VII - Diplomacia, dinheiro e mais outras coisas

54. POR QUE RAZÃO ENVIOU O MESTRE EMBAIXADORES A INGLATERRA E DA RESPOSTA QUE DE LÁ LHE VEIO.

Porque toda a razão natural outorga que melhor e mais poderosamente podem os muitos dar fim a uma grande coisa, quando a começar querem, que os poucos, por mui ardidos [1] que sejam, ordenou o Mestre com os do seu conselho que era bem de haver gentes em sua ajuda. E acordaram de enviar pedir a elRei de Inglaterra que lhe prouvesse dar lugar e licença aos do seu reino para que, por soldo, à sua vontade [2] o viessem ajudar contra os seus inimigos. E foi ordenado de irem lá por seus embaixadores Lourenço Martins, criado do Mestre que depois foi alcaide de Leiria, e Tomás Daniel, inglês, os quais partiram em duas naus de ante a cidade naquele mês de Dezembro. E depois foi acordado de mandarem dom Fernando Afonso dAlbuquerque, Mestre da Ordem de Santiago, e LourençEanes Fogaça, Chanceler-mor que fora delRei dom Fernando, o qual então, na , o Mestre fez cavaleiro antes que partisse.

Onde sabei que este dom Fernando Afonso dAlbuquerque, estando na vila de Palmela, se veio com todas as suas gentes a Lisboa para o Mestre, o recebeu como senhor e ficou por seu vassalo para o servir. Mas porém não embargando isto, porquanto ele fora feito pela Rainha, receando-se dele que se poderia deitar [3] com elRei de Castela e lhe dar as fortalezas do Mestrado, disseram que era bem que fosse por embaixador, para ser alongado [4] de tal azo, e depois, que era mor honra do Mestre enviar tais embaixadores do que uns de mais pequena condição, e outorgaram todos de o enviar.

E embarcaram em dois navios, o Mestre em uma nau e LourençEanes numa barca, e foram à sua viagem, e chegaram daquele dia a oito dias, que era sexta-feira [5], a uma vila que chamam Preamua [6], lugar de Inglaterra, e dali houveram bestas [7] e encaminharam para Londres, onde elRei então estava, e foram por ele bem recebidos, e por todos os senhores e fidalgos da corte. E depois que foram falar ao Duque dAlancastro [8], ordenou elRei de ter conselho em uma cidade de Sarasbri [9], depois que o Duque veio, onde os embaixadores propuseram [10] a sua embaixada, cuja conclusão, em breve, era esta, que sendo o reino por seu azo despachado e livre dos inimigos, toda a ajuda que os portugueses fazer pudessem, assim de galés como de seus corpos [11], onde ele mais para seu serviço entendesse, que eram muito prestes de a fazer, e que se o Duque dAlancastro, por seu corpo [12], quisesse vir cobrar o reino de Castela, que por azo da sua mulher de direito lhe pertencia, que tinham [13] o tempo [14] muito prestes e todo Portugal em sua ajuda, levando o Mestre e LourençEanes, para firmar isto e outras coisas, grandes e largos poderios [15] por procuração do Mestre, de Lisboa e do Porto.

A elRei, havido sobre isto acordo, prouve-lhe, e a todos os do conselho, que quaisquer gentes de armas que, por seu soldo, em ajuda de Portugal lhes prouvesse vir, livremente o pudessem fazer, jurando elRei e prometendo que não faria menos, para pôr em obra toda a boa ajuda que neste feito pudesse dar, do que faria para defender o seu reino. E porquanto o Duque dAlancastro era agora em Cales [16], a tratar trégua com elRei de França, e esperavam por ele cedo para elRei lhe dar encarrego de como isto [17] melhor se encaminhasse, trabalhou entretanto o Mestre, e LourençEanes Fogaça, de enviar algumas gentes de armas e archeiros, pela necessidade em que o reino estava, porém foram poucas, das quais eram capitães um que chamavam Elisabri [18], outro, Tersingom, e um cavaleiro gascão que havia por nome mossem [19] Gavilho de Monferro.

E estando eles prestes para partir em duas naus, o Mestre mandou Lourenço Martins ao dito lugar de Preamua, para os fazer vir e embarcarem ali, e ele, como aí chegou, meteu-se com eles nos navios e veio-se para Portugal, como adiante diremos, da qual coisa o Mestre e LourençEanes houveram mui grande queixume, por se vir daquela guisa.

E tanto prouve aos ingleses desta ajuda que os portugueses lhes requerer enviavam, que muitos aí houve que lhes emprestaram dinheiros para paga do soldo das gentes que logo haviam de enviar, assim como mosse Nicol, Mayre [20] de Londres, e Henrique Bivembra [21], cavaleiro, que lhes emprestaram três mil e quinhentos nobres, e assim outros, mais e menos, como cada um podia. De guisa que com isto e com as mercadorias dos portugueses que lá achavam, que tomavam a seus donos por escrito, dizendo que lhas pagariam depois, contentavam as gentes por tal modo que lhes prazia de vir com leda vontade.

E a resposta que elRei de Inglaterra enviou ao Mestre, sobre a ajuda que então lhe foi demandada, podeis ver por esta seguinte carta [22]:

Ricardo, pela graça de Deus, Rei dInglaterra e senhor dIbérnia, ao mui nobre e grande varão Joane, por essa mesma graça, Mestre da Ordem da Cavalaria dAvis, Regedor e Defensor dos reinos de Portugal e do Algarve, nosso mui preçado [23] amigo, saúde e desejo de limpa amizade.

Pouco há que recebemos ledamente os nobres e excelentes cavaleiros Fernando, Mestre da Ordem de Santiago, e Lourenço Fogaça, Chanceler-mor de Portugal, vossos embaixadores a nós enviados, e claramente entendemos tudo o que nos disseram da vossa parte. E certamente, mui preçado amigo, do coração vos agradecemos o bom desejo que vós e os gentis-homens dessa terra, por vosso azo, a nós têm, segundo por obra e conhecimento vemos.

E quanto é ao que nos por eles foi declarado sobre os vossos oferecimentos, assim do serviço de galés como doutras coisas que nos desses reinos cumpridoiras fossem, tal vos agradecemos muito, e entre eles e os do nosso conselho foi sobre isto feito certo trato, segundo esse mesmo Lourenço vos mais largamente pode recontar. E para o acorrimento que a vós e a vossos aliados desses reinos [24] cumpridoiro era, nós outorgamos aos ditos embaixadores que da nossa terra pudessem tirar homens de armas e frecheiros por seu soldo [25], quantos e quais lhes prouvesse.

O que em verdade, considerando as revoltosas guerras em que pelo presente somos postos, assim de ligeiro a outra pessoa não outorgaríamos. E queremos que num trato, que agora com os nossos adversários de França e de Castela fizemos em Cales, se entendam aí vós e os vossos aliados. E bem nos prouvera que os vossos embaixadores deram [26] a isto consentimento, mas, escusando-se, disseram que não haviam de vós tal mandado. E porque o não traziam, aqueles que pela nossa parte ali eram nos afincaram [27] a que vos escrevêssemos, e isso mesmo os franceses, por sua parte, ao ocupador de Castela, para que as tréguas por nós feitas até ao primeiro dia de Maio seguinte, com os ditos adversários, duma parte à outra fossem guardadas. A qual coisa [28], se o nosso comum adversário a não quiser consentir, nós vos reservamos a liberdade própria para haverdes guarda e defensão das nossas gentes.

E isto entendemos que era bem de escrever à Vossa Nobreza, para fazerdes requerer esse vosso adversário o mais cedo que puderdes, por tal que [29], vista a sua resposta, nós com bom e maduro conselho possamos esguardar [30] a vossa e principalmente a nossa comum defensão. Vós, em tanto [31], sede forte, tendo boa esperança em Deus, crendo firme que o Rei dos Reis, que é justo e não desampara os que por justiça pelejam, não desamparará os vossos feitos, mas fazer-vos-á [32] glorioso vencedor com grande e honrada vitória.

Nobre e Excelente Varão, todas as vossas obras guie o Senhor Deus, e vivais bons e prolongados dias a vosso prazer.

55. COMO A CIDADE DE LISBOA DEU UM SERVIÇO AO MESTRE PARA AJUDA DE FAZER MOEDA.

Já vistes, no reinado delRei dom Pedro [33], quanto os Reis de Portugal fizeram por juntar tesouros e haver riqueza para ter largamente que despender quando lhes acontecesse de defender os seus reinos, ou mover outra guerra [34], se vissem que lhes cumpria, e quanto eles trabalharam a fim de que aquele tesouro não viesse a tal míngua por que [35], em tais misteres, conviesse [36] lançar peita ao povo.

Tanto trabalhou elRei dom Fernando de os gastar [37] sem necessidade, por vãs guerras e sem proveito, e não somente gastou todos os tesouros que dos outros Reis lhe ficaram, mas lançou novamente sisas e mudou as moedas, para grande dano e destruição de todo o seu povo, de guisa que, quando o Mestre tomou carrego de regedor e defensor dos reinos, não tinha nenhuma coisa com que manter a guerra, nem de que fizesse bem e mercê àqueles que a ele se chegavam para os ajudar a defender. Então vendo todos que lhes convinha, para serem livres de tal sujeição [38], de acorrer a tamanha necessidade como esta, ordenaram de dar ajuda e fazer serviço ao Mestre de alguns dinheiros, prometendo-lhe a cidade cem mil libras em serviço – em que eram mil dobras [39] que pagavam os mouros e judeus moradores nela – as quais lhe foram pagas em dinheiros miúdos [40], em moeda branca e em prata. Moeda branca chamavam então aos graves, barbudas e pilartes, e estes dinheiros tiravam [41] certas pessoas pelas freguesias. E era mandado que qualquer que levasse moeda, da cidade para fora, a perdesse toda, e que houvesse o quinto [42] o que a tomasse, e filhavam-na a alguns, que a levavam escondidamente, e entregavam-na ao Mestre.

Além disto, pediu o Mestre a algumas pessoas da cidade e do seu termo – que entendeu que o podiam fazer – certos dinheiros emprestados, e todos lhe ofereciam de boa vontade qualquer coisa com que o ajudar podiam, e a Comuna dos judeus, afora o que pagaram no serviço, emprestou-lhe sessenta marcos [43] de prata. Emprestou-lhe mais a clerezia, em cruzes, cálices e outros lavores, aquela prata que escusar [44] podiam, em guisa que a igreja catedral da Sé, com as vinte igrejas que há na cidade, lhe fizeram [45] duzentos e oitenta e sete marcos, de que a Sé deu oitenta e sete, e as outras igrejas, segundo a que cada uma tinha escusada [46].

E ordenou o Mestre para ser Tesoureiro da sua Moeda um mercador que chamavam Persifal. A este foram entregues todos estes dinheiros e prata que dissemos, e mais novecentos marcos de prata que o Mestre tinha em sua câmara, muitos dinheiros miúdos e moeda branca, e outras moedas de Castela que dizer não curamos, as quais lhe entregou Afonso Martins, seu Escrivão da Puridade.

56. COMO O MESTRE ORDENOU DE FAZER MOEDA E DE QUE LIGA E TALHA FOI FEITA.

Como o Mestre teve encaminhado para poder fazer moeda, ordenou logo de mandar lavrar reais de prata, mas primeiro sabei que ao tempo em que o Mestre tomou esta voz de regedor e defensor do reino, corriam-se [47] nele as moedas que já dissemos [48], convém a saber, dinheiros alfonsis, que nove deles valiam um soldo, e vinte soldos valiam uma libra, mais barbudas, que valiam dois soldos e quatro dinheiros, e graves, que cada um valia catorze dinheiros, e pilartes, que valiam sete dinheiros, segundo é escrito em seu lugar, onde falámos do abaixamento que elRei dom Fernando fez nas moedas, e corriam mais reais de prata de lei de dez dinheiros, e de cinquenta e seis no marco [49]. E a razão porque então foram tais nomes postos a estas moedas queremos aqui dizer.

Quando elRei dom Fernando começou a guerra com elRei dom Henrique, como ouvistes, vieram a Castela com ele muita gente dos franceses a que chamavam companha branca, e vinham armados a esta guisa, traziam bacinetes com estofas e camal de malha com cara posta [50], e chamavam-lhes barbudas. E o cunho com que era cunhada aquela moeda tinha duma parte uma cruz em aspa e no meio dela um escudo com cinco pontos de quinas, e da outra parte a barbuda com a sua cara. E esta gente de armas trazia graves com pendões pequenos em cima, a que agora chamam lanças de armas, e aos moços que traziam as barbudas em cima dos chibaus [51] chamavam pilartes, e depois lhes chamaram porta-grave, e nós chamamos agora às barbudas bacinetes de camal e aos moços pajens. E daqueles nomes das armas levaram nomes aquelas moedas, que o grave tinha uma lança no cunho com um pendão pequeno em cima, e da outra parte aspa e quinas.

E correndo-se assim estas moedas juntamente, valia a dobra cruzada cinco libras, a mourisca quatro libras e meia, o franco de ouro de França quatro libras e o marco de prata de lei de onze dinheiros, vinte e duas libras.

E o Mestre ordenou de lavrar moeda de reais de prata, e eram de lei de nove dinheiros, e de setenta e dois no marco, e depois mudou outros desse mesmo peso para de lei de seis dinheiros, e após isso outros para de lei de cinco, e por o lavramento que mandava fazer, de menos lei, ganhava para as despesas. E dizem alguns, nas suas histórias, que estes primeiros reais que o Mestre mandou lavrar prestavam para algumas dores [52], e muitos os encastoavam em prata e traziam-nos ao colo. E depois que o Mestre reinou, mandou lavrar reais de lei de um dinheiro, que valia cada um dez soldos, e de pós [53] estes mandou fazer outros reais de três libras e meia, de três dinheiros de lei. E quando ordenou de tomar Ceuta, segundo adiante ouvireis, mandou lavrar uma moeda de reais que chamavam brancos, que valia, cada um, dez de três libras e meia, e eram de lei de três dinheiros, e de setenta e dois no marco.

E durando assim estas moedas, foram nelas feitas tantas mudanças de liga e talha [54] que seriam longas de contar, de guisa que veio a valer uma coroa cento e cinquenta reais brancos, de trinta e cinco libras cada um, e mil e quinhentos reais de três libras e meia, em que montavam cinco mil e duzentas e cinquenta libras, assim que por quanto achavam no tempo delRei dom Fernando mil e cento e setenta e três dobras, não achavam, depois, mais de uma dobra. E estas mudanças lhe fez fazer [55] as necessidades das guerras que muitas vezes com elRei de Castela houve, por azo das quais se lhe recresciam grandes despesas que escusar não podia. E por isso cumpre aqui de notar um grande dito e mui proveitoso que cada rei e príncipe deve de haver em seu conselho, quando tal necessidade lhe avier que doutra guisa o remediar não possa, Que mais vale terra padecer do que terra se perder, pois por tais mudanças e lavramento de moedas, com a ajuda do mui alto Deus, o reino de Portugal foi por ele defeso e posto em boa paz com os seus inimigos, posto que as gentes em isto alguma míngua e dano sentissem.

57. COMO O MESTRE DEU LUGAR A ALGUNS QUE LAVRASSEM MOEDA, E PÔS MANTIMENTO A MUITAS PESSOAS.

Deixadas as razões, que abastosamente [56] alguns escrevem, mostrando quanto é proveitoso ao reino de lavrarem todos moeda, quaisquer que o fazer puderem, do modo que o Mestre em isto teve digamos, e mais não.  

Onde sabei que nesta sazão em que o Mestre mandou lavrar a sua moeda, sentindo-o para seu serviço e proveito, deu licença ao concelho de Lisboa que lavrasse uma soma de prata para ajudar a suportar os seus encarregos – assim de gentes de armas que a cidade havia de pagar, como doutras coisas necessárias à sua defensão – que por então lhe recresciam. E isso mesmo deu lugar ao doutor João das Regras e outros, não levando ganhança do que assim lavravam, pois quanto rendia lhe era entregue.

E como o Mestre teve feita a moeda, ordenou logo os seus mantimentos aos fidalgos e oficiais da sua casa, assim como ao doutor João das Regras e ao doutor Martim Afonso, a cada um cem libras, e assim a outros, segundo o que tal era [57], como a dom Afonso, filho do Conde dom Álvoro Peres, a dona Lionor Teles, mulher de dom Pedro de Castro, e a dona Beatriz, irmã dele, que haviam cem libras por mês, e dos mais não cumpre de escrever.

Mas que diremos [58] deste virtuoso Senhor e da sua grande bondade? Que não embargando que o seu coração fosse então repartido por tantos e desvairados cuidados, como cada um pode pensar que tal negócio requeria, não se esqueceu porém dos espirituais feitos, e ordenou logo um mui honrado saimento pela alma delRei dom Fernando, seu irmão, de que teve carrego Antão Rodrigues, Prior de São Nicolau, em que fez grande e larga despesa. E mais pôs mantimento a certas pessoas devotas para que rogassem a Deus por ele e pelo estado do reino, assim como a frei João da Barroca, a Margarida Anes e a Maria Estevens, emparedadas, que haviam quatro soldos por dia.

Fez mais uma coisa muito notável e de grão louvor entre as gentes, que todos tiveram por assinado [59] bem, pois alguns que eram presos em poder dos castelhanos, pela guerra que era já muito acesa, e não tinham por onde pagar as suas rendições [60], eles os mandava tirar de cativo [61], pagando por eles tudo o que haviam de dar, e a outros fazia grossas ajudas para logo serem livres do poder de seus inimigos.

E por estas e semelhantes coisas que obrava, começou de ser tão amado do povo, vendo-se em ele largueza de dons, com leda e prazível graça de dar, e além disto, fé e saber e grande avisamento na governança e regimento que tomara, que todos se tinham por bem-aventurados de o haver por senhor.

58. COMO OS DA VILA DE ALMADA TOMARAM VOZ PELO MESTRE, E COMO FOI SOBRE ALENQUER.

Segundo ensina o longo uso, e a prática disto nos faz muito certos, em nenhuma parte tem a inveja tão grande morada como na corte dos reis e senhores, e tendo o Mestre amiúde conselho com os seus para prosseguir tamanho negócio, falava às vezes, porém adeparte [62], dizendo a NunÁlvares algumas coisas de que os outros não eram em conhecimento. Ora assim aveio que este comum mal que é a inveja se veio tanto a senhorear dos corações daqueles que eram do conselho do Mestre, assim como de Rui Pereira, de Álvoro Vasques, do doutor João das Regras e de todos os outros seus privados, vendo como o Mestre falava em especial com NunÁlvares de algumas coisas e seguia nelas o seu conselho, que vieram todos a acordar em segredo, havendo disto grande despeito, que sempre fossem contra quaisquer conselhos que NunÁlvares desse ao Mestre, posto que bons e razoados fossem, e que nunca se tivessem [63] a eles, e de feito [64] assim o faziam.

NunÁlvares soube parte deste segredo, e nenhuma coisa disse a alguns deles. E falando um dia ao Mestre, no seu conselho, duma coisa muito notável, respondeu NunÁlvares o que entendeu, de guisa que prouve ao Mestre da sua resposta e acordou-se com ele na sua tenção. Os outros do conselho, porque o Mestre se tinha à razão de NunÁlvares, não foram de tal acordo contentes, antes o contradisseram muito, mostrando assaz de razões ao seu conselho não ser bom. NunÁlvares, vendo isto, começou de rir, sabendo bem parte porque o faziam. E o Mestre, quando viu, perguntou-lhe porque assim ria, e ele contou-lhe tudo como era e porque desacordavam do que ele dizia, e o Mestre se maravilhou muito de tal inveja, e teve com eles jeito em lhes falar, de guisa que não tiveram mais tal tenção e foram dali em diante todos em um acordo [65].

E entre as coisas que naquele conselho foram faladas, assim foi [66] quanto era necessário de a vila de Almada ter a sua voz pelo Mestre, porque era assim como a chave do mar para qualquer armada que elRei de Castela sobre a cidade quisesse trazer, e pois que a vila não tinha castelo [67] nem alcaide que dela tivesse feita menagem, que ligeiramente a poderia haver. O Mestre houve este por bom conselho e foi lá, e os da vila o receberam bem e ficaram por seus para o servirem, e isto foi ao primeiro dia de Janeiro de mil e quatrocentos e vinte e dois anos [68].

E como tornou de Almada para Lisboa, ordenou logo de ir sobre Alenquer, uma vila com o seu castelo que são a oito léguas da cidade, na qual estivera a Rainha depois da morte do Conde João Fernandes, antes que partisse para Santarém, segundo já tendes ouvido, e em esta vila estava por alcaide Vasco Peres de Camões, que a tinha por a Rainha dona Lionor.

O Mestre juntou até duzentas lanças, e besteiros e homens de pé, não muitos, e foi esse dia dormir à Castanheira, a uma légua do lugar, e no outro, bem cedo de madrugada, amanheceu sobre ele, e pousou no mosteiro de São Francisco, e NunÁlvares nas casas de Vasco Martins dAltero, que estava casado com uma sua irmã. E logo à tarde foram os do Mestre escaramuçar com os da vila, onde chamam a porta de Soire, e o Mestre chegou aí e fê-los recolher, porque os feriam do muro com as bestas. E embora aí fossem feitas por vezes escaramuças, nenhuma coisa aproveitavam que prestasse, porque o lugar era mui forte e eles não levavam artifícios de combater [69].

Mas agora convém de cessar disto e deixarmos o Mestre em Alenquer, e a Rainha em Santarém, e vamos ver que fez elRei de Castela em seu reino quando lhe chegaram novas de que elRei dom Fernando era finado.

 



[1] Valentes, intrépidos.

[2] De moto próprio.

[3] Lançar.

[4] Afastado.

[5] Partiram a 31 de Março e chegaram a 8 de Abril de 1384. Ver capítulo 279.

[7] E ali arranjaram montadas.

[9]  Salisbury.

[10] Expuseram.

[11] Das suas pessoas, pessoalmente.

[12] Em pessoa, pessoalmente.

[13] Os ingleses.

[14] A ocasião.

[15] Poderes.

[16] Calais.

[17] Este assunto.

[18] Provavelmente, Elias Blith.

[19] Senhor.

[20] Maire, mayor.

[21] Quiçá se trate de Henry Vanner.

[22] Escrita em Outubro de 1384.

[23] Estimado, prezado.

[24] As cidades de Lisboa e do Porto.

[25] A troco de soldo.

[26] Tivessem dado.

[27] Instaram.

[28] Quanto à qual trégua.

[29] De forma que.

[30] Considerar.

[31] Entretanto.

[32] Vos fará.

[33] História do Rei D. Pedro.

[34] Guerra de outro tipo, que não defensiva.

[35] Pela qual, ou por razão da qual.

[36] Fosse necessário.

[37] Tanto, quanto aqueles Reis fizeram por juntar tesouros, trabalhou el Rei D. Fernando de os gastar.

[38] A sujeição castelhana.

[39] Seriam 5.000 libras, se dobras cruzadas, ou 4.500, se mouriscas.

[40] Moedas cujo valor nominal era inferior a um soldo.

[41] Cobravam.

[42] A quinta parte.

[43] Medida de peso para metais preciosos e moeda, correspondendo a 229,5 gramas. Ver Luís Seabra Lopes e Silva Costa Lobo.

[44] Dispensar.

[45] Lhe emprestaram.

[46] Segundo a prata que cada uma podia dispensar.

[47] Circulavam.

[48] História do Rei D. Fernando, capítulo LVI.

[49] 56 moedas pesariam, por lei, um marco.

[50] Com viseira.

[51] Quiçá, cavalos, montadas.

[52] Curavam ou aliviavam algumas maleitas.

[53] E após.

[54] De liga e peso.

[55] Lhe fizeram fazer, o obrigaram.

[56] Abundantemente.

[57] Segundo o seu estado.

[58] Mas o que poderemos dizer.

[59] Assinalado.

[60] Os seus resgates.

[61] Cativeiro.

[62] À parte, em privado.

[63] Se ativessem.

[64] De facto.

[65] Em comum acordo.

[66] Uma foi.

[67] Muralha.

[68] 1384.

[69] Máquinas de assalto.