O espaço da História

III - Das fintas que a morte fez ao Andeiro

8. COMO O CONDE HOUVERA DE SER MORTO POR DIVERSAS VEZES E NENHUMA TEVE AZO DE SE ACABAR.

Falando alguns da morte do Conde João Fernandes, onde se começam os feitos do Mestre, alegam um dito de que nos não apraz, dizendo que a fortuna muitas vezes escusa por longo tempo a morte a alguns homens para depois lhes azar mais desonrado fim, assim como fez a este Conde João Fernandes, que muitas vezes lhe desviou a morte que alguns tiveram cuidado de lhe dar por maneira a que depois o deixasse nas mãos do Mestre, para o matar mais desonradamente. E nós neste dito não somos contentes, pois que tanto por razão do que o matou como da morte que por ele houve, nenhum dos outros o matar pudera que lhe muito maior desonra não fora. Mas temos que o muito alto Senhor Deus, que em sua providência nenhuma coisa falece, que tinha disposto de o Mestre ser rei, ordenou que o não matasse outro senão ele, e isto em tempo assinalado e com certos azos, posto que poderoso fosse de o doutra guisa fazer.

Porque o certo é que usando o Conde já há tempos daquela grande maldade que dissemos [1] , dormindo com a mulher do seu Senhor, de que tantas mercês e acrescentamento havia recebido, não soou isto assim tão ligeiramente nas orelhas dos grandes senhores e fidalgos que lhes não gerasse grande e assinalado desejo de vingar a desonra delRei dom Fernando. Mas a pôr isto em obra embargavam muito duas coisas. A primeira ser o Conde aguardado [2] de muitos e bons fidalgos, que sempre o acompanhavam de dia e de noite, a segunda, quem a tal feito se pusesse aventurava a vida e perdia-se de todo, o que os mais dos homens muito receiam de fazer. Outros lhe enadiam [3 ainda que por tal coisa seria elRei muito mais infamado, e sua linhagem por isso em maior desonra, que eram os Condes e outros grandes do reino. Pelo que, falando nisto por vezes, todos outorgavam de serem em tal feito mas nenhum não se atrevia de ser o primeiro. E o Conde bem entendia que de tais pessoas não era mui seguro, não dando contudo a entender nada, mas o seu grande estado e aguardamento [4] de muitos, que por azo dele haviam grandes desembargos delRei e da Rainha, o faziam segurar de todos.

Não obstante foi assim que o Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, quando veio de Castela – que fora lá preso na peleja de Saltes e chegou a Lisboa, achando a fama de sua irmã com este Conde que dissemos muito pior do que ao tempo que a deixara, houve disto grão queixume e determinou de o matar. E falou desta coisa com alguns dos melhores que na cidade havia, assim como com AfonsEanes Nogueira e outros que eram todos seus vassalos. E encaminhou por ir ver elRei a Rio Maior – onde então pousava quando veio de Elvas, em que houvera de haver a batalha –, acompanhado o Conde de muitos que com ele se foram. E como aí foi, segundo alguns contam, uma noite se fez prestes e o aguardou muito escusamente [5 com os seus para o matar. E saindo o Conde alta noite do Paço desacompanhado, apenas com uma tocha, trigaram-se [6] os outros mais do que deveram quando viram o ar da candeia [7] , e ele, que os sentiu, não sabendo quem eram, receou-se muito e tornou atrás; e guardado naquela hora, passou-se assim que se não fez por então mais.

Outros escrevem por outra maneira, dizendo que a Rainha, como era mulher avisada, já por onde quer que foi [8] , antes que seu irmão chegasse, soube da tenção que levava contra o Conde. E quando pediram pousadas para ele, mandou ela corrigir [9]  mui bem uma câmara nos Paços onde pousava, dizendo que queria que pousasse com ela, e recebeu-o mui bem e fez-lhe grande gasalhado. E presumiam que lhe dera a Rainha alguma grande dádiva e que o desviara de nisto pôr mão, porque o Conde nunca se disso mais trabalhou, e que assim escapara o Conde João Fernandes daquela vez.

9. COMO ALGUNS ORDENARAM DE O CONDE SER MORTO, E POR QUAL AZO ISSO SE NÃO FEZ.

Passou aquela hora em que se não fez mais, e partiu elRei dali e veio-se para Santarém. Em isto morreu a elRei de Castela a Rainha dona Lionor, sua mulher, e foi lá enviado por embaixador o Conde João Fernandes, como antes ouvistes [10] . E não cessando a desonesta fama da Rainha com ele, falava-se disto largamente entre alguns senhores do reino, especialmente entre aqueles que por privança e acrescentamento do seu honroso estado eram aliados com elRei, pesando-lhes muito da desonra que a seu senhor era feita por tal modo.

E entre aqueles a que disto muito pesava era este Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, que dissemos, sendo grão privado delRei, muito de seu conselho e a quem elRei mostrava grande boa vontade. Da Rainha, pelo contrário, posto que sua irmã fosse, não era ele tanto em sua privança e amor, sentindo ela que ele não havia bom desejo ao Conde João Fernandes, por a fama que ambos tinham.

Este Conde de Barcelos, seu irmão, doendo-se muito da desonra delRei, e vendo como sua irmã, enquanto o Conde João Fernandes fosse vivo, não havia de cessar do afazimento [11] que com ele havia, cuidou de ordenar outra vez como fosse morto, e falou nisto com o Mestre de Avis e com dom PedrÁlvares, Prior do Hospital, e com Gonçalo Vasques dAzevedo.

E acordaram todos que era bem de o fazer um homem de pequena conta, por qualquer coisa que disso se seguisse, porque melhor era perder-se um homem ligeiro que um de grande honra e maior estado. E falaram primeiro esta coisa com FernandÁlvares de Queirós, criado delRei e homem para muito, que acompanhavam de cote [12] quatro de bestas [13] , e ele se escusou por muitas razões, dizendo que por nenhuma guisa faria coisa em que fizesse desprazer à Rainha, mormente uma tal como esta, de que era certo que ela haveria assinado [14] nojo.

Então o vieram a falar com RodriguEanes de Buarcos, escudeiro de semelhante conta que FernandÁlvares, o qual acompanhava continuadamente Gonçalo Vasques dAzevedo e era todo seu. A este prouve de tomar este encarrego, e acordaram que como o Conde João Fernandes viesse da embaixada a Castela e entrasse em Portugal, lhe saísse RodriguEanes ao caminho com cinco ou seis a cavalo, o matasse e se pusesse a salvo até que lhe eles depois houvessem remédio. Este acordo havido, souberam como o Conde João Fernandes partia de Castela e vinha já para Portugal, e RodriguEanes se partiu logo e foi por Alcobaça a caminho de Leiria, por onde diziam que o Conde João Fernandes vinha, mas ele trouxe o caminho do Espinhal [15] , e assim o errou [16] daquela vez e escapou à morte.

10. COMO ELREI MANDAVA MATAR O CONDE JOÃO FERNANDES, E PORQUE SE O DEIXOU DE FAZER.

Não parece coisa indigna se algum que ler ou ouvir esta história fizer a pergunta, pois que tanto havia que era a fama, e largamente publicada [17] , entre a Rainha e o Conde João Fernandes, se tinha elRei disso alguma suspeita, ou sabia de tal fama parte, aos quais se responde desta guisa.

Certo é que entre as condições que do amor escrevem os que dele cumpridamente falaram e foram criados em sua corte, uma é que por muito que encobrir queira o que ama, não se pode tanto ter que por alguns sinais, falas e outros demonstradores jeitos não dê a entender aquele ardente desejo que na sua vontade continuadamente mora. E quando os homens vêem desacostumadas afeições e prestanças onde não há tal divedo [18] que a má fama embargar possa, ligeiramente vêm à presunção do erro em que tais pessoas podem cair.

E por tanto elRei dom Fernando, vendo os muitos modos por que a Rainha mostrava desordenada afeição e benquerença ao Conde João Fernandes, e o grande acrescentamento que lhe procurava por qualquer guisa que podia, bem certificou em seu pensamento ser verdade o que as gentes presumiam, posto que da pública voz e fama que a Rainha havia com o Conde ele nenhuma parte soubesse, nem era algum ousado de lhe tal coisa dizer, posto que de sua desonra com bom desejo se doesse, receando receber pena por galardão e mortal ódio por amizade, como já a alguns aconteceu por tais novas recontarem, mormente aos reis e grandes senhores.

Assim que elRei dom Fernando bem entendia o que era, mas nenhuma coisa dava a entender, receando novamente descobrir com dúvida aquilo que a pública voz e fama muito tempo havia que afirmava. E quando a Rainha levou a sua filha a Elvas para lhe fazer as bodas com elRei de Castela, e elRei dom Fernando se mandou trazer de Salvaterra para Almada, cuidou elRei de o matar por esta guisa. Mandou ao seu Escrivão da Puridade que fizesse uma carta para o Mestre de Avis, seu irmão, em que lhe mandava e encomendava que vista aquela carta, tivesse jeito de matar o Conde João Fernandes, não dizendo no entanto a razão porquê, e por ela [19] mandava a Gonçalo Mendes de Vasconcelos, alcaide-mor de Coimbra, que ordenasse de guisa que o Mestre, seu irmão, fosse recebido na cidade, e que lhe entregasse a fortaleza do castelo, que lhe quitava a menagem dela uma e duas e três vezes [20] .

O Escrivão fez a carta entendendo bem porque era, e dizem alguns que foi João Gonçalves, e como foi feita, tornou a elRei e disse, Senhor, vós mandais fazer esta carta, resumindo-lhe quejanda ela era, porém, Senhor, disse ele, se vós esta coisa bem esguardar [21] quiserdes, a Vossa Mercê pode entender que por nenhuma guisa a deveis de mandar, pelo grão dano que daí se seguir pode. Vós, Senhor, vedes bem como o Mestre vosso irmão é benquisto de todos os do reino, e se ele tivesse Coimbra, falecendo vós, o que Deus não mande, juntar-se-iam a ele todas as gentes e ficaria ele por rei desta terra, e vossa filha, assim deserdada, em guisa, que seria grande maravilha [22] , de nunca os mais poder cobrar [23] , nem ela nem filho que de seu marido houvesse. E por isso me parece, se vossa mercê for, que tal mandado deveis de escusar por ora, e se do Conde João Fernandes haveis tal queixume por que vos isto tenha merecido, bem tereis depois tempo para o mandar matar, cada vez que quiserdes, por outra maneira e não desta guisa.

A elRei, cuidando neste feito, pareceram-lhe as razões boas, e rompeu [24 a carta e não foi enviada, e assim escapou o Conde João Fernandes de ser morto.

E depois disto, sendo elRei dom Fernando doente e muito afincado daquela dor [25] de que morreu, ao serão na noite em que se finou, estava aí o Conde João Fernandes com aqueles que eram presentes. E quando viu que não havia em ele [26] outro remédio senão a morte, receando-se muito do que tinha feito lhe ser acoimado por algum, àquela hora houve tão grão temor que aquele medo lhe foi assim como degredo que o fez logo sair da câmara, para se ir à pressa para o seu condado.

E em saindo pela porta, um escudeiro do Conde dom João Afonso, chamado por nome PedrEanes Lobato, sabendo que ele o quisera matar em Rio Maior, como dissemos, disse ao Conde se queria que o matasse então, pois via tempo azado para o fazer a seu salvo, e o Conde de Barcelos, embora desejasse muito de o ver morto, defendeu que o não fizesse. E assim escapou o Conde João Fernandes aquele serão, porque parece que ainda não viera a sua hora.

11. COMO O CONDE JOÃO FERNANDES HOUVERA DE SER MORTO E POR QUE AZO SE DESVIOU A SUA MORTE.

Houvera ainda o Conde de ser morto por outra vez, e vede de que guisa se azava de ser.

Assim é que escrevendo a Rainha a todos os fidalgos do reino para que viessem ao saimento [27] do mês que se fazia por elRei dom Fernando, mandou seu recado a NunÁlvares, que estava Entre Doiro e Minho com sua mulher, para que viesse àquele saimento.

NunÁlvares, mui anojado [28] pela morte delRei, sem pôr mais tardança, se fez logo prestes com trinta escudeiros bem corrigidos [29] de suas armas e certos homens de pé com eles, e nenhum outro veio ao trintário [30] corrigido com gentes senão ele, e assim chegou a Lisboa onde o saimento havia de ser.

Feitas suas exéquias e acabado tudo, foi um dia NunÁlvares ver o Prior dom PedrÁlvares, seu irmão, e depois que lhe falou e espaçou [31] um pouco com alguns fidalgos que aí estavam, apartou-se pelo Paço só, a cuidar o que havia de ser do reino que assim ficava deserto, e quem o havia de defender dalguns se contra ele quisessem vir, mormente que se dizia que elRei de Castela prendera o Infante dom João e o Conde dom Afonso, seu irmão [32] , como soubera que elRei dom Fernando era morto, e que juntava gentes para entrar poderosamente no reino.

E cuidando em isto, certificou-se em seu pensamento que não havia outrem que mais direita razão tivesse de se pôr por defensão do reino que o Mestre de Avis, filho delRei dom Pedro, o qual ele sabia que era bom cavaleiro e de quem tinha grão conhecimento havia tempo, e logo veio a cuidar que o começo de tal obra havia de ser o Conde João Fernandes dAndeiro ser morto, no qual a Rainha havia grande esperança. E andando aceso neste cuidado, olhou pelo Paço e viu Rui Pereira, seu tio, que aí estava, e chegou-se a ele e contou-lhe tudo o que havia pensado em razão da [33] defensão do reino e de quem devia dele tomar carrego, e sobre a morte do Conde João Fernandes, declarando-lhe certamente [34] que nisto seria ele de boa vontade, querendo o Mestre em tal pôr mão.

Rui Pereira, que já isto trazia em grande cuidado, foi muito ledo do que lhe NunÁlvares dissera. E tanto lhe prouve que o não pôde mais conter e foi-se logo ao Mestre fazer-lhe recontamento de tudo. O Mestre, sendo disso ledo, mandou logo chamar NunÁlvares, agradecendo-lhe muito o que com Rui Pereira falara, se bem que disse o Mestre contra [35] Rui Pereira, A mim parece que já não ouço agora murmurar as gentes tanto dos feitos da Rainha, nem falar em isto como soíam.

Ó Senhor! – disse Rui Pereira – Pois vós não sabeis como isto é? Quando eu andava para casar com a minha mulher, todos falavam como eu queria casar com Violante Lopes, e depois que fomos casados, nunca mais ninguém falou do nosso casamento. E estes, Senhor, tais são, usaram tanto da sua maldade e por tanto tempo que já todos os hão por casados, e por isso não falam já deles como à primeira.

O Mestre começou a rir disto, e encomendou a NunÁlvares que logo se trabalhasse de haver da sua parte as mais gentes que pudesse, para ao outro dia ser morto o Conde João Fernandes, da qual coisa a NunÁlvares muito prouve, e logo se partiu do Mestre para a sua pousada, para se avisar e concertar do que a tal feito pertencia. E corrigindo-se para isto com grande aguça [36] , mandou-lhe o Mestre dizer que cessasse do que lhe dissera, que se não podia por então fazer.

NunÁlvares foi disto muito anojado, por se pôr maior espaço em tal obra, e tornou-se ao Mestre, falando-lhe muitas e boas razões sobre isto para o reduzir a [37] fazer-se logo, e vendo que não podia, despediu-se dele e foi-se a pós [38] o Prior, seu irmão, que já era partido a caminho de Santarém, e alcançou-o em Ponteval, onde esteve mui poucos dias. E desta guisa se desviou a morte do Conde João Fernandes desta vez e das outras, porque, como já dissemos, parece que ainda não viera a sua hora.

12. COMO SE AZOU A MORTE DO CONDE JOÃO FERNANDES, E QUEM FALOU NISSO PRIMEIRO.

Soem às vezes os altos feitos haver começo por tais pessoas [39] cujo azo [40] nenhum comum povo podia cuidar que por elas viesse.

Onde [41] assim aveio que em Lisboa havia um cidadão chamado por nome Álvoro Pais, homem honrado de boa fazenda, e fora Chanceler-mor delRei dom Pedro e depois delRei dom Fernando. Este, vivendo em casa delRei e sendo muito doente de gota, veio a pedir a elRei, por mercê, que desse aquele ofício a quem sua mercê fosse e o aposentasse em Lisboa, onde tinha suas casas e assentamento. Sua dor [42] não era porém tamanha quanto foi o grão nojo que por azo [43] da desonra delRei, segundo a má fama que a Rainha havia, se gerava em seu coração, e foi assim que elRei o aposentou honradamente em Lisboa. E a seu requerimento mandou aos vereadores da cidade que nenhuma coisa fizessem sem o acordo dele, por a qual razão algumas vezes iam a sua casa ter conselho sobre o que haviam de fazer, quando ele, por azo da sua enfermidade, na câmara onde faziam seu conselho não podia ser presente.

A natureza, que força os homens a usar das condições que com eles nasceram, constrangeu tanto este Álvoro Pais dessa guisa, que não perdendo o rancor e ódio à desonra que a elRei, seu Senhor, fora feita, nenhuma coisa então mais desejava que ver o Conde João Fernandes morto, pois que o não fora em vida delRei dom Fernando. E parecendo-lhe o tempo azado [44] para razoar nisto, falou secretamente com o Conde de Barcelos dom João Afonso, irmão da Rainha, que sabia bem que queria mal ao Conde João Fernandes por esta razão, e disse, Senhor, vós sabeis bem como eu sou criado delRei dom Fernando, cuja alma Deus haja, e a honra e acrescentamento que em mim fez, por a qual coisa eu e quaisquer criados que seus sejam, se deviam muito doer de sua desonra e vingá-la por onde quer que pudessem, posto que ele já morto seja, mormente aqueles que têm tal honra e estado que ligeiramente [45] o podem fazer. Ora, Senhor, vós sabeis bem há quanto tempo que as gentes falam da má fama que a Rainha vossa irmã há com o Conde João Fernandes, e isto não somente em vida delRei, pois ainda agora a sua má fama não cessa, nem cessará enquanto este homem for vivo, e sendo morto, cessaria com o tempo e as coisas esqueceriam. Razão por a qual todos os bons se deviam doer de tal coisa, mormente vós que sois seu irmão, à uma pelas muitas mercês e grande acrescentamento que elRei em vós fez, à outra por ser vossa irmã, e desonrando-se a si, desonra-vos a vós e a toda a sua linhagem. E posto que eu saiba que vós isto entendeis e que já lhe quisestes pôr mão, cuidei porém de vo-lo dizer. E vós podeis a tal tornar, como vossa mercê for, mas de mim vos digo que sendo eu quem vós sois, e podendo-o fazer como vós, que há muito que eu não teria deixado passar tal coisa, pondo-me à ventura que me Deus dar quisera.

O Conde disse que bem sabia de tudo e que lhe agradecia a sua boa vontade, e que já tempo fora que houvera talante [46] de o pôr em obra, mas que por então não via jeito azado de o poder fazer. E falando eles em isto muito, disse o Conde, Álvoro Pais, sabeis com quem me parece que é bem que faleis esta coisa? Falai-o com dom João, Mestre de Avis, que há tamanha razão de se doer da desonra delRei como eu, e não vejo aqui homem mais azado que ele para fazer isto e para travar em qualquer ardideza [47] que lhe à mão vier.

Muito me prazeria, disse Álvoro Pais, de o falar com ele e com qualquer outro que eu entendesse que o poria em obra, mas quando vós o não quereis fazer, que tantos azos tendes mais que nenhum outro, duvido muito de o ele ou outrem querer fazer.

Eu direi ao Mestre, disse o Conde, que vós lhe quereis falar uma coisa de sua honra, e que porquanto vós sois embargado pela dor e não podeis a ele ir, que quando cavalgar pela vila venha por aqui e vos fale, e dele bem creio que o queira fazer.

Neste acordo ficaram e despediu-se o Conde, e quedou Álvoro Pais, para falar ao Mestre, com novo cuidado.

13. COMO ÁLVORO PAIS FALOU COM O MESTRE SOBRE A MORTE DO CONDE JOÃO FERNANDES, E DO ACORDO EM QUE AMBOS FICARAM.

Falou o Conde ao Mestre dAvis, dizendo como Álvoro Pais havia de falar com ele dalgumas coisas de sua honra e serviço, e que o fosse ver quando cavalgasse pela vila, porquanto por azo da sua doença não podia ir onde ele pousava.

O Mestre, para saber o que era, não tardou muito de ir lá, e foi-lhe falar à sua pousada. E sendo ambos em lugar apartado, começou Álvoro Pais por razoar tudo o que dissera ao Conde de Barcelos, e a resposta de escusa que nele achara, e que depois viera a cuidar que nenhum outro havia no reino que mais razões tivesse para o fazer que ele.

Primeiramente, disse Álvoro Pais, por vós serdes irmão delRei, a que a sua desonra mais deve doer que a nenhum outro. A segunda, porque fostes por azo dele e da Rainha preso [48] posto em tal perigo como todos sabem, e que por mais não fosse senão para segurar a vossa vida, que nunca há-de ser segura enquanto o Conde João Fernandes for vivo, por isto somente o devíeis fazer, pois que agora que elRei é morto usarão mais de sua maldade, e receando-se de vós, que bem sabem que disto deveis ter maior sentido do que qualquer outra pessoa, sempre vos buscarão azo e caminho por onde vossa vida seja cedo finda. E pois que vingança deste feito a nenhum outro mais pertence do que a vós, fazendo-o da guisa que eu vos digo praticareis em tal grande façanha, e muito de lembrar aos que depois vierem, em tanto que nem uma coisa de louvor entre os homens seria agora achada que fosse igual ou parelha desta.

O Mestre, ouvindo as suas boas e muitas razões, com a grande vontade que disto havia, bem outorgava de o fazer, mas eram-lhe presentes tais e tão grandes dúvidas que todos os caminhos para o pôr em obra eram para ele escurecidos com grandes empachos [49] , dizendo em especial o Mestre que quem a tal feito se houvesse de aventurar, mormente dentro da cidade, cumpria [50] de ter alguma ajuda do povo, por azo do cajão [51] que se recrescer podia.

Álvoro Pais, com o desejo que havia, mostrava ao Mestre serem todas as razões para o acabar tão ligeiras como se tratasse dum pequeno feito. E quanto à ajuda do povo em que o Mestre falou muito, respondeu-lhe e disse que se ele o fazer quisesse, lhe oferecia a cidade em sua ajuda, entendendo de o assim conseguir.

O Mestre, cobiçoso de honra por sua ardente natureza e grande coração [52] , movido pelos ditos dele, determinou de o pôr em obra. O homem bom [53] , quando lhe ouviu dizer que todavia queria pôr mão em tal feito, foi tão ledo que mais ser não pôde, e assim como chorando com prazer se afastou dele um pouco, olhando-o, e disse, E é isto verdade, filho, Senhor, que vós tão boa coisa como aquesta [54] quereis fazer?

Certamente, disse o Mestre, sim, e que não o deixaria de acabar por coisa que avir pudesse.

Então Álvoro Pais se chegou a ele e beijou-o no rosto, dizendo, Agora vejo eu, filho, Senhor, a diferença que há dos filhos dos reis aos outros homens.

Começaram então de falar muito em como se melhor podia azar a sua morte e por que guisa. E depois de grande espaço em que nisto houveram falado, despediu-se o Mestre e foi-se para a sua pousada.

14. COMO O CONDE JOÃO FERNANDES VEIO AO SAIMENTO DELREI E O MESTRE FOI ORDENADO POR FRONTEIRO EM RIBA DODIANA.

Porquanto dissemos do Conde João Fernandes que na noite em que se finou elRei, partiu mui trigoso [55] para o seu condado, receando-se naquela hora de receber dano pelo que tinha feito, bem podem alguns neste ponto dizer como é que depois foi ousado de vir ao saimento – onde foram juntos muitos mais senhores e fidalgos do que aqueles que eram presentes quando elRei morreu – pois se só dalguns tanto se receava, que mui poucos eram em Lisboa naquela sazão [56] em que ele se finou, porque como vieram das bodas com a Rainha, cada uns se foram para as suas terras e alcaidarias, assim como Gonçalo Vasques dAzevedo para Santarém, onde era alcaide e tinha seus bens, e assim outros muitos.

Onde sabei que assim aconteceu que ele, receando-se e com temor, veio, e que quando a Rainha escreveu a todos os fidalgos que viessem ao saimento e chegou a carta ao Conde João Fernandes, sua mulher lhe contradisse muito tal vinda, pedindo-lhe por mercê que a escusasse, que o não entendia para seu proveito, e ele, não curando do seu conselho, partiu para Lisboa e chegou a Santarém, e foi pousar com Gonçalo Vasques dAzevedo – muito seu amigo segundo mostrança de fora [57] – o qual o recebeu mui bem e começou de o prasmar [58] porque trazia preto e não burel, como os outros, e fez-lho então vestir. O Conde perguntou-lhe se havia de ir ao saimento [59] , e ele respondeu que não, dando suas coloradas [60] escusas, mas a verdade era que ele suspeitava o que depois aconteceu e não se queria ver em tal alvoroço, por não saber o que se havia de seguir, porém aconselhou-lhe que não fosse lá. O Conde, embora se receasse de algumas pessoas, de nenhum se tanto temia em sua vontade [61] como do Mestre dAvis, irmão delRei, mas este receio que tinha dele e dos outros não lhe gerava contudo privança de fala, mas leda conversação e mostrança de bem-querer, e se alguma coisa se ele receava em vida delRei dom Fernando, e muito mais quando ele morreu, agora ia já cobrando mais segura vontade, entendendo que cada um de tal feito [62] perderia o sentido pelos muitos cuidados que se recresciam a todos, começando-se agora mundo novo. E com esta fouteza partiu então de Santarém, não crendo nenhum contrário que lhe avir pudesse – depois também a fortuna lho fazia mais largo entender assim, que tinha já ordenado de o cedo oferecer à morte – e chegou a Lisboa, onde já achou muitos que vinham ao saimento. E bem recebido de todos, foi em grande privança e gasalhado da Rainha, desembargando com ele todos os desembargos do reino.

E como o saimento foi feito, entrou logo a Rainha em conselho com os senhores para se falar nos tratos que entre os Reis havia, os quais diziam que elRei de Castela queria quebrar, e que juntava gentes para entrar no reino. Foi então acordado pela Rainha e por todos os que aí eram que o reino se defendesse, querendo elRei de Castela a ele vir, e que não lhe obedecessem de outra guisa salvo naquilo que nos tratos era contido, e pois que todos ali eram juntos, que ordenassem logo as frontarias e quais estivessem nelas, e com quantas lanças cada um. E foi assim de facto, que foram logo repartidas as comarcas, e ordenado ao Mestre defender as terras do Mestrado e certas vilas e castelos derredor, dando-se-lhe logo por escrito todos os que com ele as haviam de guardar e o desembargo do soldo para estes.

15. COMO FOI ORDENADA A MORTE DO CONDE JOÃO FERNANDES, E COMO O MESTRE PARTIU DE LISBOA NÃO LEVANDO TENÇÃO DE O MATAR.

Buscadas as razões dos que fizeram livros desta história pelo testemunho daqueles que foram presentes, segundo todos pela maior parte dizem, o Mestre, como teve acordado com Álvoro Pais de matar o Conde João Fernandes, logo falou deste segredo com o Conde de Barcelos dom João Afonso, com Rui Pereira e outros, os quais lhe certificaram que seriam prestes com ele quando nisto quisesse pôr mão. E enquanto a Rainha ordenava suas coisas sobre o regimento e apercebimento do reino, em que o Mestre todavia sempre estava [63] , ia ele muitas vezes a casa de Álvoro Pais, algumas delas com o Conde e outras adeparte [64] , falar com ele sobre a morte do Conde João Fernandes, e em especial de como se poderia haver pela sua parte a ajuda do povo. Álvoro Pais, muito talantoso [65] de ver tal feito acabado, todavia [66] lhe certificava que sim, não porque ele descobrisse a nenhum tal segredo, mas entendia, como era certo, que a não boa vontade que as gentes tinham à Rainha e ao Conde os faria a todos demover [67] contra eles, como vissem lugar e tempo azado. E acordaram para se tudo melhor fazer, tanto que o Mestre chegasse aos paços e começasse nisto a pôr mão, que logo Gomes Freire, seu pajem, em cima do cavalo em que andava, começasse de vir rijo pela vila bradando até casa de Álvoro Pais, dizendo a altas vozes que acorressem ao Mestre dAvis, que o matavam, e que então sairia ele [68] com os seus em maneira de acorro, chamando quantos achasse pelas ruas, os quais se iriam com ele de boa mente como ouvissem tal apelido [69] , e que desta guisa se juntaria toda a cidade em sua ajuda. Tendo falado desta maneira e acordado de se fazer assim, foi o Mestre desembargado de tudo, e sendo-lhe dadas cartas quejandas [70] cumpriam, despedido da Rainha para partir.

Ora aqui desvairam [71] alguns autores sobre a partida do Mestre, e dizem assim. Uns contam que ele fingiu que se partia naquele dia, como de facto partiu, para o Conde João Fernandes segurar-se mais dele, se algum receio tinha, e o Mestre tornar ao outro dia e o achar mais desapercebido e não tão acompanhado, e para que Álvoro Pais se avisasse [72] entretanto de sua parte. Outros afirmam a sua partida por outro modo, e deste nos praz mais, dizendo que não embargando que o Mestre ficasse com Álvoro Pais de pôr em tal feito mão da guisa que ouvistes, depois ele receava muito de o fazer, por estas seguintes razões. À uma, porque tais aí houve com quem ele falou que se escusaram disto, quando o houve de pôr em obra, temendo-se da Rainha, que tinha elRei de Castela pela sua parte, o que lhes podia depois azar a sua desonra e morte, salvo que foi Rui Pereira e alguns do Mestre a quem ele isto descobrira. Depois, duvidando muito o Mestre da ajuda do povo se não seguir como dizia Álvoro Pais, ou de vir a tempo que não prestasse, era posto em grão pensamento. Porém a principal razão sobre todas era o grande aguardamento de muitos e bons fidalgos que sempre acompanhavam com o Conde João Fernandes, tal como Martim Gonçalves dAtaíde, João Afonso Pimentel, Pêro Rodrigues da Fonseca, FernandAfonso de Miranda e outros, e bem trinta escudeiros seus de cote. Assim que cuidadas bem tais razões, não embargando o seu ardido coração e boa vontade, foi-lhe mui duvidoso de começar tal feito. E partiu da cidade, depois de comer, e foi dormir a Santo António, uma aldeia que são daí três léguas [73] , não levando já nenhuma tenção de matar o Conde.

Ali ele tornou a cuidar, como esta coisa já fora falada com tantos, que porventura alguns, então ou depois, para cobrar a graça da Rainha e isso mesmo do Conde João Fernandes, o podiam dizer a cada um deles, da qual coisa descoberta se seguia a ele e aos seus grande cajão e perda, e por essa guisa a todos os que foram em tal conselho. E cuidando bem nisto, começou a crescer nele um esforçado desejo, com firme propósito de ao outro dia matar o Conde, pondo-se a qualquer ventura que acontecer pudesse. E para tirar suspeita de sua tornada, chamou logo FernandÁlvares dAlmeida, um cavaleiro da Ordem e vedor de sua casa, e disse-lhe, Tornai-vos logo a dormir a Lisboa e fazei-me de manhã prestes de jantar [74] , e dizei à Rainha que eu entendo de lá tornar porque me parece que não vou desembargado como cumpre. E ele partiu logo e chegou ao alto serão à cidade, porém ainda falou à Rainha e ao Conde daquilo por que vinha, e como ao outro dia o Mestre havia de tornar porque lhe parecia que não ia desembargado como cumpria. A Rainha e o Conde responderam que tornasse muito em boa hora, que ele haveria desembargo como chegasse [75] .

16. COMO O MESTRE TORNOU A LISBOA, E DE QUE GUISA MATOU O CONDE JOÃO FERNANDES.

Ao outro dia pela manhã partiu o Mestre daquela aldeia onde dormira e começou de andar o seu caminho sem trigança [76] alguma desacostumada, e no caminho dizem que descobriu o Mestre esta coisa a alguns seus, convém a saber, ao Comendador de Juromenha [77] , a FernandÁlvares, a Lourenço Martins de Leiria, a Vasco Lourenço, que depois foi Meirinho, a Lopo Vasques, que depois foi Comendador-mor, e a Rui Pereira, que o foi receber. E disse a um dos seus, Ide-vos diante quanto puderdes e dizei a Álvoro Pais que se faça prestes, que eu vou para fazer aquilo que ele sabe. O escudeiro andou depressa e deu-lhe o recado, e tornou-se para onde vinha o Mestre. E este trazia uma cota vestida e até vinte consigo, com cotas, braçais e espadas cintas como homens caminheiros, e chegou ao Paço à hora de terça [78] ou pouco mais, sem se deter entretanto em outra parte. E quando descavalgou e começaram de subir acima, disseram uns aos outros mui manso [79] , Sede todos prestes que o Mestre quer matar o Conde João Fernandes.

A Rainha estava em sua câmara, com algumas donas assentadas no estrado, e o Conde de Barcelos, seu irmão, o Conde dom Álvoro Peres, FernandAfonso de Zamora, Vasco Peres de Camões e outros estavam num banco, e o Conde João Fernandes, que antes estivera à cabeceira deles, estava então ante ela e começava de lhe falar passamente [80] . E em lhe estando assim falando bateram à porta, e o porteiro, como entrou o Mestre, quis cerrar a porta para não entrar nenhum dos seus, e disse que o perguntaria à Rainha, não por deles haver nenhuma suspeita, mas porque a Rainha estava com dó [81] e não era costume de nenhum entrar, salvo aqueles senhores, sem lho primeiro fazer saber, e o Mestre respondeu ao porteiro, Que hás tu assim de dizer? E em isto entrou de guisa que entraram os seus todos com ele, e ele moveu passamente [82] para onde estava a Rainha, e ela se levantou, assim como todos os outros que eram presentes. E depois que o Mestre fez reverência à Rainha e mesura a todos, e estes a ele recebimento, disse a Rainha que se assentassem e falou ao Mestre, dizendo, E pois, irmão, que é isto a que tornastes de vosso caminho?

Tornei, Senhora, disse ele, porque me pareceu que não ia desembargado como cumpria. Vós me ordenastes que tivesse carrego da comarca dEntre Tejo e Odiana, se porventura elRei de Castela quisesse vir ao reino e quebrar os tratos dentre vós e ele, e porque aquela frontaria é grossa de gentes e grandes senhores, assim como do Mestre de Santiago, do Mestre de Alcântara e doutros e bons fidalgos, e aqueles que vós assinastes para a guardarem comigo me parecem poucos, por ende [83] tornei para me dardes mais vassalos, para vos eu poder servir segundo cumpre a minha honra e vosso serviço.

A Rainha disse que era mui bem, e mandou logo chamar João Gonçalves, seu Escrivão da Puridade, para que visse o livro dos vassalos daquela comarca e lhe desse quantos e quais o Mestre requeresse, a fim de que fosse logo desembargado de tudo. João Gonçalves foi chamado depressa e foi-se assentar com os seus escrivães a prover dos livros para desembargar o Mestre.

Em isto começaram a convidá-lo os Condes cada um por si, e isso mesmo o Conde João Fernandes se afincava mais do que os outros para que comesse com ele. O Mestre não quis tomar convite de nenhum, escusando-se por suas palavras, dizendo que já tinha prestes o comer que mandara fazer ao seu vedor, porém dizem que disse mui escusamente ao Conde de Barcelos, que o não sentiu nenhum, Conde, ide-vos daqui, que eu quero matar o Conde João Fernandes, e que este respondeu que se não iria, mas que estaria aí com ele para o ajudar. Não sejais, disse o Mestre, mas rogo-vos todavia que vos vades daqui e me aguardeis para o jantar, que eu, Deus querendo, tanto que isto for feito logo irei comer convosco.

A ventura, para melhor azar a morte do Conde João Fernandes, começou de lhe fazer recear a vinda do Mestre por tal guisa, que lhe pôs na vontade que mandasse a todos os seus que se fossem armar e se viessem para ele, e de qualquer jeito que foi [84] , partiram-se os seus todos do Paço, tanto fidalgos que o acompanhavam como os outros, e foram-se armar para se virem para ele, e esta foi a razão por que ele ficou sozinho de todos eles, e nenhum estava aí quando morreu.

A Rainha isso mesmo pôs femença [85] nos do Mestre, e vendo-os assim todos armados não lhe prouve em seu coração e disse, falando para todos, Santa Maria vale! Como os ingleses hão mui bom costume, que quando são no tempo da paz não trazem armas nem curam de andar armados, mas boas roupas e luvas nas mãos como donzelas, e quando são na guerra então costumam [86] as armas e usam delas como todo o mundo sabe.

Senhora, disse o Mestre, é mui grande verdade. Mas isso fazem eles porque hão mui amiúde guerras e poucas vezes paz, e podem-no mui bem fazer, mas para nós é ao contrário, que havemos mui amiúde paz e poucas vezes guerra, e se no tempo da paz não usarmos as armas, quando viesse a guerra não as poderíamos suportar.

E falando em isto e em outras coisas chegavam-se as horas do comer, e despediu-se o Conde de Barcelos e depois os outros, que aos mais deles dava a vontade daquilo que se depois fez.

Ficando assim o Conde João Fernandes, gastava-se-lhe o coração, e tornou a dizer ao Mestre, Senhor, vós todavia comereis comigo.

Não comerei, disse o Mestre, que tenho feito de comer.

Sim, comereis, disse ele, e enquanto vós falais, irei eu mandar fazê-lo prestes.

Não vades, disse o Mestre, que vos hei de falar uma coisa antes que me vá, e logo me quero ir, que já é horas de comer.

Então se despediu da Rainha, tomou o Conde pela mão e saíram ambos da câmara até uma grande casa que era diante, os do Mestre todos com ele, e Rui Pereira e Lourenço Martins mais cerca [87] . E chegando-se o Mestre com o Conde cerca duma fresta, sentiram os seus que o Mestre lhe começava de falar passo [88] , e estiveram todos quedos. E as palavras foram entre eles tão poucas e tão baixo ditas que nenhum por então entendeu quejandas [89] eram, contudo afirmam que foram desta guisa.

Conde, eu me maravilho muito de vós serdes homem a que eu bem queria e de vos trabalhardes de minha desonra e morte.

Eu, senhor! Disse ele, Quem vos tal coisa disse mentiu-vos mui grande mentira.

O Mestre, que mais vontade tinha de o matar que de estar com ele em razões, tirou logo um cutelo comprido e enviou-lhe um golpe à cabeça, porém não foi a ferida tamanha que dela morresse, se mais não houvera. Os outros que estavam derredor, quando viram isto, lançaram logo as espadas de fora para lhe dar, e movendo-se ele com aquela ferida para se acolher à câmara da Rainha, Rui Pereira, que era mais cerca, meteu por ele um estoque de armas de que logo caiu em terra morto.

Os outros quiseram-lhe dar mais feridas [90] , mas o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar, e mandou logo a FernandÁlvares e Lourenço Martins que fossem cerrar as portas, para que não entrasse nenhum, e dissessem ao seu pajem que fosse depressa pela vila, bradando que matavam o Mestre, e eles assim o fizeram.

E era o Mestre, quando matou o Conde, em idade de vinte e cinco anos e andava nos vinte e seis. E foi morto aos seis dias de Dezembro, na era já escrita de quatrocentos e vinte e um [91] .

17. DO QUE A RAINHA DISSE POR A MORTE DO CONDE, E DOUTRAS COISAS QUE AÍ AVIERAM.

Deixemos o pajem ir onde lhe mandaram e vejamos entretanto o que se fez no Paço da Rainha.

Onde [92] assim foi que os estrupidos e a volta que todos fizeram, quando o Conde foi morto, soaram rijamente na câmara onde ela estava, que era muito perto, e tais aí houve que pensaram que eram alguns que não vieram ao saimento e que chegavam então e faziam o seu dó.

A Rainha, espantada da volta que ouvia, levantou-se em pé, não sabendo o que cuidar, e disse que vissem o que era aquilo. Os outros depressa olharam por entre as portas, e disseram-lhe que o Conde João Fernandes era morto. A Rainha, quando isto ouviu, houve grande temor, contudo disse, Ó Santa Maria vale! Como me mataram em ele um mui bom servidor! E morre mártir, que o mataram mui sem porquê. Mas eu prometo a Deus que me vá de manhã a São Francisco, e que mande fazer aí uma grande fogueira, e eu farei tais salvas [93] quais nunca mulher fez por estas coisas! O que ela tinha mui pouco em vontade de fazer.

Os outros que aí estavam, assim homens como mulheres, quando isto viram, cuidando àquela hora ser todos mortos, não ousavam sair pelas portas, mas fugiam pelas janelas e alguns deles pelos telhados, outros por degraus não contados, e assim cada um por onde melhor podia. Também João Gonçalves, Escrivão da Rainha, que estava vendo o livro dos vassalos, quando isto viu, começou de fugir, ele e os seus, cada um por onde melhor azo achava.

O Mestre moveu [94] dali para um grande eirado, logo muito cerca, e a Rainha começou de dizer, Vão perguntar ao Mestre se hei eu de morrer. E foram-lho perguntar a grande medo [95] , e ele respondeu muito mansamente, Dizei à Rainha, minha Senhora, que Deus me guarde de mal, que assossegue em sua câmara e não haja nenhum temor, que eu não vim aqui para empecer a ela mas para fazer isto a este homem, que mo tinha bem merecido. E foram-lhe [96] com esta resposta, e ela disse, Pois se assim é, dizei-lhe que desembargue os meus Paços! Que ela não via a hora em que se o Mestre partisse, porque não era segura da sua vida enquanto ele ali estivesse.

Em isto, tornando Lourenço Martins donde fora ajudar a cerrar as portas, viu estar uma soma de prata diante a cozinha, em uma mesa, e tomou-a toda, lançou-a na aba e levou-a ao Mestre, dizendo, Digo, Senhor, que já vós aqui tendes para a despesa de hoje. O Mestre respondeu-lhe asperamente que tornasse a pôr a prata onde a achara, que ele não viera ali para aquilo, mas para fazer o que tinha feito, e Lourenço Martins assim fez.

Os fidalgos que acompanhavam com o Conde e os que com ele viviam, não sabendo do que o Mestre tinha feito, vinham já todos armados para o Paço da Rainha, e vindo muito cerca deles a volta [97] da gente que começava já de ferver pela rua, alguns que saíram de dentro lhes disseram que não fossem lá, que o Conde era já morto, as portas cerradas e que as gentes que vinham contra os Paços eram tantas, segundo diziam, que se lá fossem nunca nenhum deles escaparia e veriam de si mau pesar [98] .

Tornaram-se então para donde vieram e cada um trabalhou de se pôr a salvo, receando-se que todos os que eram da parte da Rainha e do Conde fossem mortos àquela hora.

 



[1] Na História do Rei D. Fernando.

[2] Guardado.

[3] Ajuntavam, acrescentavam.

[4] Guarda.

[5] Escondidamente.

[6] Impacientaram-se, agitaram-se.

[7] A luz da tocha.

[8] Duma maneira ou doutra.

[9] Preparar.

[10] História do Rei D. Fernando.

[11] Adultério.

[12] Quotidianamente, todos os dias.

[13] Em montadas.

[14] Assinalado, considerável.

[15] Em Penela.

[16] Desencontrou.

[17] Pública.

[18] Laço.

[19] E pela carta.

[20] Dado que Gonçalo Mendes estava vinculado ao Rei pelo juramento de menagem que prestara, não podia entregar o castelo ao Mestre de Avis sem que primeiramente o Rei o libertasse desse vínculo «uma e duas e três vezes», conforme a fórmula tradicional.

[21] Considerar atentamente.

[22] Que provocaria grande espanto, pasmo.

[23] Em guisa de nunca mais poder recuperar os reinos de Portugal e do Algarve.

[24] Rasgou.

[25] Daquele mal.

[26] Não havia para o rei.

[27] Exéquias.

[28] Desgostoso.

[29] Equipados, aparelhados.

[30] Exéquias ao trigésimo dia.

[31] Folgou, conviveu.

[32] O Infante era português e o Conde era um meio-irmão do Rei de Castela. 

[33] A propósito da.

[34] Seguramente, com toda a certeza.

[35] Para.

[36] Diligência, prontidão.

[37] Convencer, levar a.

[38] Atrás de, no encalço.

[39] Neste caso, burgueses, e em particular o seu decano lisboeta, Álvaro Pais.

[40] Cuja causa, dos feitos.

[41] Ora.

[42] Maleita, doença.

[43] Por causa.

[44] Propício, oportuno.

[45] De modo fácil.

[46] Vontade.

[47] Aventura, desafio inesperado.

[48] História do Rei D. Fernando.

[49] Estorvos, obstáculos.

[50] Necessitava.

[51] Por causa do perigo.

[52] Coragem.

[53] Burguês.

[54] Esta.

[55] Pronto, prestes, apressado.

[56] Ocasião, momento.

[57] Na aparência, exteriormente.

[58] Censurar, criticar.

[59] Se Gonçalo Vasques de Azevedo iria às exéquias.

[60] Fingidas.

[61] Espírito, alma.

[62] O intento de o assassinar.

[63] Era presente, participava.

[64] A sós, sozinho.

[65] Desejoso.

[66] Sempre.

[67] Mexerem-se, moverem-se.

[68] Álvaro Pais, o chefe da vereação lisboeta.

[69] Chamamento do povo às armas.

[70] Tais como.

[71] Divergem, não concordam.

[72] Preparasse.

[73] Seguramente, Santo Antão do Tojal, no concelho de Loures. Em documentação de 1918, no Arquivo Municipal, relativa a pensões e mobilização de soldados, ainda continuava a usar-se o topónimo de Santo António do Tojal. – Nota de J. A.

[74] Almoço.

[75] Logo que chegasse.

[76] Pressa.

[77] Fernão Rodrigues de Sequeira.

[78] Ao final da manhã.

[79] Em voz baixa.

[80] Tranquilamente.

[81] De luto.

[82] Andou devagar, calmamente.

[83] Por isso, por tal razão.

[84] Fosse como fosse.

[85] A sua atenção.

[86] Põem as armas, andam com as armas.

[87] Próximo, perto.

[88] Baixo.

[89] Quais.

[90] Golpes.

[91] Ano de 1383.

[92] Ora.

[93] Juízo de Deus, prova pela qual alguém procurava demonstrar a sua inocência.

[94] Passou.

[95] Muito a medo.

[96] Tornaram-lhe.

[97] Ajuntamento, tumulto.

[98] Ver-se-iam maltratados.