugal, à cidade de Lisboa, e que nela entrasse e ali aportaria. O homem bom saiu-se da cela onde vivia e chegando àquele porto achou a nau prestes, como lhe fora dito, e entrou logo nela.

E encaminhou Deus a sua viagem de guisa que chegaram àquela cidade onde ele nunca fora. E como foi noite [113] , disse que o levassem a uma alta barroca cerca do mosteiro de São Francisco desse lugar, onde havia uma pobre casa bem pequena, e que lhe cerrassem a porta, salvo uma estreita janela que ficasse para a vista, e que Deus o proveria ali do que lhe necessário fosse.

Fizeram-no assim aqueles que disto tomaram cuidado, e foi encerrado naquele lugar. E vivendo ali o homem bom em áspera e apertada vida, começaram as gentes de haver nele tal devoção, visitando-o com as suas esmolas, de que ele pouco tomava, que todos o haviam por santo e que Deus lhe revelava muitas das coisas que estavam por vir, e alguns iam tomar com ele conselho para a saúde das suas almas e fazendas.

31. COMO O MESTRE FALOU COM FREI JOÃO DA BARROCA, E DA RESPOSTA QUE LHE ELE DEU.

Porque dos entendidos é de requerer conselho, e os grandes feitos não encaminhar pelo seu próprio siso, teve [114] o Mestre que era bem, não embargando o que lhe dissera Álvoro Vasques, Rui Pereira e outros, de se aconselhar com espirituais pessoas, pois a tal carrego [115] qual [116] lhe diziam que tomasse não somente cumpria haver a ajuda das gentes, mas também as orações e preces dos bons e a ajuda de Deus e a sua graça. E por a grande nomeada que pela cidade corria deste frei João da Barroca, tanto da sua honesta vida como dos bons conselhos que dava a alguns que o iam visitar, foi o Mestre falar com ele.

E esta fala dizem alguns que foi a requerimento do homem bom, com o qual falara Álvoro Pais, fazendo-lhe queixume de como o Mestre se queria partir, e que ele lhe disse que todavia aconselhasse ao Mestre que se não partisse, que a Deus prazia de ele ser regedor desta terra e senhor dela. Outros contam que o Mestre se demoveu a lhe ir falar para dele haver algum proveitoso conselho em seu feito.

Ora de qualquer guisa que seja, o Mestre foi até ele e contou-lhe toda a sua fazenda [117] e quanto lhe aviera com o povo da cidade, dizendo como todos se afincavam de o tomar por senhor e que não se fosse para fora do reino, e depois todas as outras razões, que com muitos deles houvera, aconselhando-lhe a que todavia ficasse, porém que ele não via nenhum caminho como isto se pudesse fazer a seu salvo [118] , nem do povo da cidade, porque elRei de Castela vinha muito poderosamente ao reino, e as mais das vilas e lugares tinham já dele a sua voz, e que para tal defensão como aquela cumpria a ajuda de muitas gentes e grande soma de dinheiros para a despesa do soldo, e também o castelo da cidade, que era contra ela, cumpria [119] ser logo tomado, o que seria mui grave [120] de se fazer tão depressa.

Assim que estas e todas as outras razões contrárias [121] , que o Mestre entendeu que tal feito embargar podiam, contou ele por miúdo ao homem bom. E ele a todas respondeu de guisa que o Mestre folgou muito com a sua resposta, pondo-lhe grande esforço [122] em elas, dizendo-lhe que todavia não se fosse do reino e começasse de seguir [123] o seu feito com ardido coração, pois que a Deus prazia de ele ser rei e senhor dele, e os seus filhos depois da sua morte, e que para tomar o castelo da cidade fizesse um artifício de madeira a que chamam gata [124] , e que logo sem muita detença seria tomado com mui poucas gentes.

O Mestre, quando isto ouviu, maravilhou-se das palavras do homem bom, e começando de cobrar esforço, partiu-se então de ante ele assaz cuidadoso de sua fazenda.

32. COMO FOI ACORDADO DE ENVIAR À RAINHA COMETER CASAMENTO COM O MESTRE, E SEGURANÇA PARA OS DA CIDADE.

Não convém calar, posto que disto poucos livros façam menção, a maneira que o Mestre teve – depois que falou com frei João – daquela vez e algumas outras em razão [125] da sua partida ou ficada, porque cuidando ele no prosseguimento de tantos trabalhos e cuidado, como a tal feito cumpria, mandou chamar Álvoro Pais e alguns outros da cidade que lhe sobre isto haviam falado, e disse que cuidando ele no que lhe por vezes disseram em razão da sua ficada no reino, pensara em isso muito, e que lhe via tantos contrários para esta coisa não poder ir adiante, com sua honra e proveito deles, que sempre duvidara muito de o fazer, por isso que cuidassem bem em tal, pois não era coisa para se começar assim de ligeiro, e que se alguma boa maneira pudessem achar acerca do que começar queriam, que ele prestes era para o pôr em obra, doutra guisa melhor seria não o começar e buscar-lhe outro remédio.

E falando sobre isto prolongados sermões, vieram alguns a cuidar que para esquivarem semelhante dano como o que aviera ao reino com as guerras no tempo delRei dom Fernando, e depois para esta coisa ser melhor e mais proveitosamente feita, era bem [126] que o Mestre casasse com a Rainha dona Lionor, dizendo que ela havia de haver o regimento do reino por certos anos, segundo nos tratos era contido, e que entretanto poderia ser que houvesse elRei de Castela um filho da Rainha dona Beatriz, o qual havia de ser trazido ao reino e criado nele, como nas avenças fora outorgado, e que o Mestre, com a Rainha, seria regedor durante todo esse tempo, e que quando viesse aquela sazão em que ele [127] houvesse de reinar, ficaria o Mestre governador delRei e o mor do reino e do seu conselho, e desta guisa seria a terra em assossego e paz, e eles seguros da parte da Rainha quanto à união que levantaram contra ela, e que o Papa, vendo quanto bem de tal coisa se seguia, ligeiramente dispensaria com eles para que pudessem ambos casar.

Foi esta coisa dita ao Mestre e posta em conselho perante aqueles com que razão tinha de o falar, e foi determinado que era proveitosa por estas razões que ditas havemos e outras muitas que alguns assinavam [128] , dizendo que era bem de lhe ser cometido [129] e que veriam que resposta daria a isto.

E ordenando quem lá houvesse de ir, acharam que era bem de enviar sobre isto Álvoro Gonçalves Camelo, que foi depois Prior do Hospital, e Álvoro Pais, cidadão de Lisboa de que em cima é feita menção, os quais, chegando a Alenquer, receberam dela grande e fingido gasalhado [130] , especialmente Álvoro Pais, a que ela maior mal queria.

E falando à Rainha sobre aquilo a que eram enviados, não se acordou com eles no feito do casamento. Quanto à segurança dos moradores da cidade pela união [131] que alçaram contra ela, dizem alguns que teve este jeito, como era prudente mulher e sages, viu que não lhes dando segurança da guisa que o povo requeria, como todos andavam levantados, se poderia seguir ainda pior [132] , e ela então não teria azo de se vingar deles segundo desejava, e por isso – contam – que  os segurou da guisa que lho enviaram pedir, e para mais certos serem de tal segurança e não porem em isso dúvida, que fingiu que comungava duma hóstia – a qual afirmam que não era sagrada – e  deu-lhes cartas suas de seguro para se partirem.

Ora assim aveio que depois que a Rainha foi em Alenquer como dissemos [133] , começaram de falar perante ela esses fidalgos [134] , e outros que presentes eram, sobre o que a cada um ficara na cidade de que mais se doía, mostrando eles quanto lhes pesava de o assim perderem. A Rainha, ouvindo falar em isto, disse para os outros, Quanto a mim, não me pesa tanto doutra coisa que me lá ficasse como do bacinete e da cota de Álvoro Pais.

Como, Senhora, disseram eles, e tão boas armas são essas que vós não podereis haver outras, tão boas, por dinheiro?

Não me dariam, disse ela, outras tais por nenhum preço. E se me alguém estas desse à mão, eu lhe daria por elas quanto me pedisse.

E maravilhando-se todos que armas podiam tais ser, souberam que o dizia porque Álvoro Pais era calvo e por a cota da cabeça. Alguns que lhe isto ouviram, foram-no dizer a Álvoro Pais, e ele trabalhou de se partir mais depressa, e encaminharam para Lisboa.

E antes que partissem de Alenquer, disse o Conde dom João Afonso a um escudeiro casado em Lisboa com que havia conhecimento, que ia em companhia dos embaixadores: que bem via como Castela era contra Portugal, e Portugal contra si mesmo, e que bem devia entender que tal sandice qual levantavam dois sapateiros e dois alfaiates, querendo tomar o Mestre por Senhor, não era coisa para ir adiante, e que portanto, ao menos para segurança dos seus bens, deixasse a cidade e se fosse para eles. Nunca tal vistes, disse o escudeiro. Quando cá estou parece-me que é assim como vós dizeis, e depois que lá sou semelha-me que todos não valeis nada, e que quanto me falais, que tudo é vento.

33. COMO O MESTRE OUTORGOU DE FICAR POR REGEDOR E DEFENSOR DO REINO, E DO QUE FOI FALADO NA CÂMARA DA CIDADE SOBRE A SUA FICADA.

Enquanto Álvoro Gonçalves e Álvoro Pais foram enviados a Alenquer, alvoroçaram-se as gentes da cidade sabendo como elRei de Castela se vinha chegando ao reino, e disseram uns para os outros, Que temos de fazer [135] com enviar recado à Rainha, ou em pôr nisto mais longa tardança? Vamos ao Mestre e peçamos-lhe afincadamente que seja sua mercê em toda a guisa tomar o carrego de defender esta cidade e o reino, e nós o serviremos com os corpos e haveres e lhe daremos tudo quanto temos, e assim farão todos os outros do reino que verdadeiros portugueses forem, e não curem de mais enviar recado à Rainha, nem da resposta que lhe há-de mandar.

Então o comum povo livre e não sujeito a alguns que o contrário disto sentissem, lhe pediu por mercê que se chamasse Regedor e Defensor dos reinos, e ele vendo o seu grande desejo, e também o conselho de frei João e dos outros que lhe sobre isto haviam falado, outorgou de o fazer, contanto que eles se juntassem todos naquele dia no mosteiro de São Domingos, para lhes haver de falar o que sobre isto entendia de fazer em razão da sua ficada, por que tanto era requerido, e eles disseram que lhes prazia muito.

Junto esse dia muito povo da cidade naquele mosteiro, propôs [136] o Mestre como se entendia de partir do reino e as razões porquê, como já dissemos, depois, como lhe fora muitas vezes por eles requerido que todavia ficasse por seu defensor, e que ele se escusara disso por certas razões que lhes logo assinou [137] , mas pois que eles tanto se afincavam a que todavia não partisse e ficasse na cidade, que ele, por serviço e honra do reino, determinava em sua vontade de ficar, contanto que eles tivessem maneira de o servir e suportar naquela honra e estado que cumpria para defensão do reino.

E eles a uma voz, não esperando que falasse um por todos, mas quantos aí eram juntos, altamente disseram que lhes prazia de o servir e ajudar com os corpos e haveres até morrerem todos ante ele. E o Mestre respondeu então, pois que eles assim diziam e o queriam servir, que a ele prazia de tomar o carrego de ser seu defensor e pôr o corpo a qualquer aventura por honra do reino e defensão deles.

Quando o Mestre outorgou desta guisa de ter o cuidado e regimento do reino, toda a tristeza foi fora das gentes e os seus corações não deram lugar a nenhum trespassado [138] temor, mas todos ledos sob boa esperança, fundada em bem-aventurado fim, se esforçaram de levar o seu feito adiante, tendo grande fé em Deus, que os havia de ajudar. E disseram logo ao Mestre que porquanto na cidade havia muitos honrados cidadãos que ali não estavam presentes, estes fossem chamados à câmara do concelho e lhes fosse razoado e proposto tudo quanto ali fora dito, de guisa que outorgassem todos o que eles disseram e queriam fazer. O Mestre disse que era mui bem, e foram ao outro dia todos chamados.

E sendo assim juntos naquela câmara da cidade, foi razoado por parte do Mestre como todo o povo miúdo o recebia por seu regedor e defensor, e que agora era a eles requerido se lhes prazia de outorgar aquilo que todo aquele povo tinha outorgado.

Não respondia nenhum, calando-se todos, outros falavam mui manso [139] à orelha com os que estavam cerca deles, assim que não dava resposta nem um que mostrasse que consentia em coisa que os outros dissessem, não por a eles lhes não prazer de a cidade e o reino serem defesos dos inimigos, mas porque todos eles duvidavam muito de tal coisa poder ir adiante, ou haver depois bom fim, porém a intenção do povo miúdo era muito pelo contrário; depois haviam grande receio da Rainha lhes acoimar isto com grandes tormentos, como fora feito no tempo delRei dom Fernando, quando lhe contradisseram o casamento da Rainha com ele.

E duvidando estes que foram chamados e não respondendo ao que lhes diziam, era aí muito povo junto, entre os quais [140] estava um tanoeiro que chamavam Afonso Anes Penedo, que fora presente com todos os outros quando se juntaram em São Domingos, outorgando de receber o Mestre por senhor, e vendo que não falava nenhum dos mais honrados da cidade que eram presentes, começou de se andar passeando, pôs a mão em uma espada que tinha cinta e disse, Que estais vós outros assim cuidando, e porque não outorgais o que outorgaram quantos aqui estão? E como! Ainda vós duvidais de tomar o Mestre por regedor destes reinos e que tome carrego de defender esta cidade e nós outros todos? Parece que não sois vós outros verdadeiros portugueses. Digo-vos que quanto a por essa guisa, buscai-nos vós a todos cedo em poder dos castelhanos.

Entretanto falavam-se entre eles algumas razões sobre isto, mas nenhuma resposta se dava qual cumpria, porquanto esses maiores se receavam muito das razões que já tendes ouvidas.

Então aquele tanoeiro em cima nomeado pôs a mão na espada outra vez e disse contra aqueles a que se fazia tal requerimento, Vós outros que estais assim fazendo? Quereis vós outorgar o que vos dizem? Ou dizei que não quereis, pois que eu em esta coisa não tenho mais aventurado que esta garganta, e quem isto não quiser outorgar logo há mister que o pague pela sua, antes que daqui saia. E todos os que aí estavam do povo miúdo essa mesma razão disseram.

Vendo aqueles que foram chamados o alvoroço que todos faziam e que lhes não cumpria ter em isto outro jeito contrário, outorgaram então quanto os outros tinham prometido, e foi assim escrito e assinado por suas mãos.

E desta guisa foi o Mestre tomado por Regedor e Defensor do reino, no qual regimento e defensão que fez bem se mostrou depois a sua virtuosa ardideza [141] , como adiante podereis ver.

34. COMO O MESTRE TOMOU OFICIAIS PARA A SUA CASA, E QUE DITADO ORDENOU DE SE PÔR NAS CARTAS.

Depois que o Mestre teve por todos os da cidade este outorgamento de o receberem por senhor, ordenou a maneira que havia de ter para a defensão dela e de todo o reino.

E foram logo feitos dois selos, um pendente e outro chão, das armas de Portugal direitas, acrescentando entre os castelos a cruz da Ordem de Avis, da guisa que vedes que ora se traz. E fez o Mestre seu Chanceler-mor o doutor João das Regras, que era mui grande letrado. E o ditado que tomou, que se escrevia em todas as cartas, dizia deste modo, Dom João, pela graça de Deus, filho do mui nobre Rei dom Pedro, Mestre da Cavalaria da Ordem de Avis, Regedor e Defensor dos reinos de Portugal e do Algarve.

E tomou para o seu conselho este doutor que dissemos e dom Lourenço, Arcebispo de Braga, João Afonso da Azambuja, que depois foi Arcebispo de Lisboa e depois Cardeal, o doutor Martim Afonso, que depois foi Arcebispo de Braga, João Gil, licenciado em leis, e Lourenço Estevens o moço, filho de Lourenço Estevens, privado que foi delRei dom Pedro, e ambos estes por Desembargadores do Paço e do seu conselho. E por Vedores da sua Fazenda, João Gil e Martim da Maia, e para Tesoureiro da Moeda um mercador que havia por nome micer Persifal. E fez Corregedor da cidade outro mercador a que diziam Lopo Martins, e Almoxarife das Casas e Tendas a João Domingues Torrado. E repartiu outros ofícios por tais pessoas quais entendeu que era para seu serviço e proveito da terra, e foi logo ordenado na cidade que vinte e quatro homens, dois de cada mester, tivessem carrego de estar na câmara, de maneira a que toda a coisa que se houvesse de ordenar, para bom regimento e serviço do Mestre, fosse com o acordo deles.

Muitos outros ofícios foram dados a pessoas que seria longo de dizer, como reino que novamente se começava de ordenar.

Em se fazendo estas coisas, chegaram os que foram enviados a Alenquer com a resposta e cartas da Rainha, e o Mestre não as quis ler e rompeu-as [142] logo, e eles folgaram muito quando viram que com puro e limpo desejo tomava carrego de reger e defender aqueles que o ajudar a defender queriam.

Onde sabei que como o Mestre tomou voz de regedor e defensor do reino, muitos que eram criados da Rainha e feitos por si e seus familiares se foram logo da cidade para ela, e assim para outros lugares. E partiam-se de Lisboa temendo de nela estar pelo grande alvoroço que viam nas gentes, e por medo mui forte delRei de Castela, e antes que partissem tomavam todos os seus haveres em arcas e em trouxas, como melhor podiam, e punham-nos à guarda em casa de seus amigos. E muitos dos que se achegavam ao Mestre para o haver de servir, sabendo parte de tais haveres por alguns que lho descobriam, pediam que lhes fizesse deles mercê, e ele sem mais detença, nem sabendo se era muito, se pouco, outorgava-lhes quanto pediam, e muitos acertavam mui grandes algos [143] .

Álvoro Pais, que fora muito em ajuda dos feitos do Mestre, segundo em cima já tendes ouvido, vendo tal demanda qual se começava, e como alguns diziam ao Mestre que não desse assim aqueles haveres, que muito melhor seriam para si, lhe disse um dia falando com ele, Senhor, crede-me um conselho, e dar-vos-á mui grande ajuda para levar vosso feito adiante.

Que conselho é esse? Disse o Mestre, e se for bom prazer-me-ia muito.

Senhor, disse Álvoro Pais, fazei por esta guisa, dai aquilo que vosso não é, prometei o que não tendes e perdoai a quem vos não errou, e ser-vos-á mui grande ajuda para tal negócio em qual sois posto.

O Mestre disse que lhe parecia mui bem e fê-lo assim, pois dava os bens, em todos os lugares que por ele tinham voz, das pessoas que andavam com a Rainha ou que se iam para elRei de Castela, e nas cartas das doações dizia, Porquanto anda em nosso desserviço com dom João que se chama Rei de Castela, e prometia ofícios e terras e outras coisas, das que tinha esperança de cobrar adiante, e perdoava as mortes e malefícios a quantos lho requeriam, contanto que não fosse aleive [144] ou traição, e se foram feitos antes do primeiro dia de Dezembro em que ele matou [145] o Conde João Fernandes, da era de quatrocentos e vinte e um [146] , com a condição que em certos dias se viessem a Lisboa para servir à sua custa enquanto durasse a guerra.

Dos haveres que ficaram escondidos, houve o Mestre um grande tesouro da Condessa [147] mulher do Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, o qual deixara em São Domingos de guarda quando a Rainha se partiu para Alenquer, e era de muita prata, ouro, jóias e pedras e outras coisas. E não embargando que secretamente fosse posto em lugar escuso – sobre a porta principal, adentro [148] , entre o sobrearco e o telhado – não minguou quem o descobrir, e foi todo levado ao Mestre.

35. COMO O INFANTE DOM JOÃO SOUBE QUE O MESTRE SEU IRMÃO SE CHAMAVA REGEDOR E DEFENSOR DO REINO, E DA MANEIRA QUE EM ISSO TEVE.

Não curando muito dalgumas razões [149] que escritas achámos em este lugar [150] , somente desta, que razoada parece, diremos brevemente para nos despedir. A qual é que a tenção do Mestre – quando tomou o carrego de regedor e defensor do reino – não embargando as razões que ouvistes que lhe dissera frei João da Barroca, todavia não foi de reinar, mas por tal que a sua fama crescesse de bem em melhor, e depois, doendo-se da terra donde era natural e havendo maviosa piedade do comum povo que tanto o afincava, tomou tal carrego, e não doutra guisa, esperando que o Infante dom João, seu irmão, houvesse azo por alguma maneira de ser livre da prisão e solto, e vindo ao reino, o pudesse cobrar e ser senhor dele, como alguns diziam, a qual coisa seria a ele grande honra, façanha muito de louvar e que lhe todo o mundo teria a grande bem.

E tendo o Mestre ordenado de lho fazer saber da melhor maneira que pudesse, aveio que um escudeiro – dos criados do Infante dom João que andavam espargidos [151] por Castela e alguns deles por Portugal – ouvindo dizer que o Mestre seu irmão tomara voz de regedor e defensor do reino, e também como os outros diziam que não embargando isto se ia para fora da terra, cuidou de o fazer saber ao Infante, para disto ser em conhecimento e ver o que lhe mandava fazer em tal feito. E porquanto era defeso [152] por elRei de Castela que, qualquer do Infante que fosse achado no lugar onde ele jazia preso, fosse retido até sua mercê [153] , foi lá aquele escudeiro o mais encobertamente que pôde e falou com um frade em confissão, pelo qual fez saber ao Infante aquilo por que ali era vindo, dizendo como se afirmava que seu irmão, àquela tenção que tomara de reger e defender o reino, entendia de a levar adiante até esperar ser cercado por elRei de Castela em Lisboa, ou outra qualquer coisa que lhe avir pudesse, e que, por isso, fosse sua mercê de lhe mandar dizer o que era que faria de si.

Ao Infante prouve muito com tais novas, porque fora preso daquela guisa, e mandou-lhe dizer que lhe rogava, por quanto podia, que ele e todos os seus criados se fossem para o Mestre e o servissem, e que este era o maior serviço e prazer que lhe por então podiam fazer, e mais que dissesse a seu irmão, da sua parte, que lhe enviava rogar e pedir que em toda a guisa se chamasse Rei de Portugal, se o queria ver livre e solto, pois doutra guisa ele entendia nunca sair da prisão, e dizem alguns que disto lhe deu a sua carta de crença [154] assinada por si.

O escudeiro partiu-se de Toledo e achou João Lourenço da Cunha, marido que fora da Rainha dona Lionor, e outros criados do Infante, e contou-lhes tudo o que lhe aviera com ele. Então partiram-se para Lisboa, aqueles que disto souberam parte, e vieram-se para o Mestre, e ele os recebeu mui bem e folgou muito com eles, e quando viu o recado do irmão, cessou [155] de lhe escrever o que tinha na vontade em razão da governança do reino.

36. DO RECADO QUE A RAINHA MANDOU A GONÇALO VASQUES DE AZEVEDO ANTES QUE PARTISSE PARA SANTARÉM, E DAS RAZÕES QUE ELE DISSE AOS DO LUGAR.

Certo é que quaisquer histórias muito melhor se entendem e lembram se são perfeitamente e bem ordenadas, do que o sendo por outra maneira, e posto que seja nossa tenção, de estas que escrever queremos, o serem em bom e claro estilo, porém tão grande az [156] de histórias nos são prestes [157] , mormente em este lugar [158] , que desviam muito de tal ordenança o nosso desejo e vontade. Porque elRei de Castela vem para entrar em Portugal, NunÁlvares outrossim vem-se a Lisboa, depois, ao castelo da cidade trabalha-se o Mestre com o povo de o tomarem, alçam-se vilas contra os alcaides dos castelos pelo reino, levantam-se uniões duns contra os outros, fazem-se outras muitas coisas em uma sazão, de guisa que umas torvam as outras a não se poderem contar nos dias que aconteceram. E segundo o nosso juízo, melhor é dizer umas e depois outras, posto que a alguns isto não apraza, do que as embrulhar confusamente e serem muito piores de entender. Por isso levemos primeiro a Rainha a Santarém, depois falaremos do muito de louvar NunÁlvares, como se veio a Lisboa para o Mestre, e depois da tomada do castelo, e assim doutras coisas como as melhor pudermos encaminhar.

Onde entendei que como a Rainha soube que os da cidade tomaram o Mestre por seu regedor e defensor, e que ele em suas cartas usava já de tal ditado, outra nova guerra se gerou nas entranhas dela com mortais cuidações de lhe empecer. Porém, pensando muitas coisas e revolvendo-as no entendimento, cuidou de se partir de Alenquer e ir-se para Santarém, e porque as gentes desta vila se levantaram antes disto contra o alcaide, quando por seu mandado trouxe o pendão pela vila, segundo antes haveis ouvido, e não era certa se lhe tinham boa vontade, antes duvidava muito pelo que assim fizeram [159] , mormente então com o levanto [160] de Lisboa, cuidou que era bem de saber, por alguma guisa, as vontades deles antes que ao lugar chegasse. E escreveu a Gonçalo Vasques dAzevedo, que estava em Santarém por alcaide, para que falasse com esses bons do lugar, da melhor maneira que entendesse, e soubesse as suas vontades que tais eram para ela, e o que em eles achasse, lhe fizesse depois saber segundo visse que cumpria ao seu serviço.

Gonçalo Vasques mandou dizer a esses melhores do lugar que se juntassem todos um dia na igreja de São João dAlpram, para falar com eles algumas coisas, e depois que aí foram juntos, chamou-os todos para um grande curral [161] fora da igreja, e disse em esta guisa:

Homens bons, vós sabeis bem como eu sou vosso vizinho e natural deste reino, e tenho aqui meus bens e casas, tantos e mais do que em outra parte, por a qual razão sempre quis e quero bem a este lugar e aos moradores dele, e crede que toda a coisa que por vossa honra e acrescentamento pudesse fazer, o faria mui de grado [162] . Ora, amigos, assim é que eu esta noite, jazendo pensando em algumas coisas da minha fazenda, vim a cuidar para vossa honra e minha, e ajuda de todos os moradores deste lugar, uma coisa que tal é, e se vos parecer que é bem o que vos eu disser, em nome de Deus seja, mas se doutra guisa entenderdes que é melhor, em qualquer coisa que vós todos acordardes me acordarei eu convosco, porque de todo o bem que a este lugar viesse queria eu ser quinhoeiro, e ainda do contrário, quando mister fizesse, e por isso me demovi a vos dizer isto.

Vós sabeis bem o que aconteceu à Rainha há pouco em Lisboa, e como o Mestre matou o Conde João Fernandes nos Paços onde ela pousava, e já tereis ouvido tudo o que sobre isto aconteceu, e como a Rainha se partiu daí e se veio para Alenquer. E de os moradores de Lisboa fazerem isto, e outros levantamentos que já fizeram, segundo bem sabeis, não é maravilha [163] , que são gentes de muitas misturas e levantam entre si desvairadas opiniões e alvoroços. E porque a Rainha está em Alenquer, que é lugar em que ela por ora não está tão honradamente como estaria aqui, parece-me que era bem que lhe enviásseis pedir, por mercê, que se viesse para esta vila, dizendo que vos parece que não é de sua honra nem proveito estar tão perto de Lisboa em tal lugar como aquele, que para qualquer coisa que seja, mais seguramente estará aqui que onde está, e ela, ora lhe praza, ora não, ter-vo-lo-á em serviço e vós ficareis por isso louvados.

E porque entendi que isto era de vossa honra e minha, cuidei de vo-lo dizer, e vós fazei como por bem tiverdes.

Então responderam todos que dizia mui bem e que lhes prazia disso, e que assim lho mandariam dizer por sua carta, e Gonçalo Vasques disse, pois que assim era, que ele seria o mensageiro dela e lhe contaria ainda a boa vontade que neles sentira em toda a coisa que por sua honra e serviço pudessem fazer.

Então se partiu Gonçalo Vasques, dizendo que por isto iria a Alenquer mais cedo do que cuidava. E quando chegou e contou à Rainha a resposta que em eles achara, prouve-lhe muito, e ela mandou-lhes dizer, por sua carta, que lhes agradecia muito tudo o que lhe escreveram e a vontade boa que tinham de lhe fazer serviço, e que os havia por bons e leais, e que fossem certos de que lhes faria por isso muitas mercês em qualquer coisa que lhe requeressem.

37. COMO A RAINHA PARTIU DE ALENQUER PARA SANTARÉM, E DAS RAZÕES QUE DISSE AOS DO LUGAR ANTES QUE PARTISSE.

A Rainha, como soube por Gonçalo Vasques, que era então alcaide de Santarém, que os do lugar eram prestes para o seu serviço e que lhes prazia muito da sua ida para lá, ordenou de se partir de Alenquer depois da festa do Natal, e deixou por alcaide do castelo Vasco Peres de Camões e por guarda da vila Martim Gonçalves dAtaíde.

E antes que partisse, mandou chamar os homens bons da vila e disse-lhes estas palavras, Amigos, bem sabeis como esta vila é minha e vós outros todos sois meus, depois vedes bem o alvoroço de Lisboa, como se levantaram com o Mestre, que não sei, disse ela, se é mestre de trons, se de bombardas, e maravilho-me de qual foi a sanha ou sandice que os fez demover a tal coisa, porém vós não cureis da sandice deles, nem do levanto que fizeram, mas sede bons e leais como sempre fostes, e fareis muito por vossa prol e honra, e a mim serviço por que sempre vos farei muitas mercês quando por vós me forem requeridas.

Responderam então todos e disseram que a vila e eles, todos eram seus e para o seu serviço, e que outra voz não tomariam salvo a sua, nem fariam [164] outro mandado senão o seu, como sua senhora que era. E ela disse que lho agradecia muito, e partiu então para Santarém.

E iam com ela os Condes seus irmãos, o Almirante micer Lançarote, João Afonso Pimentel, João Gonçalves dÓbidos, todos os que estavam na Casa do Desembargo de Lisboa e alguns outros cavaleiros e escudeiros, todos, porém, pouca gente. E quando chegou a Santarém, saíram-na a receber [165] esses melhores do lugar, e os judeus com as Touras. Ela ia em cima duma mula de albarda, coberta com um grande manto preto de maneira que lhe não aparecia o rosto, e assim chegou ao castelo. E Gonçalo Vasques, que era alcaide dele, pediu que lhe quitasse a menagem, e esta foi-lhe quite por escritura, e a Rainha ficou aposentada nele e Gonçalo Vasques foi-se para suas casas.

O Conde dom João Afonso foi pousar na alcáçova, que era então bem povoada e cercada sobre si, e não deixavam sair nem entrar nenhum senão por recado, velando-se a vila cada noite por temor das gentes de Lisboa que eram contra a Rainha. E o Conde dom Gonçalo, sabendo que elRei de Castela vinha e não sendo certo como os feitos se haviam de seguir, a poucos dias se partiu daí e se foi para Coimbra.

Mas agora convém cessar disto [166] para tornarmos a falar de NunÁlvares, assim de sua linhagem e criação como da sua vinda para o Mestre em Lisboa.

 



[1] Preparado, combinado.

[2] Protecção feita de pele ou pano acolchoado.

[3] Faltava.

[4] Livrara.

[5] Cá baixo.

[6] Em redor, à volta.

[7] Preparada, aprontada.

[8] Imaginar, supor.

[9] Faltará.

[10] Tocassem os sinos a repique.

[11] Por intermédio de Gonçalo Vasques.

[12] Direito Canónico.

[13] Em paga dos seus serviços, D. Martinho cedeu a Gonçalo Vasques o priorado de Guimarães.

[14] Claustro.

[15] Carpidos, lamentações.

[16] Confusão, desordem, tumulto.

[17] Tratar de assuntos.

[18] Tocar a rebate.

[19] Pegaram em, arranjaram escadas.

[20] E foram as portas.

[21] Em relação aos.

[22] Escada em caracol.

[23] Revolta popular.

[24] Respeita, toma em consideração.

[25] Abrasava, inflamava.

[26] O temor pelo qual a alguém.

[27] Golpes de arma.

[28] Outros muitos golpes.

[29] Ocasião.

[30] Foram tantas as punhadas quanto os doestos e empuxões.

[31] Jazeram.

[32] De baixa condição.

[33] A putrefacção.

[34] Luto.

[35] Levantou-se, ergueu-se ante eles.

[36] Em grupo, em magote.

[37] Do mais, do restante.

[38] Se bem que, apesar de que.

[39] Me propiciará ocasião.

[40] Catadura, semblante.

[41] Obrigado.

[42] Em tom, em modo.

[43] Assente, acordado.

[44] No conselho régio que se terá efectuado a 21 de Novembro (ver capítulo 14).

[45] Requererdes-lhe.

[46] Ao menos.

[47] Jazeu.

[48] Envolto.

[49] Tabardo.

[50] Escondidamente, em segredo.

[51] De tal forma que, de tal maneira que.

[52] Por esta razão.

[53] Convinha.

[54] Insistentemente socorro.

[55] Não façais assim.

[56] Ordenou.

[57] Proibição.

[58] Almas, espíritos.

[59] Punha-se.

[60] Estimado, prezado.

[61] Perpétuo.

[62] Contente.

[63] Regras, modos de proceder.

[64] Quando.

[65] Obstáculos, armadilhas.

[66] De modo que.

[67] Bastante, suficiente.

[68] Anulou, perdoou.

[69] Seria, provavelmente, Fernão Lopes Lobo.

[70] A rogo do Mestre.

[71] Publicamente.

[72] Coifa acolchoada que se punha na cabeça por baixo do bacinete.

[73] Certo número de lanças.

[74] Atrás deles, no seu encalço.

[75] Apressado.

[76] Criticar, censurar.

[77] Praticar.

[78] Meter-se a, atrever-se.

[79] Considerou de modo circunspecto.

[80] Servem, podem valer.

[81] História do Rei D. Fernando, caps. CXXXIX a CXLVIII.

[82] Idem, cap. CXLVIII.

[83] Mais cabal satisfação do incidente.

[84] Dano, mal.

[85] Que não se preocupasse mais com aquilo.

[86] Assinalam, indicam.

[87] Imprevisíveis.

[88] Diversamente de Martim Eanes e de Garcia Perez, Vasco Porcalho abandona o Mestre por traição.

[89] Martim Eanes de Barbudo, Comendador de Pedroso da Ordem de Avis.

[90] Ninguém podia prever ao certo.

[91] Alvitrando diversos desenlaces.

[92]   Era-lhes assaz mui duro e áspero esperar a execução da vontade da Rainha.

[93] Aclamando.

[94] Completamente, absolutamente.

[95] Repelir.

[96] Não havendo quem o defendesse.

[97] Ao Mestre de Avis.

[98] Ansiosos, impacientes.

[99] Cabal desforço.

[100] Apressava.

[101] E abandonado o desígnio.

[102] Defronte.

[103] Aprouve ou agradou àqueles a quem foi proposto, ou seja, aos mestres dos dois navios.

[104] Uma semelhante.

[105] De seu nome.

[106] Os modos do conhecimento.

[107] Qualidades.

[108] Iluminação.

[109] Últimos.

[110] Alimento.

[111] Sombrio.

[112] Época.

[113] Quando chegou a noite.

[114] Achou.

[115] Fardo.

[116] Como o que.

[117] Todo o seu caso.

[118] Sem prejuízo seu.

[119] Necessitava.

[120] Difícil.

[121] Questões contrárias.

[122] Ânimo.

[123] Guiar, levar.

[124] Variante medieval das famosas "vineae" romanas. Estruturas fabricadas em madeira leve, com cerca de 2 m de altura e largura e comprimento variável (p. ex: 2,40 x 4,80 m, segundo os tratadistas). Telhado com dupla cobertura de tábuas bem encostadinhas e revestidas de couros crus e recém-esfolados; as partes laterais eram fortificadas com vimes. Objectivo, dar abrigo a pequenos grupos de assaltantes que pretendiam alcançar a muralha para a esburacar, minar, deitar fogo, recolher corpos de companheiros tombados, etc. – Nota de J. G. M.

[125] A propósito.

[126] Bom.

[127] O hipotético filho de Beatriz e de João I de Castela.

[128] Apontavam.

[129] Apresentado, proposto.

[130] Acolhimento.

[131] Por causa da rebelião.

[132] Ainda pior mal.

[133] E antes que Álvaro Pais e Álvaro Gonçalves Camelo ali chegassem.

[134] Os fidalgos que a acompanharam desde Lisboa.

[135] Que temos a ganhar.

[136] Expôs.

[137] Indicou.

[138] Passado, anterior.

[139] Baixo.

[140] Do povo, ou populares.

[141] Valentia.

[142] Rasgou-as.

[143] Achavam grandes valores, riquezas.

[144] Acusação ou testemunho falso, feito de má-fé.

[145] A afirmação «em que ele matou o Conde João Fernandes» é relativa ao mês de Dezembro, e não ao primeiro dia desse mês.

[146] Era de César, que na Península Ibérica se inicia no ano 38 antes da nossa era. À era de César de 1421 corresponde o ano de 1383.

[147] Chamava-se Beatriz e era irmã do Mestre de Santiago Dom Fernando Afonso de Albuquerque.

[148] No interior.

[149] Entre elas, seguramente, estão as demais de Ayala, na sua Crónica de D. João I de Castela, Ano Sexto, cap. II.

[150] Sobre este assunto, ou sobre este episódio.

[151] Espalhados, dispersos.

[152] Ordenado.

[153] Enquanto fosse sua vontade, até ordem sua em contrário.

[154] Credencial.

[155] Deixou.

[156] Fileira.

[157] São prestes para contar.

[158] A segunda quinzena de Dezembro de 1383.

[159] Haverem-se amotinado contra o alcaide.

[160] Levantamento, rebelião.

[161] Terreiro.

[162] Muito de bom grado, com muito gosto.

[163] Não é de espantar.

[164] Cumpririam, executariam.

[165] Saíram a recebê-la.

[166] Deixar isto.